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Amigos e familiares se despedem de João Donato em velório no Theatro Municipal

Artista morreu nesta segunda-feira, aos 88 anos, vítima de pneumonia

Rio - Amigos e familiares se despediram do músico João Donato em velório realizado no Theatro Municipal do Rio, no Centro, nesta terça-feira. A cerimônia começou por volta das 11h e seguiu até às 15h, quando o corpo foi levado ao Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária, para a cremação.
O pianista, acordeonista, arranjador, cantor e compositor morreu nesta segunda, aos 88 anos, vítima de uma pneumonia. Donatinho, filho de João Donato, chegou ao local acompanhado pela jornalista Letícia Imperador. Famosos e personalidades como Caetano Veloso, Vanessa da Mata, Jards Macalé, Jandira Feghali, Paula Lima, Fernanda Takai, entre outros,  compareceram ao local para se despedir do veterano. A viúva, Ivone Belém, ficou boa parte do tempo ao lado do caixão. O cantor Zeca Pagodinho e o prefeito Eduardo Paes enviaram coroas de flores ao Theatro Municipal. 
Em determinado momento, os amigos, fãs e familiares cantaram algumas canções de João Donato e aplaudiram o músico. 
"João Donato é um gênio, um ícone da música mundial. Não tem igual a ele. A música dele continua viva, ele tem uma obra maravilhosa e eu também estou aqui para continuar essa história. Até porque eu toco o mesmo instrumento que ele. A música dele vai continuar", disse Donatinho, que também afirmou que o pai foi uma grande inspiração para ele. 
"Com certeza. Não deu tempo de escolher outra carreira. Quando eu vi, eu já estava... Foi natural pra mim. A gente ouvia de tudo, ele sempre me mostrou música boa. A gente ouvia música latina, Jazz, Bossa Nova", completou. 
Questionado sobre o legado de João Donato, Donatinho disse que seu pai é único. "Eu acho que uma das coisas mais interessantes da música do Donato é que ele era um cara totalmente singular. Ele tem uma música única, não tem ninguém que se pareça com ele. As vezes você pensa num artista e se lembra de outro, ou da mesma geração, ou do mesmo som. Mas ele tem uma coisa que é só dele. Você ouve as primeiras notas e fala: 'João Donato'. A coisa mais marcante dele é essa assinatura que ele tem".
Donatinho revela que em breve vai lançar um trabalho, que está em fase de finalização, com o pai. "Ele é um cara que veio do Acre, chegou no Rio de Janeiro, uma sonoridade diferente, uma coisa completamente nova e conquistou o mundo inteiro com a simplicidade. A música dele é muito simples. Muito bonita, acho que isso é genial dele. Eu tinha vontade de fazer música com ele. A gente tem um disco juntos e agora vai ter um outro, a gente ia fazer, está quase pronto, vai sair em breve. Quando a gente estava tocando juntos parecia que não tinha diferença de idade. A gente tinha uma diferença de 50 anos, mas parecia que ele era um garoto como eu". 
O filho do veterano também contou como foram seus últimos dias. "Ele estava muito bem, sempre teve muita energia, disposição, muito criativo. Infelizmente, acontece também... Ele já estava com uma idade avançada, mas ele estava feliz, alegre e vai ficar pra sempre essa alegria que ele tinha". 
"O João tinha uma leveza em tudo que ele fazia, a simplicidade... Genial. Não é fácil fazer uma coisa simples da maneira que ele fazia: bonita, sentida. Ele está com a roupinha ali de bananeira, Brasil, colorida, muitas vidas colocadas nesse simbolismo, não é à toa. Ele tem essa leveza e não está nem mais aqui, eu acho. Essa energia dele já foi. Essa genialidade vai ficar na música brasileira pra sempre, não tem jeito. Mesmo as pessoas que não o conheceram tem essa influencia dele nas músicas, em outros comportamentos. Ele é conhecido no mundo inteiro. A gente só tem a agradecer a presença dele, a existência dele", disse a cantora Vanessa da Mata.
