A competição que fazemos com nós mesmos talvez seja a mais cruel de todasArte: Kiko
Flores e recomeços
Nossas frustrações se tornam ainda maiores quando sentidas de forma inédita pelo nosso coração. Até juramos que não vamos mais amar ou nos encantar por ninguém. Mas a vida se encarrega de nos contradizer. Felizmente
Sentada à mesa de uma cafeteria em Duque de Caxias, na manhã da última terça-feira, eu sentia que o meu pequeno buquê de astromélias amarelas chamava a atenção. Repousei, então, as flores delicadamente ao lado do café expresso recém-trazido pela atendente e servido em uma tábua de madeira em formato de coração. Como acompanhamento, um chocolate com o mesmo desenho afetuoso, além de um copinho de água com gás. Um cenário bem canceriano, que fiz questão de registrar com a câmera do celular. "Adorei as suas flores", comentou a funcionária. Logo peguei aquele ramalhete e lhe mostrei o arranjo mais de perto, contando que havia acabado de comprar em uma floricultura a menos de cinco minutos dali, indo a pé.
Enquanto tomava o café vagarosamente, tentando encontrar uma pausa necessária na correria do dia a dia, eu me lembrei de uma mensagem enviada por uma amiga da época de faculdade no dia anterior. Pelo Instagram, ela me encaminhou um belo texto que falava sobre como o amor nos permite ver além. E ainda me escreveu uma mensagem: "Me lembrou muitos dos seus textos". Achei tudo muito afetuoso: a recordação e o olhar dela sobre mim. Afinal, eu realmente descobri no amor, por mim mesma e pelos outros, a força de ser quem eu sou.
Logo, os meus pensamentos na cafeteria foram parar na aula de pilates daquele mesmo dia, um pouco mais cedo, antes da minha ida à floricultura. Curiosamente, no meio dos exercícios, alguém comentava sobre a descrença da juventude diante de um desencontro amoroso. E é realmente assim que acontece. Nossas frustrações se tornam ainda maiores quando sentidas de forma inédita pelo nosso coração. Até juramos que não vamos mais amar ou nos encantar por ninguém. Mas a vida se encarrega de nos contradizer. Felizmente.
Também faz parte do curso natural entendermos as nossas diferentes fases. Talvez, no entanto, esse olhar mais consciente só seja possível algum tempo depois. Na mesma aula de pilates, aliás, quis repetir a foto de uma postura que havia feito em 2016. E, ao comparar o antes e o depois, percebi que melhorei muito o meu alongamento. Até brinquei com a professora, que já me acompanha há quase 10 anos: "Naquela época você dizia que estava bom, hein!" Sabiamente, ela respondeu: "Estava bom, sim, para aquele momento".
E é dessa forma que aprendi a enxergar a vida. Hoje entendo que fui e sou o que posso ser em cada uma das minhas etapas. A competição que fazemos com nós mesmos talvez seja a mais cruel de todas. Não é justa a busca da nossa "melhor versão" nem possível a repetição de um corpo ou de um rosto da juventude. A Ana de sete anos atrás era mais magra, embora não tão flexível nem tão consciente do amor por ela mesma. A de agora tem quilos a mais, é mais alongada e compra flores para si mesma. Que bela é a possibilidade de mudar. Aliás, cheguei em casa, peguei uma garrafa de vinho já vazia, retirei o seu rótulo e a transformei num belo vaso para as astromélias amarelas. O recipiente se transformou, reforçando uma ideia que muito me atrai: a de recomeço. Válida para coisas e especialmente para nós mesmos.

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