Projeto Escola no Acervo, da Fundação Getulio Vargas, promove visitas de alunos de escolas públicas a arquivos de personalidades da História do Brasil
Inscrições para visitação de escolas públicas e particulares estão abertas para o segundo semestre; acervo conta com mais de 230 arquivos de personalidades da política e das ciências sociais
Alunos do ensino básico em atividade do projeto Escola no Acervo, da FGV - Divulgação
Alunos do ensino básico em atividade do projeto Escola no Acervo, da FGVDivulgação
Rio - Iniciativa que já levou mais de 700 alunos a conhecerem, de forma lúdica, arquivos pessoais de personalidades da História do Brasil, o projeto 'Escola no Acervo', do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC), completou um ano de visitas no último mês de junho. Neste tempo, foram 40 escolas participantes.
A ideia do projeto é ampliar, por meio da educação, o público para a visitação ao acervo, com dinâmicas e linguagens voltadas para alcançar estudantes do ensino básico, tornando o espaço aberto para todos.
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Martina Spohr, de 39 anos, historiadora e coordenadora do Escola no Acervo junto com Daniele Amado, explica que a falta de diversidade na audiência tinha a ver com a linguagem do acervo, obstáculo que está sendo deixado para trás com o projeto:
"Uma linguagem acessível para alunos dos ensinos Médio e Fundamental é o que precisamos para ampliar o público do acervo, que era voltado para pesquisadores da área de história, ciências sociais, mestrado e doutorados. Nós não tínhamos a oportunidade de ampliar por causa da linguagem dos arquivos pessoais, já que são mais de 200 arquivos de personagens políticas, cientistas sociais, com características e conteúdos sérios. Então, produzimos um material que conversasse com os jovens", afirma.
O programa contempla escolas particulares e públicas, estas últimas vindas da Região Metropolitana do Rio, em sua maioria. Para garantir o acesso à Casa Acervo, a FGV disponibiliza transporte gratuito para as escolas públicas. As escolas particulares podem solicitar o transporte através de envio de justificativa, que é analisada pela coordenação.
As incursões começam na 'Casa Acervo' em Botafogo, na Zona Sul, criada para o projeto, com uma sala educativa onde são realizadas atividades multimídias e interativas relacionadas a arquivos pessoais, fontes históricas, práticas arquivísticas e a história política contemporânea do Brasil. A primeira etapa é uma breve introdução, com material lúdico, sobre do que se trata um acervo, como ele funciona e qual é a sua importância para a sociedade. A função de um documento histórico também está na pauta da conversa. Em seguida, há um jogo de tabuleiro, impresso em tamanho grande como se fosse um tapete, em que o grupo se divide em dois times, com um representante cada, para tratar de fatos da história do país, como a criação das leis trabalhistas e a censura durante o período da Ditadura Militar. As peças são os próprios estudantes. O jogo simula uma disputa eleitoral, para os jovens aprenderem a respeito de mecanismos usados por políticos nas campanhas, por exemplo, viagens, discursos e jingles. Algumas amostras de propaganda disponibilizadas são da época de campanha de Getulio Vargas (1882-1954), ex-presidente do Brasil.
Daniele conta que o jogo do tapete é um dos momentos mais animados da visita, em que os alunos usam e abusam da imaginação: "Como fala das questões políticas, mas estimula uma disputa eleitoral entre os dois grupos, é um momento que tem que escolher nome de partido sem ter relação com política, então eles têm que ser criativos. Às vezes temos nomes divertidos como nome de comida que gostam ou homenagens aos professores. Os momentos de interações são sempre os mais alegres da visita", diz a coordenadora.
"Nessas interações sempre pensamos no lado lúdico, mas que seja pedagógico e que contribua de alguma forma para a formação dos alunos. Sempre fazemos atividades divertidas, mas que os ajudem a refletir sobre política, cidadania e sobre a importância da preservação dos documentos históricos que o CPDOC abriga", esclarece Daniele.
