Coro está infestado de cupins Reprodução
Fechada há 10 anos, igreja histórica do Centro está jogada aos cupins; entenda o caso
'Mezanino' da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte pode ceder a qualquer momento devido à infestação dos insetos
Rio - Poeira, caos e destruição: é assim que se encontra o interior da tricentenária Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, na Rua do Rosário, esquina com a Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, fechada há quase 10 anos sem uma justificativa clara. O templo religioso, que sofre com infestação de cupim e corre o risco de perder elementos históricos, é administrado há 25 anos pela família Rachid, investigada pelo Ministério Público por supostos desvios. Depois da morte do pai, Brígida Rachid José Pedro tornou-se a provedora.
A igreja, que ostenta um altar com talhas de Mestre Valentim e é tombada como patrimônio histórico e cultural, "encontra-se em estado de deterioração devido à falta de manutenção e ações preventivas, que deixam de ser feitas, não por falta de recursos, visto que a Ordem Terceira tem mensalmente numerários suficientes para que a igreja estivesse restaurada e aberta", de acordo com a denúncia do Vicariato da Arquidiocese do Rio de Janeiro responsável pela fiscalização das irmandades, confrarias, ordens terceiras e outras associações de leigos, junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que O DIA teve acesso.
Uma pessoa, que atua junto à Arquidiocese, que pediu anonimato, relatou ao DIA que a queda do teto da Igreja de São Francisco de Assis, no Centro Histórico de Salvador (BA), matando uma pessoa e deixando feridos, serviu de alerta para a verificação da conservação das igrejas do Rio, principalmente as mais antigas, que inspiram maiores cuidados.
“Com a queda da igreja em Salvador, todo mundo ficou muito preocupado. A igreja pertence a uma irmandade, que é uma associação pública de fiéis, mas está sob poder da Arquidiocese e o bispo pode intervir. Embora não administre, a Arquidiocese entrou lá, fotografou e fez essa denúncia", disse.
A negligência e o abandono colocam em risco diversos elementos religiosos históricos. Artefatos litúrgicos, datados dos séculos XVII, XVIII e XIX, como obras de arte, tecidos ornamentais, vestimentas sacras, peças litúrgicas, e outros móveis que ornam a igreja, além de livros e documentos importantes, estão em evidente estado de deterioração. A rouparia antiga dos irmãos da Boa Morte é uma das que está completamente danificada.
"A igreja está com problemas emergenciais. As fotografias mostram. Seu acervo histórico está todo largado, documentos abandonados, tudo jogado. As vestimentas, de 200, 300 anos, empilhadas como se fossem lixo", reclama a pessoa.
O interior do templo também está comprometido por falta de manutenção e encontra-se infestado de cupins, traças e mofo. A denúncia descreve a igreja como um grande "depósito de material de obra e de mobília imprestável, confundindo-se com todos os objetos ali depositados, valiosos e concernentes ao culto católico".
De acordo com a denúncia do vicariato, os vitrais coloridos que enfeitam as portas quebra-vento, na entrada da igreja, estavam estufados, desabando e próximo de se esfarelaram. Por isto, um restaurador profissional do Iphan desmontou, vidro por vidro, o mosaico e retirou as peças para avaliação e contenção de maiores danos.
O coro, espécie de mezanino de oito metros de altura, localizado acima da entrada da igreja, precisou ser escorado por risco de desabamento. Foi verificado que parte de suas tábuas estavam soltas, com muito pó e desniveladas, entortando para baixo enquanto sustentavam um pesado órgão de tubos, instrumento musical semelhante a um piano, porém maior.
“Ao chegar lá, a Arquidiocese viu que o coro da igreja, que é o mezanino que fica acima da entrada de toda igreja antiga, está devorado por cupins e cedendo, podendo cair a qualquer momento. Em cima desse coro tem um trilho com um órgão que pesa uma tonelada. Se alguém empurrar o instrumento para frente, vai tudo abaixo. A Igreja Católica entrou com medo de acontecer o que aconteceu em Salvador”, disse a pessoa ligada à Arquidiocese do Rio.
O desnível é resultado da ação de cupins, que já fez o local ceder 14 centímetros. Parte do revestimento inferior chegou a cair no momento da inspeção. Além disso, todos os extintores de incêndio estavam vencidos, mesmo com a presença de diversos materiais inflamáveis no templo.
Segundo o relatório da empresa Imunegold, além da infestação no coro, ainda foram encontrados cupins em um dos camarotes e no altar principal, indicando que os insetos exploram fontes alimentares dispostas na igreja.
“Por lei, ela [Brígida] é obrigada a dedetizar de cinco em cinco anos, mas ela não quer gastar um real. E a irmandade tem mais de dois milhões de reais na conta. A irmandade tem dinheiro para fazer a obra e não fez porque não quis. É um desastre! Se não tivesse dinheiro, é outra história. A mulher recebe mais de 300 mil reais por mês de aluguel. Sem contar que ela está com 40 milhões de reais na conta pessoal. Como ela não toma conta do patrimônio histórico no qual é guardiã?”, se indigna a fonte, que afirma ter todos os extratos bancários. O valor da conta da irmandade também é citado na denúncia.
No início de março, a Mitra Arquiepiscopal fez uma intervenção emergencial, onde documentou o descaso encontrado na igreja, por duas semanas. No entanto, a provedora Brígida Rachid conseguiu uma liminar para retornar à administração, o que paralisou o andamento das melhorias e limpezas que começavam a ser feitas.
Em novembro do ano passado, o Iphan esteve na igreja para fiscalizar o estado de conservação do local. No entanto, segundo a fonte, a equipe não subiu até o segundo andar por causa da bagunça em que se encontrava o templo. “Eles não viram esse problema do coro entupido de cupim e cedendo. As pessoas precisam acordar para situações como essa. O Iphan tem que tomar uma providência”, suplica.
Na terça-feira (8), o Iphan voltou ao local, desta vez junto com agentes da Polícia Federal. A vistoria, de caráter preliminar, teve como objetivo verificar um possível extravio de peças do interior da igreja.
"O Iphan informa que o imóvel se encontra em boas condições estruturais. Nos próximos dias, serão realizadas fiscalizações completas, abrangendo tanto a parte arquitetônica quanto os bens móveis e integrados. As medidas a serem adotadas dependerão dos resultados dessas vistorias mais detalhadas", informou o instituto em nota enviada ao DIA.
"Essa irmandade é administrada pela mesma família há 25 anos não porque está interessada na igreja, mas porque a igreja tem uma renda de aluguel de imóveis de mais de R$ 300 mil por mês. O pai da atual provedora ainda cuidava um pouco da igreja, mas como a irmandade ficou na mão da família e eles passaram anos deixando entrar apenas parentes, amigos e pessoas ligadas a eles, hoje eles têm o comando total para colocar o dinheiro no bolso, o que está sendo investigado", se revolta a fonte.
































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