O sertanejo Neto está priorizando sua saúdeDivulgação

Os homens estão cada vez mais vaidosos e atentos à própria saúde e aparência. Dados de uma pesquisa global da Euromonitor International (2023) apontam que 56% dos homens afirmam dedicar parte do tempo livre a rotinas de autocuidado, enquanto 64% deles, segundo levantamento realizado no Reino Unido no mesmo ano, preferem marcas que ofereçam embalagens sustentáveis ou formulações veganas. Esse movimento reflete não apenas uma mudança estética, mas também uma preocupação maior com saúde, bem-estar e impacto ambiental.Para o médico integrativo Dr. Wandyk Allison, pós-graduado em endocrinologia, metabologia e nutrição clínica, essa mudança é fundamental. "A saúde masculina vai muito além de exames de rotina. Envolve uma orquestra complexa entre hormônios, nutrientes, mente e corpo. Homens que cuidam da saúde vivem melhor, rendem mais e constroem um futuro mais próspero em todos os sentidos", afirma.
A preocupação com a saúde hormonal, segundo ele, também está por trás desse movimento de autocuidado mais consciente. "Desequilíbrios como queda da testosterona, resistência à insulina e alterações do eixo hormonal são cada vez mais comuns. Sintomas como cansaço, perda de massa muscular e baixa libido, muitas vezes, são negligenciados como parte do envelhecer, mas precisam ser tratados com responsabilidade e atenção."
Essa transformação no comportamento masculino também impulsiona negócios no mercado de cosméticos. Fundada pela empresária Tatiana Araújo, a RT Source – marca especializada em produtos capilares 100% veganos, livres de ingredientes de origem animal e de testes em animais – vem expandindo sua atuação junto ao público masculino. " Percebemos uma adesão crescente dos homens à nossa linha de cuidados capilares. Eles valorizam a transparência na composição e a proposta sustentável. Isso tem quebrado a ideia de que produtos veganos são exclusivos para mulheres", diz Tatiana.
A marca investe em ingredientes como argila branca, alecrim, esqualano vegetal e óleos vegetais que, além de benefícios como controle de oleosidade e alívio de inflamações no couro cabeludo, oferecem frescor e bem-estar. "Nossa estratégia passa por campanhas com homens reais, linguagem direta e foco no propósito. O consumidor atual quer saber o que está usando, e porque" , completa a empresária.
O mercado confirma o potencial: dados da Grand View Research (2023) indicam que o segmento de cuidados pessoais masculinos movimentou cerca de US$ 46 bilhões nos Estados Unidos, com taxa de crescimento anual projetada de 8% até 2030.

Autocuidado além da estética

Para André Leão, mestre em Ciências pela USP e especialista em neurociência e comportamento, os homens vêm reconhecendo que o autocuidado vai muito além do físico. "A dor crônica, por exemplo, não se resolve tratando apenas o local. É preciso tratar a pessoa como um todo, com estratégias integrativas que envolvem neurociência, hábitos saudáveis e terapias complementares. Essa visão holística é o que garante resultados duradouros e reais" , afirma.
A percepção de que saúde e bem-estar são inseparáveis também aparece nos relatos de homens que vêm quebrando estereótipos em suas rotinas. O ator brasileiro-americano Haysam Ali, 37, conta que hoje prioriza a saúde mental tanto quanto o corpo. "Praticar esportes ou fazer academia não é só estética, é saúde. Faço meditação, yoga e terapia semanalmente. Fico assustado ao ouvir homens dizendo que terapia é frescura, quando, na realidade, cuidar da mente é para todos", diz. Para ele, a conscientização está em evolução: "A geração após a minha está mais aberta a cuidar de si, principalmente do emocional."
O cantor Neto, da dupla sertaneja Neto & Felipe e ex-participante do The Voice Brasil, reforça essa mudança cultural. "Sempre tive um cuidado grande com minha saúde e bem-estar. Academia e alimentação equilibrada fazem parte da minha rotina. Acho que a prevenção é o melhor caminho, não só para a saúde, mas também para se sentir bem com a própria imagem. Me sentir bem comigo mesmo é essencial, e isso passa pelo cuidado, pela presença e pelo jeito que a gente escolhe se mostrar ao mundo", afirma.

