João Lucas de Oliveira Paiva trabalhava como técnico em manutenção em fibraArquivo pessoal

Rio - A família do técnico em manutenção em fibra João Lucas de Oliveira Paiva, de 25 anos, ainda tenta processar a semana de 'pesadelo', como definiu a irmã do jovem, Thainara Paiva, de 31 anos. João sofreu uma parada cardíaca e morreu neste sábado (19), depois de passar cinco dias internado no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, na Zona Norte.
Na segunda-feira passada (15), ele trabalhava em cima de uma escada apoiada em um poste na Rua Darke de Mattos, em Higienópolis, quando um carro atingiu o equipamento. Ao cair, o rapaz sofreu fraturas no crânio e o motorista fugiu sem prestar socorro.
De acordo com as testemunhas, o veículo estava lado a lado com outro automóvel e os dois corriam em alta velocidade. O colega de trabalho que acompanhava João contou à Thainara que não conseguiu ver as cores dos carros tamanha a rapidez com que eles passaram.
"Meu pai chegou em casa e disse que estava indo ao hospital porque o João Lucas tinha sofrido um acidente no trabalho. Depois de um tempo, meu pai entrou em contato comigo avisando que o Lucas estava entrando em cirurgia. Fiquei muito preocupada, me vesti e fui ao hospital. Até então, eu achava que tinha sido um acidente, como cair da escada, algo relacionado ao trabalho dele. Quando cheguei no hospital, fui informada que o Lucas estava trabalhando, dois carros estavam correndo muito... Tão rápido que nosso amigo nem conseguiu ver qual é a cor do carro. Meu irmão caiu, ficou com as mãos na cabeça. Ele foi socorrido muito rápido e levado ao Hospital Salgado Filho, onde foi muito bem atendido", disse ao DIA.
Ainda na segunda-feira, a vítima passou por um procedimento cirúrgico na cabeça e precisou ser sedada. Apegado à igreja evangélica e muito querido onde foi criado, no Complexo do Alemão, João Lucas passou a receber a visita de dezenas de amigos e familiares, que se reuniam na entrada do hospital para orar.
"Na quarta-feira, vi meu irmão naquela situação, intubado, com a cabeça enfaixada, de fralda na cama… Meu pai é pastor, então meus pais, a todo tempo, estavam orando por ele. Eu achei que ele estava sedado, então pensei que não estava respondendo por causa disso. Quando acabou a visita, veio uma médica, que não era bem preparada para falar, e disse que ele não estava sedado desde o dia anterior. Então, ela disse que ele tinha tido morte cerebral e que iriam falar com alguém sobre a situação dos órgãos. Ela falou como se meu irmão fosse um objeto. Ainda não tinham atestado a morte cerebral, mas ele faria os testes ontem, sábado. Clinicamente, ele estava perfeito: coração estava funcionando bem, os rins também… Mas, por volta das 14h, ele teve parada de cardíaca", lamentou Thainara.
No mesmo dia em que ocorreu o atropelamento, João firmou um contrato de aluguel do apartamento onde moraria com sua noiva, Kamila Sobrinho. Em vídeo gravado pela moça, o casal caminha pela residência, animado para o casamento, que aconteceria em agosto. Na lua de mel, o jovem viajaria pela primeira vez.
"Meu irmão sempre foi pacato, nós sempre fomos muito caseiros. Ele completou os estudos e logo começou a trabalhar na mesma empresa que meu irmão mais velho trabalha. Há dois anos, o Lucas começou a namorar a primeira namorada dele, a Kamila. Meu irmão era tão pacato que ele sempre dizia para a gente que casaria com a primeira namorada e que se guardaria para ela. Ele se guardou para o casamento, que seria em agosto", contou Thainara.
"Ele estava trabalhando dobrado para pagar as coisas do casamento. Estava com todos os eletrodomésticos comprados, com a festa do casamento paga. Ontem (sábado, 19), ele faria a sessão de fotos do casamento. Meu irmão era um jovem muito querido, nunca teve briga com ninguém. Vivia para a Igreja e trabalho. Ontem, quando eu estava separando a roupa dele para o velório, vi anotações no espelho dele: 'agradecer a Deus, orar pela família, orar pela Kamila e nosso casamento, orar por meu trabalho…' Um jovem que estava começando a construir a vida, que nunca conheceu nada, nunca experimentou nada, nunca viajou… A primeira viagem da vida dele seria na lua de mel", desabafou.
O caso foi registrado na 21ª DP (Bonsucesso). Outras pessoas que estavam no local disseram ao colega de trabalho de João que o carro era vermelho e não estava com o farol ligado no momento da batida, por volta das 19h. A escada onde o técnico estava tinha por volta de 4 metros e foi arremessada cerca de 10 metros. Thainara reforça que não tem esperanças de que a pessoa responsável pelo atropelamento seja localizada.
"Eu nem espero justiça, sinceramente… A gente vê tantas coisas nos jornais. Só quero que o responsável saiba o que ele fez, em quem ele fez. Enquanto família, ainda não recebemos contato da polícia, qualquer informação quanto a avanço nas investigações. Minha esperança é que alguém que tenha visto, ou se essa pessoa comentou com alguém sobre o que fez e essa outra pessoa veja e se comova, fale alguma coisa... Não tenho fé em justiça. Não é por causa da polícia em si, mas a gente vê tanta atrocidade acontecendo que eu não tenho esperança", lamentou.
O corpo de João Lucas vai ser sepultado às 15h10 desta segunda-feira (21), no Cemitério da Penitência, no bairro Caju, Zona Norte do Rio. O velório será às 13h10.