Ainda na fase miúda, muitas cenas ganham um impacto tão forte que a sua grandeza segue com a gente pela caminhadaArte: Paulo Márcio

Outro dia, assistindo a uma série, uma cena em especial me chamou a atenção. Já na sua fase adolescente, um garoto revê a casa onde cresceu e, diante do antigo portão, ele comenta: "Parecia maior quando eu era pequeno". Essa fala se eternizou na minha memória e desencadeou várias outras recordações. Realmente, muitas situações parecem enormes na nossa infância e ganham outra dimensão quando nos tornamos adultos. Não só porque crescemos em tamanho, mas porque os sentimentos de quando éramos miúdos se misturam com tantos outros ao longo dos anos.
Quando pequena, talvez as tarefas da escola fossem as minhas grandes missões. Especialmente os trabalhos que me fizessem falar diante da turma, por conta da minha evidente timidez. Vencê-la era o meu enorme feito. Mas a gente cresce e, ao olhar pelo retrovisor da vida, percebe que aqueles medos gigantes foram substituídos por outros. Não é mais a nota do professor que parece tomar um espaço desproporcional nos nossos pensamentos. Quando adultos, são outros julgamentos, não tão visíveis, que se tornam imensos no nosso coração.
Ainda na fase miúda, muitas cenas ganham um impacto tão forte que a sua grandeza segue com a gente pela caminhada. Tenho a exata noção disso quando folheio um dos meus álbuns de infância. Entre tantas fotos de papel, sempre paro para rever os registros do meu aniversário de sete anos. Minhas lágrimas de canceriana estão evidentes em vários cliques. Até hoje, tenho a sensação de que elas simbolizavam a despedida de uma fase por aquela ser a minha última festinha naqueles moldes, mais produzida, no terraço de casa, com mais convidados. Até hoje, sigo avessa a dar adeus, mas os fins de ciclo já não são tão dilacerantes quanto antes.
Aliás, como boa canceriana, sou amiga íntima da emoção. Mas aprendi que posso rir da minha dramaticidade e constatar o quanto ela é enorme. Afinal, o equilíbrio também nos fascina, algo que aprendemos ainda pequenos diante do imenso feito de andar de bicicleta sem rodinhas. É tão marcante que a gente não desaprende. O que não impede de que outros tombos sejam sentidos de uma forma bem grande pelo coração.
Nessa viagem entre ser criança e adulta, desejo ter sempre algo das duas fases. Quero levar a vida muito a sério e também rir de bobagens; manter o foco nas realizações, mas achar graça da experiência desastrada para soprar um dente-de-leão... E ainda cumprir todos os horários, mas dispensar o relógio nas folgas. Enfim, desejo envelhecer e saber que, dependendo do momento, ainda podemos ser miúdos ou gigantes.