Também percebi que o choro pode ser força, ainda mais em terra de lágrimas secas pela dorArte: Kiko

Nas aulas de pilates, dizem que as polainas que uso me concedem superpoderes para realizar os exercícios. Se apareço sem elas no estúdio, a Laís, estagiária de fisioterapia, comenta que há algo de estranho. E eu já acredito que não sou a mesma sem esses acessórios que me remetem ao balé e, se não me dão a capacidade de executar as posturas, pelo menos são charmosos. No entanto, suspeito que a minha potência, em quase 10 anos praticando essa modalidade, esteja também no acolhimento que recebo, além da minha dedicação. Afinal, a própria Laís já incorporou a forma como a Débora, minha professora, passa as atividades a serem feitas: "Agora, nós vamos fazer..." Eu não resisto e logo brinco: "Nós? Vocês vão fazer os exercícios comigo?"
O fato é que, muitas vezes, sentir que não estamos sozinhos e temos torcida na vida já nos confere um poder e tanto. Não o super, que é ligado a algo sobre-humano. Pode ser uma força bem nossa, de gente como a gente. Por diversas vezes, aliás, enquanto a minha mente teimava em dizer que eu não seria capaz de executar um movimento, eu ouvia no pilates: "Tenta primeiro". De tanto perceber que alguém acreditava, eu tentava e conseguia. No fundo, eu também acreditava que era possível. Com ou sem polainas.
Tenho a sensação de que a gente tende a admirar a força dos outros e, às vezes, deixamos a nossa própria potência sem reconhecimento. Elogiamos o superpoder de quem voa e nos esquecemos de que, muitas vezes, descobrimos ter asas quando não tínhamos um pouso seguro para aterrissar. Há quem veja a potência de quem saiba dirigir, mas conduzir a vida pelas estradas tão sinuosas é uma habilidade e tanto.
Felizmente, sou cercada por pessoas com poderes especiais. Conheço quem consiga ativar o sorriso em um ambiente. Rir é um ato de resistência, já dizia o saudoso Paulo Gustavo. E resistir é uma força e tanto — é o que a vida me revela a todo instante. Há quem seja mais enérgico quando preciso, quem transmita calma, quem lidere, quem consiga mediar conflitos. Há quem nos aproxime mesmo a distância. Quem dê um abraço e nos faça sentir em casa. Quem tenha o poder de falar. E quem domine a mágica de silenciar. Cada um de nós tem uma potência, talvez escondida.
Eu, por exemplo, confundia a minha força com fraqueza. Quase acreditei que revelar emoções era a minha grande fragilidade. Até que descobri ter o poder de escrever o que sinto e coragem para revelar as minhas palavras, como faço neste texto. Também percebi que o choro pode ser força, ainda mais em terra de lágrimas secas pela dor.
Há também uma potência enorme em reconhecer que não se pode agradar a todos. E não se pode ter habilidades para tudo. Eu acho lindo poemas, leio e admiro quem domina essa arte. Mas eu sou da prosa. E assim sigo escrevendo crônicas e lendo poemas. Na verdade, suspeito que haja uma grande força em reconhecer os nossos limites e não deixar que eles nos desmoronem.