Juliana Meletti realiza aplicação dos antibióticos amicacina e tigeciclina todos os dias em sua casaMarcos Porto
Dois dias depois do procedimento, surgiram nódulos doloridos nos pontos de injeção de enzimas e biópsias apontaram que ela foi infectada pela bactéria Mycobacterium abcessus (MNT), cujo tratamento demanda aplicação de antibióticos na veia. A mulher vem sendo atendida em casa pelo plano de saúde para ficar próxima dos quatro filhos e é acompanhada pelo Centro de Referência de Micobactérias e Tuberculose na Fiocruz. Uma internação em hospital levaria cerca de seis meses.
O caso foi registrado na 41ª DP (Tanque) como lesão corporal. Uma audiência no 16º Juizado Especial Criminal (Jecrim) de Jacarepaguá está marcada para 17 de agosto.
"Fica dolorido. Você viu a quantidade de enzimas que foi aplicado naquele local? (sic) Foram três potinhos de enzimas só naquele local. A probabilidade é de ficar super dolorido. Não deixa de usar cinta. Quanto mais apertado, menos dolorido vai ficar. Segunda-feira [a sessão] vai ser mais forte. É assim mesmo, depois passa", afirmou a técnica de enfermagem em áudio à paciente. A profissional também indicou compressas quentes e de gelo nos pontos doloridos.
Atualmente, Juliana passa por um tratamento doloroso com cinco antibióticos, inclusive dois venosos. Ela conseguiu atendimento em casa pelo plano de saúde em maio deste ano e todos os dias recebe enfermeiros para aplicação dos medicamentos. Antes disso, ela precisava ir ao posto de saúde tomar as injeções.
"Tive que desmamar meu filho mais novo devido às fortes medicações, o que causou uma mastite no meu seio. Sinto muito enjoo e mal-estar pelo uso dos remédios", diz ela, que tem quatro filhos — os mais novos de 1 e 4 anos.
A administradora sofria com os nódulos pelo corpo e só fechou o diagnóstico em janeiro, após consultas em um hospital particular e dermatologista. A medicação correta começou a ser aplicada em março, com acompanhamento da Fiocruz.
"Fui no hospital e falaram que tinha sido alguma coisa na pele, que poderia ser alergia. Procurei dermatologista particular, passei por vários exames. Nada melhorava e o processo inflamatório só aumentava. A impressão era que tinha engolido um saco de bolinha de gude e que estavam exatamente nos lugares em que foram aplicadas as enzimas", relatou Juliana.
A paciente conta que decidiu registrar a ocorrência após a profissional se eximir da responsabilidade. "Ela no início estava pedindo desculpas e reconhecendo o erro. Depois disse que estava me ajudando por 'humanidade' e que essa bactéria poderia ser pega em qualquer lugar. Aí, fiquei indignada", desabafa.
"Agora, o processo da bactéria já melhorou muito. Ficaram as marcas e os nódulos por dentro da pele. Além dos efeitos colaterais dos antibióticos: inchaço na perna, e as taxas hepáticas que não estão boas", completa.
A administradora conta ainda que havia realizado o mesmo procedimento nas costas com a mesma profissional em setembro de 2022 e que não houve problema algum e por isso decidiu repetir a aplicação na barriga.
O exame de corpo de delito realizado pelo Instituto Médico Legal (IML) em 7 de março deste ano apontou que a região abdominal esquerda apresentava 17 lesões de formato circular de coloração arroxeada, alguns endurecidos e que no flanco esquerdo havia quatro lesões com as mesmas características.
O laudo assinado pelo médico da Fiocruz, que consta no processo judicial, afirma que a paciente é portadora de mycobacteriose em partes moles de parede abdominal, após procedimento estético, evoluindo com várias lesões subcutâneas. "O quadro clínico requer tratamento prolongado e está em tratamento desde 03/03/2023. A depender da evolução clínica e resposta ao esquema terapêutico, poderá ser necessário cuidado hospitalar ou homecare para administração de fármacos endovenosos", conclui.
A Fiocruz afirmou que não divulga detalhes em respeito em respeito à confidencialidade da relação médico-paciente. O Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF/ENSP/Fiocruz), departamento da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, é a instituição nacional de referência do SUS para tuberculose, outras micobacterioses e pneumopatias de interesse em saúde pública.
A Farmácia do CRPHF atua assegurando o acesso aos medicamentos para tuberculose através de ações integradas com o Programa Nacional de Controle da Tuberculose. Dentre os serviços prestados, destaca-se a consulta farmacêutica, que consiste em orientar os pacientes quanto à tomada diária dos medicamentos, condições de armazenagem, interação com outros medicamentos, ocorrência de reações adversas esperadas e a importância da adesão ao tratamento.










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