Para a chef e empreendedora Dida Nascimento, a sensação que a nomeação traz é de dever cumpridoPedro Teixeira/ Agência O Dia

Rio - Famoso pelo cardápio e ambiente em tributo às raízes africanas e afro-brasileiras, o Dida Bar e Restaurante celebra os 10 anos de funcionamento com honraria. Na próxima quinta-feira (10), o estabelecimento, que fica no Polo Gastronômico da Praça da Bandeira, na Zona Norte, será oficialmente nomeado Patrimônio Cultural Gastronômico e Imaterial pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). 
O título reforça a importância da culinária como um elemento fundamental da identidade de um povo, porque envolve saberes, práticas, tradições e histórias transmitidas entre gerações. O reconhecimento ao bar e restaurante foi concedido por meio da deputada estadual Veronica Lima (PT). Para a chef e empreendedora Dida Nascimento, a sensação que a nomeação traz é de dever cumprido. 
"Para a gente está sendo um coisa muito boa, das pessoas olharem como se a gente tivesse feito um bom trabalho, de que conseguiu levar a nossa proposta, que é trabalhar com a cultura negra. A gente ficou muito feliz, é como um dever cumprido", contou Dida, que administra o restaurante junto com os filhos Thiago, Matheus e Stefani. 
O Dida Bar e Restaurante foi fundado em 2015, inspirado na mãe da chef, Tia Maria, uma mulher negra que liderou um bar na Zona Norte, na década de 1970, e também promovia eventos culturais, como rodas de jongo. O estabelecimento surgiu com a proposta de resgatar elementos dos bares antigos - com grandes janelas, pé direito alto e um ambiente rústico e acolhedor –, sem deixar de lado a contemporaneidade. 
O espaço, que em setembro do ano passado já havia sido oficialmente reconhecido como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado, é conhecido pelo ambiente decorado com elementos que remetem à cultura africana e afro-brasileira, além do cardápio repleto de sabores. Dida diz que todos os pratos são de dar água na boca, como a moqueca afro-brasileira, o Kruger (África do Sul), Calulu (Angola), Feijão Nigeriano e Nairódi (Quênia), bem como os drinks autorais com ingredientes típicos. Mas há aqueles que se tornaram os favoritos dos clientes desde a primeira mordida. 
"O Kruger é uma costela com batata e o pessoal gosta muito, porque leva uma geleia apimentada. As pessoas quando vêm aqui, experimentam o que já é mais comum e depois voltam para experimentar outras coisas. Sai muito o camarão crocante da Namíbia, com um arroz com vários condimentos e pimentôes de várias cores, mexilhão e banana. E está saindo bastante também um prato do Quênia, de arroz com limão e camarão. É um prato que a pessoa come a primeira vez e volta no mesmo mês para comer de novo", brincou a chef. 
Dida afirma que pretende continuar buscando inspiração para novos pratos. "Ano que vem vou tentar ir para o Quênia e Tanzânia. Quando chego na África, fico completamente inspirada, quero experimentar e trazer tudo (...) As pessoas olham muito a África pela pobreza, que a gente tem que reconhecer, mas tem um outro lado, também. Então, a gente sempre tenta trazer essa cultura e essa discussão com relação à África para o restaurante".
Além das delícias, o estabelecimento se tornou ponto de encontro de cariocas e turistas, por conta dos eventos culturais, como o Jantar Africano, que celebra a gastronomia e cultura de diferentes países da África, bem como a programação artística diversificada, que valoriza ritmos como o samba, jazz e a música afro-brasileira, se consolidando um espaço de resistência cultural na cidade. 
"Para o negro, é tudo um pouco mais difícil. A gente via vários artistas que não tinham reconhecimento, então, a gente conversava dentro de casa que um dia ia fazer algum movimento para essas pessoas serem mais reconhecidas. A gente começou com uma portinha, mas quando as coisas foram evoluindo, começamos com rodas de conversa, sempre com algum negro em destaque, e a ideia foi começando a crescer", contou a empreendedora, que lembrou que já recebeu nomes como a escritora Conceição Evaristo.
Atualmente, o Dida Bar e Restaurante recebe visitantes de todo o mundo, vindo de cidades como Nova York e Dallas, nos Estados Unidos, Londres, na Inglaterra, e diversas regiões do Canadá, se tornando um destino gastronômico internacional. Com o título de patrimônio, a expectativa é fortalecer ainda mais o papel do estabelecimento como símbolo da identidade afro-carioca.
"Não vamos parar aqui, agora a responsabilidade aumentou. A gente tem muita coisa para ser desenvolvida e está fazendo algumas apresentações dentro do Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) e eventos no Teatro Municipal. A gente procura abrir algumas portas que talvez tivesse um pouco de dificuldade para entrar. Tudo está sendo muito bom, gratificante. A culinária está indo muito, então, vamos olhar para outras coisas que também são importantes". 
O evento de celebração à nomeação acontecerá no próprio Dida Bar e Restaurante e reunirá clientes, amigos, familiares e personalidades da cultura e culinária carioca. A festa contará com o Samba da Dida, a partir das 18h. O estabelecimento fica na Rua Barão de Iguatemi, nº 379.