Trajetória
João Donato é conhecido pela composição de canções como "A Paz", em parceria com Gilberto Gil. Ele nasceu em Rio Branco, no Acre, em 1934. Em 1945, o artista se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Ele começou a tocas nas festas do colégio e, em uma dessas ocasiões, conheceu o grupo Namorados da Lua. Foi então que ele fez amizade com Lúcio Alves, Nanai e Chicão.
A carreira profissional começou em 1949, com o grupo Altamiro Carrilho e Seu Regional, com o qual gravou, no mesmo ano, as canções “Brejeiro” (Ernesto Nazareth) e “Feliz aniversário” (Altamiro Carrilho e Ari Duarte). Depois disso, ele substituiu Chiquinho do Acordeon no conjunto de Fafá Lemos durante uma apresentação na boate Monte Carlo, no Rio de Janeiro. A partir daí, ele atuou em casas noturnas como Plaza, Drink, Sachas e Au Bom Gourmet.
Em 1951, João Donato participou do programa de músicas nordestinas “Manhãs da roça”, que era comandado por Zé do Norte, na Rádio Guanabara. Ele também começou a estudar piano nesta época. Em 1953, ele lançou o grupo "Donato e Seu Conjunto", com o qual gravou dois discos em 78 RPM neste mesmo ano: "Tenderly” (J. Lawrence e W..Gross)/”Invitation” (Bronislau Kaper) e “Já chegou a hora (Rubens Campos e Henricão)/”You Belong to Me” (Pee Wee King, Stewart e Price).
Ele também fez parte do grupo "Os Namorados", com o qual gravou três discos em 78 RPM: "Eu quero um samba” (Haroldo Barbosa e Janet de Almeida)/”Três Ave-Marias” (Hanibal Cruz), em 1953; “Palpite infeliz” (Noel Rosa)/”Pagode em Xerém (Sebastião Gomes e Alcebádes Barcelos), em 1953; e “Você sorriu” (Valdemar Gomes e José Rosa)/”Não sou bobo” (Nanai, Ari Monteiro e L. Machado), em 1954.
Formou, em 1954, o Trio Donato, com o qual lançou um 78 RPM com as músicas “Se acaso você chegasse (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins) e “Há muito tempo atrás (J. Kern e I. Gershwin). O artista se mudou para São Paulo em 1956 e atuou como pianista do conjunto Os Copacabanas e também na Orquestra de Luís Cesar.
Em 1956, João Donato gravou seu primeiro LP, “Chá dançante”, com canções como anções “Comigo é assim” (Luiz Bittencourt e Zé Menezes), “No Rancho Fundo” (Ary Barroso e Lamartine Babo), “Se acaso você chegasse” (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro), “Baião” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), “Peguei um Ita no Norte” (Dorival Caymmi), “Farinhada” (Zé Dantas) e “Baião da Garoa” (Luiz Gonzaga e Hervé Cordovil).
Ele voltou ao Rio em 1958 e dedicou-se ao piano. Neste ano, gravou gravou duas faixas no LP “Dance conosco”: “Minha saudade”, seu primeiro sucesso, e “Mambinho”, ambas em parceria com João Gilberto. Em 1959, viajou para o México e depois morou por três anos nos Estados Unidos. Ele também fez turnê com João Gilberto pela Europa.
O músico voltou ao Brasil em 1962, casado com a atriz norte-americana Patricia del Sasser. Em 1963, gravou o LP “Muito à vontade” e, em seguida, voltou aos Estados Unidos, onde viveu por mais 10 anos. Em 1999 se casou com Ivone Belém, a quem chamava de "Dona Castorina".
Em sua carreira, João Donato fez parcerias com nomes como Astrud Gilberto, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Eumir Deodato, Stan Kenton, Nelson Riddle, Herbie Mann e Wes Montgomery, entre outros. Nos anos 2000 ganhou o Prêmio Shell de Música pelo conjunto da obra. Em 2003, ganhou o Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). Em 2004, recebeu o Prêmio Tim pelo disco “Emílio Santiago encontra João Donato”.
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