Rio - Relíquias das mais de seis décadas de história do Cacique de Ramos agora podem ser vistas de perto pelo público. Foi inaugurada na última terça-feira (15), na sede do bloco da Zona Norte, a exposição "Cacique de Ramos: avenidas, quintais e afetos", que marca oficialmente a abertura do Centro de Memória do local. A mostra estará de portas abertas a partir deste domingo (20) e poderá ser visitada durante os eventos realizados na quadra, em Olaria.
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A exposição celebra o legado de um dos blocos carnavalescos mais tradicionais do país, fundado em 1961, cuja atuação transformou a cultura suburbana carioca e influenciou gerações no samba. Dividida em quatro núcleos temáticos, a mostra convida o público a uma imersão na trajetória do Cacique, abordando dimensões históricas, espirituais, musicais e simbólicas da instituição, que é um dos símbolos da Zona da Leopoldina.
Um dos destaques do acervo é o primeiro pandeiro de Bira Presidente, fundador do bloco e líder do grupo Fundo de Quintal. Um tantã de Sereno, outro ícone do Cacique, um banjo de Arlindo Cruz e um repique de mão de Ubirany também compõem as vitrines, além de capas de discos, troféus e outros objetos.
Marcio Nascimento, diretor-geral do Cacique e genro de Bira Presidente, conversou com o DIA sobre a importância da iniciativa. "A história do Cacique de Ramos é a história do Bira Presidente, que fundou o bloco em 1961 e, aos 88 anos, continua como presidente vitalício. Foi ali que ele lançou, entre outros grandes nomes do samba, o grupo Fundo de Quintal", lembra.
Além de ceder seu icônico pandeiro, Bira também contribuiu com outras peças importantes para o acervo da exposição, como vestimentas usadas em homenagens e até um totem em tamanho real, símbolo da representatividade do baluarte.
Para melhor compreensão do público, a exposição foi dividida em quatro módulos:
Carnavais - aborda as origens do Cacique de Ramos e suas contribuições estéticas, musicais, recreativas e performáticas à folia de rua carioca;
Sagrados - tem como foco a relação da agremiação com as diversas religiosidades, evidenciando os sincretismos que fundamentam práticas sociais e festivas;
Pagodes - retrata o Cacique como território que “reinventou a tradição”, ao sediar rodas de samba que deram origem a novas gerações de sambistas e a uma sonoridade própria;
Imaginários - mostra como o Cacique de Ramos é representado pela sociedade, por meio de homenagens e registros na cultura popular.
Segundo o historiador Walter Pereira Júnior, coordenador do Centro de Memória, a exposição é fruto de um trabalho contínuo iniciado em 2018, com foco na preservação e organização do acervo. "É uma exposição permanente, que será constantemente aperfeiçoada. Ela nasce do trabalho do Centro de Memória, que desde 2018 vem formando um acervo com troféus, objetos, fantasias, fotografias, documentos e vídeos, muitos deles oriundos do arquivo pessoal de Bira Presidente. Esse trabalho de salvaguarda foi essencial para que a exposição pudesse acontecer", afirma o pesquisador.
Walter ressalta ainda o papel estratégico do espaço como ferramenta de valorização do passado e de engajamento cultural no presente. "A atuação do Centro tem esse caráter de refletir sobre como revisitamos uma história coletiva para torná-la viva. A exposição cumpre esse papel como instrumento de salvaguarda do patrimônio cultural e também como espaço que inspira novas gerações", conclui.
A realização da mostra foi possível graças ao apoio do Programa Funarte Retomada 2023 – Música, por meio da linha Preservação de Acervos e Memórias, além de contar com parcerias com o Instituto Moreira Salles e o Instituto Zuzu Angel. A colaboração entre as instituições viabilizou não apenas a montagem da exposição, mas também o processo de curadoria, catalogação e organização do acervo.
A presidente da Funarte, Maria Marighella, participou da inauguração do espaço e destacou a importância da iniciativa. "Cada território da cultura do Brasil é um espaço de emancipação, irrupção, rebeldia e promoção de riqueza. E, como toda riqueza, precisa ser fomentada, protegida, promovida e distribuída. Que a cultura brasileira, riqueza desse povo, refute os nossos sonhos, promova a riqueza e distribua o bem que esse povo merece!"
Serviço:
Abertura ao público: 20 de abril (domingo), às 13h, durante a Feijoada do Cacique Entrada gratuita Visitação regular: Aos domingos, sempre durante os eventos Local: Quadra do Cacique de Ramos (Rua Uranos, 1326, Olaria)
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