Rio – Filho de Paulo Barbosa dos Santos, o frentista morto em explosão em posto de combustíveis no Centro, Raphael Barbosa abriu o coração sobre o relacionamento próximo com o pai. No velório dele, dois dias após a tragédia, o homem de 31 anos precisou receber atendimento médico ao se sentir mal. Depois de um mês da ocasião, O DIA conversou com o motorista de aplicativo, que relembrou momentos com o pai.
Raphael, a esposa, Priscila, e a filha do casal moravam no mesmo terreno que o frentista, em Ramos, Zona Norte do Rio. Ele ressaltou que por causa da proximidade, física e afetuosa, a perda repentina provocou ainda mais dor. "Está sendo uma batalha muito difícil para mim, minha esposa e minha filha, pois éramos muito apegados a ele. Meu pai estava presente com a gente todos os dias", contou.
Ele detalhou os momentos que teve com o idoso no dia do acidente fatal, que ainda mexe com sua rotina. "Antes dele ir trabalhar, ele passou aqui em casa para falar com a gente, brincou e desceu. Ainda liguei para ele, conversei e desliguei o celular. Horas depois, recebi a pior notícia. Minha mente até hoje está confusa. Não consigo trabalhar direito. Passar na frente da casa dele e saber que ele não está... saber que não vamos mais conversar... Está difícil. Perdi um amigão", desabafou.
A neta Isabella também sofre com a ausência do avô. Raphael conta que a menina de 11 anos era muito amada por Paulo. "Minha filha sente falta dele. Eles eram muito apegados. Ela era o xodó dele. Mas, agora, restaram só as lembranças boas, os conselhos. E sei que ele está em um lugar bom, junto com Deus", comentou Raphael.
Suporte à família
De acordo com o Sindicato dos Frentistas do Rio de Janeiro (Sinpospetro-RJ), a família recebe assistência jurídica, além de outras iniciativas, como uma conexão com a Ipiranga, responsável pelo posto onde aconteceu a explosão.
Sobre indenizações, ainda segundo o sindicato, no próximo dia 17, representantes vão acompanhar Raphael na retirada, junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), da Declaração de Beneficiário de Dependente. O documento tem a finalidade de provar que o trabalhador tem direito a benefícios por morte em um acidente durante serviço. Já no dia 25, a expectativa é que a família receba tudo o que tem direito, incluindo um seguro acidente e um auxílio funeral.
Investigações
O motorista de aplicativo lembrou que o pai ficava preocupado com possíveis falhas quando Raphael abastecia o carro com Gás Natural Veicular (GNV). "Para ver como meu pai era cuidadoso: quando fui instalar o GNV no meu carro, ele disse para colocar tudo novo, para não correr risco de nada".
A Ipiranga retornou contato afirmando que acompanhou a apuração do caso e que "a explosão ocorreu em função de adulteração do cilindro de GNV do veículo envolvido, conforme a conclusão do laudo oficial da Polícia Civil".
Raphael afirmou que vai aguardar o laudo pericial antes de se manifestar. "Sobre, de fato, de quem foi a culpa, não sei ainda. Estou esperando o resultado da perícia para termos a certeza do que aconteceu", afirmou.
O Sinpospetro-RJ destacou que criou, junto à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), um grupo de trabalho para acompanhar as investigações.
Fiscalização mais rigorosa
O sindicato garantiu que trabalha pela adoção de procedimentos mais seguros para o abastecimento com GNV em postos do estado. Por isso, protocolou na Alerj um pedido de audiência pública, prevista para agosto, a fim de tratar do assunto. Na pauta, está uma fiscalização maior sobre a manutenção dos equipamentos de GNV.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), órgão regulador de atividades que fazem uso destes materiais, argumentou que enviou equipe ao posto dois dias após a explosão. No local, não constatou irregularidades ou razões para interdição. O histórico de inspeções no estabelecimento também não aponta anormalidades vinculadas ao GNV.
A ANP complementou citando a possibilidade de a explosão ter sido provocada pelo cilindro de GNV existente no veículo, equipamento este que não é da competência da agência se responsabilizar pela fiscalização. A Ipiranga reforçou que todos os equipamentos do posto passaram por inspeção, da própria ANP, e apresentaram conformidade com as normas.
Em meio à dor pela morte do pai, Raphael torce para que a tragédia estimule um rigor maior nas fiscalizações: "Espero que sim. Quando for abastecer, o frentista deve pedir o selo de segurança do GNV; verificar se está vistoriado e pedir que seja proibido o abastecimento atrás, onde fica o cilindro. Pois se o abastecimento fosse na frente, talvez meu pai estivesse aqui hoje vivo".
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