Cuidar de si não é vaidade, é inteligência
Para o Dr. Wandyk Allison, ainda há estigmas a serem superados. "Infelizmente, muitos homens associam autocuidado à vulnerabilidade. Mas prevenção não é fraqueza — é inteligência. Quando um homem busca ajuda antes de um quadro se agravar, o tratamento é mais eficaz e os resultados vêm com menos esforço."
No Dia do Homem, celebrado em 15 de julho no Brasil, o recado é claro: cuidar do corpo, da mente e do planeta não é exclusividade feminina. É uma escolha de vida que garante mais saúde, autoestima, produtividade e longevidade para todos.
'Barreiras para enfrentar vulnerabilidade'
Mestre e doutor em psicologia clínica e neurociências pela PUC-RJ, André Sena Machado dá entrevista para o jornal O DIA sobre o assunto.
O DIA: Hoje em dia, os homens têm se cuidado mais, tanto na aparência quanto na saúde. Do ponto de vista psicológico, esse autocuidado traz benefícios reais para o bem-estar masculino?

André Sena Machado: Sim, o autocuidado traz benefícios psicológicos significativos para os homens. Práticas como cuidar da aparência, manter uma rotina de exercícios ou buscar check-ups médicos reforçam a autoestima e o senso de controle sobre a própria vida. Psicologicamente, isso reduz ansiedade e estresse, promove resiliência emocional e fortalece a autoconfiança. Além disso, o autocuidado quebra estereótipos de masculinidade rígida, permitindo que os homens se conectem melhor com suas emoções e necessidades, o que é essencial para o bem-estar mental.

O DIA: Qual é a importância de falar sobre saúde mental no Dia do Homem?

André Sena Machado: Falar sobre saúde mental no Dia do Homem é crucial para desestigmatizar o tema entre o público masculino, que historicamente enfrenta barreiras culturais para expressar vulnerabilidades. Homens têm taxas mais altas de suicídio e menos propensão a buscar ajuda psicológica devido a pressões sociais como "ser forte" ou "não demonstrar fraqueza". Essa data pode ser uma oportunidade para promover a conscientização, incentivar a busca por apoio profissional e normalizar conversas sobre ansiedade, depressão e outros desafios emocionais, reduzindo o isolamento e fortalecendo a saúde mental coletiva.

O DIA: De que forma o Dia do Homem pode incentivar uma mudança positiva na forma como os homens lidam com seus sentimentos e relacionamentos?

André Sena Machado: O Dia do Homem pode ser uma plataforma para campanhas educativas que encorajam os homens a expressarem seus sentimentos de forma aberta e saudável, desafiando normas de masculinidade tóxica. Por meio de eventos, palestras ou conteúdos nas redes sociais, é possível promover a empatia, a comunicação não violenta e a valorização da vulnerabilidade como força. Isso fortalece relacionamentos interpessoais, sejam amorosos, familiares ou de amizade, ao incentivar a autenticidade emocional e o respeito mútuo, criando conexões mais profundas e significativas.

O DIA: Com o avanço das mulheres em diversas áreas da sociedade, alguns homens podem se sentir inseguros ou questionar seu papel. Psicologicamente, como lidar com essa mudança sem transformar isso em competição ou perda de identidade?

André Sena Machado: Para lidar com essas inseguranças, os homens podem praticar a autorreflexão e redefinir sua identidade com base em valores pessoais, não em comparações ou papéis tradicionais. Psicologicamente, é importante reconhecer que o avanço das mulheres não diminui o valor masculino, mas amplia as possibilidades de colaboração e igualdade. Buscar diálogo aberto, seja em terapia, grupos de apoio ou conversas com pares, ajuda a desconstruir medos e a construir uma identidade mais flexível e confiante, focada em propósito e autenticidade, em vez de competição.

O DIA: Atualmente, muitos homens relatam insegurança ao se aproximar de alguém, com medo de que um elogio ou galanteio seja interpretado como assédio. Como equilibrar o respeito com a espontaneidade nas relações, especialmente em um contexto de maior consciência social?

André Sena Machado: Equilibrar respeito e espontaneidade requer sensibilidade ao contexto e às intenções. Homens podem adotar uma abordagem baseada em empatia: observar sinais não verbais, priorizar conversas genuínas e evitar comentários que objetifiquem ou causem desconforto. A consciência social atual exige respeito aos limites alheios, mas isso não elimina a possibilidade de ser autêntico. Praticar a escuta ativa e buscar consentimento implícito ou explícito (como perceber se a interação é recíproca) ajuda a construir relações respeitosas sem perder a naturalidade. Educação contínua sobre consentimento e dinâmicas de gênero também é essencial.