Após o jogo do tabuleiro, os grupos se mantêm para outras duas atividades diferentes, mas ambas com o objetivo de fixar na memória os aprendizados sobre acervos. O primeiro grupo trabalha em telas interativas com jogos produzidos pela equipe, como Sete Erros e leituras de documentos históricos. Já o outro participa de um quiz, com perguntas que devem ser respondidas com 'certo' ou 'errado' sobre como funciona um arquivo e o que é um documento histórico.
A recepção termina com uma visita guiada ao interior do arquivo, em um prédio próximo à Casa Acervo, para os alunos verem o local onde os documentos estão guardados e ainda aprenderem sobre questões de segurança e armazenamento. Ali, a equipe sempre deixa separadas algumas fotografias da Rainha Elisabeth II, do Reino Unido, que morreu no ano passado. O motivo? No início das visitas, sempre há algum aluno que pergunta se há registros de duas majestades: a Rainha Elisabeth II e Pelé. Os funcionários explicam que a Rainha Elisabeth II não é brasileira, então não há acervo pessoal dela no CPDOC. Porém, os surpreendem com estas imagens que pertencem a arquivos de outras personalidades, e aproveitam para explicar sobre os arquivos pessoais, que geralmente terão documentos de outras pessoas, que não é a que acumulou, mas de pessoas que se relacionou na vida em algum momento da vida.
No final, eles recebem um certificado de participação, para que comecem a construir o seu próprio arquivo pessoal.
Bárbara Castanheira, de 32 anos, coordenadora da Escola Municipal Professor Souza da Silveira, em Quintino Bocaiuva, na Zona Norte, levou cerca de 15 alunos, dos 8° e 9° anos, para uma visita em maio deste ano e conta que os jovens aprenderam e se divertiram com a experiência: "Foi importante para eles! Acho que agregou muito ao conhecimento deles entender o que são documentos históricos e como até uma foto do Instagram pode ser um. Foi muito legal eles também entenderem que a história tem várias versões a partir do ponto de vista em que é contada. Foi uma reflexão que eles nunca haviam feito", afirma a educadora.
"A didática foi ótima, confesso que logo que marquei para o grupo ir fiquei com medo de ser algo muito teórico e entediante para os adolescentes, mas quando chegamos lá, a equipe nos recebeu super bem, soube falar a língua deles e realizou jogos e competições. Tudo muito bem explicado e contando muitas vezes sobre pessoas conhecidas deles, o que facilitou a interação", completa Bárbara.
Para Flávia Martins, educadora social do projeto História Presente, do Instituto Lima Barreto no Colégio Estadual Souza Marques, a visita foi uma experiência significativa para os seus alunos do ensino médio:
"A visita foi muito importante para os estudantes. Através dela, eles tiveram a oportunidade de conhecer um arquivo, debater o que é documentação histórica e a importância da preservação documental. A casa acervo possui ainda uma mediação cultural pensada através do educativo, ou seja, formas pedagógicas especificas que se aproximam a crianças e adolescentes. Os alunos adoraram e, como educadora, também!"
Financiado pela rede de pesquisa aplicada da Fundação Getulio Vargas, com orçamento até o fim de 2023, a coordenação tem buscado parceiros para continuar com o formato do projeto.
"Este é um projeto muito importante, com um público que, muitas vezes, nunca acessou a Zona Sul. É uma medida de inclusão também, tem escolas que vêm de muito longe, que passam de ônibus pelo Pão de Açúcar, que muitos alunos nunca tinham visto. Então acaba sendo um direito de conhecer a própria cidade pelo Escola no Acervo. Por isso queremos continuar com o programa de inclusão e acesso à cultura", afirma Martina.
De missão em missão, criando relatórios com os mais variados tipos documentais e temáticas, alunos do 9º ano da Escola Municipal Mário Paulo Brito se surpreenderam com a possibilidade de estudar e conhecer documentos pessoais de importantes personagens históricos do Brasil, como o ex-presidente Getulio Vargas, apenas jogando no celular. O aplicativo Game Casa Acervo, lançado pela Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV CPDOC), busca atrair os mais jovens e estimular a educação patrimonial. Para a professora Cátia Louzada, que ministra a disciplina de História para turmas de 8º e 9º anos do Ensino Fundamental em escolas públicas, a iniciativa de elaboração do jogo é positiva porque traz uma concretude da história para os estudantes da educação básica.
"O game ajuda na compreensão do ‘de onde vem’ o que se estuda na escola. Não é um conjunto de histórias dito pelos professores ou publicado no livro didático. São trabalhos de investigação em fontes históricas. As pessoas produziram esses registros pessoais e profissionais ao longo de suas vidas”, destaca Cátia. Segundo a professora, o que chama atenção no game é a possibilidade de acesso rápido a diferentes tipos documentais. "Ter esses documentos em mãos, no celular, é uma ferramenta para trazer essa concretude da história".
A educadora afirma que, mesmo com a dificuldade de acesso aos recursos tecnológicos, é possível inserir o aplicativo em sala de aula trabalhando em grupo, com os estudantes compartilhando esses recursos. A aluna Stephany de Azevedo, de 14 anos, da Escola Municipal Mário Paulo Brito, achou o jogo instigante: “Desde que conheci o game, não consegui mais parar de jogar. Sempre que não tenho tarefa, estou sem fazer nada em casa, fico jogando. Na verdade, jogo em qualquer lugar, até mesmo quando estou comendo. Se tenho oportunidade, estou jogando”, conta a estudante.
O game educativo é uma maneira lúdica e diferente de explorar as fontes históricas e o universo dos arquivos e da pesquisa. Para jogar, é só baixar o Casa Acervo na loja de aplicativos, de forma gratuita, tanto para Android quanto para IOS. Ao acessar o game, o jogador tem a possibilidade de conhecer o acervo da FGV CPDOC, que este ano comemora os seus 50 anos. O jogador, segundo Daniele Amado, consegue baixar o game e jogar offline. Além disso, o usuário tem a opção de salvar seus avanços de pesquisa, não precisando de uma só vez completar as 40 missões do jogo. Pode ainda brincar com as mais variadas possibilidades de combinações em um relatório de pesquisa, recomeçando com novos tipos de documentos.
"As missões são desafios de pesquisa, em que o jogador é convidado a imergir em um universo de fontes, como fotografias, vídeos e registro de textos. Assim, o jovem vai conhecendo os personagens da história, que no jogo são chamados de titulares, como o ex-presidente Getulio Vargas, a sufragista Almerinda Farias Gama e o ex-ministro da Educação Gustavo Capanema. A ideia, assim, é que os alunos compreendam o que são fontes históricas e como se faz uma pesquisa", explica Daniele. Segundo ela, o game tem o objetivo de contribuir com a construção do conhecimento histórico, só que de forma lúdica, em que o jogador esteja no papel de um pesquisador em um acervo histórico, que, no caso, é a Casa Acervo.
O Acervo de Arquivos Pessoais
O Programa de Arquivos Pessoais (PAP), da Fundação Getulio Vargas, reúne cerca de 248 arquivos de personalidades que tiveram atuação de destaque no cenário nacional, desde 1973 até os dias atuais. O CPDOC foi criado em 73, após a doação do arquivo de Getulio Vargas, que foi o primeiro material do centro de pesquisa. Depois vieram documentos importantes como os dos ex-presidentes Ernesto Geisel (1907-1966) e João Goulart (1919 a 1976), e os de Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo e deputada estadual.
Atualmente, o PAP também recebe doação de arquivos de cientistas sociais, como Gilberto Velho, e está investindo na busca e recepção de mais arquivos de mulheres, de acordo com Martina.
Metade do acervo encontra-se disponível digitalmente no site do programa, para consulta livre: https://cpdoc.fgv.br/, mas os documentos físicos também podem ser examinados pessoalmente, mediante agendamento.
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