Rio - Fãs do sambista Arlindo Cruz se reúnem na quadra do Império Serrano, em Madureira, na Zona Norte, neste sábado (9), para prestar as últimas homenagens ao cantor. O artista, de 66 anos, lutava contra sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em 2017. O velório, aberto ao público, começou às 18h e se estenderá até às 10h deste domingo (10).
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Torcedor do Império Serrano e enredo da escola no Carnaval de 2023, Arlindo morreu nesta sexta-feira (8) após ficar cerca de cinco meses internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Barra d'Or, na Zona Oeste.
Mesmo antes da abertura dos portões da quadra, admiradores formaram fila para se despedir do sambista. Jaílton dos Santos, de 54 anos, morador de Irajá, na Zona Norte, comentou a importância de Arlindo para o samba em todo o país. "O Arlindo é o mestre do samba, é indiscutível. Deixou um legado grande. Cheguei às 13h e irei ficar até a despedida porque ele era o poeta do samba", disse.
O músico recordou que, inclusive, já tocou ao lado de Arlindinho, filho do sambista. "Me inspirei no samba com o Arlindo, é uma referência para essa galera nova. Um cantor e compositor para a gente se espelhar", comentou.
O relojoeiro Gilson Alves, de 67 anos, morador de Campo Grande, na Zona Oeste, destacou a trajetória do músico desde o tempo em que integrou o grupo Fundo de Quintal. "Eu sempre estava em todos os eventos que ele tocava, era um cara humilde. O samba é a minha base". afirmou.
A empreendedora Adriana Araújo, de 53 anos, aproveitou um compromisso em Madureira para prestar sua última homenagem. "Eu já fui passista de outras escolas e frequentei muito a quadra do Império. Sempre gostei do Arlindo porque ele é raiz do samba. O meu pai gostava muito do Fundo de Quintal e ele tinha uma voz maravilhosa", destacou.
A quadra do Império recebeu diversas coroas de flores para o artista. Uma delas foi enviada pelo presidente Lula (PT) e pela primeira-dama Janja. "Homenagem ao talento, poesia e generosidade do sambista perfeito. Solidariedade à família, amigos e fãs", diz o texto.
Além desta, também houve homenagem do prefeito Eduardo Paes (PSD), que esteve presente no velório; do vice Eduardo Cavaliere (PSD); do governador Cláudio Castro (PL); do contraventor e presidente de honra da Beija-Flor, Anísio Abrahão David; de Gabriel David, filho de Anísio e presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa); da Liga-RJ, responsável pela Série Ouro; e de outras escolas de samba, como Portela e Beija-Flor.
O velório será marcado por um grande gurufim. Na cerimônia, cuja tradição remonta à herança dos africanos escravizados, amigos e familiares homenageiam o ente querido com música, dança e bebida, tudo como forma de aliviar o luto e celebrar o tempo que a pessoa permaneceu na Terra.
Após abertura ao público, velório de Arlindo Cruz, na quadra do Império Serrano, ocorre com músicas e cantos de matriz africana
O enterro acontecerá na manhã deste domingo (10) no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste.
Carreira
Nascido em 14 de setembro de 1958, em Madureira, Zona Norte, Arlindo Domingos da Cruz Filho, conhecido artisticamente como Arlindo Cruz, viveu desde cedo rodeado pelos sons e tradições do samba. Foi nessa atmosfera que despertou sua paixão pela música, iniciando os estudos aos 7 anos, quando ganhou seu primeiro cavaquinho. Rapidamente, desenvolveu habilidade e ampliou sua formação, estudando teoria musical e violão clássico durante a infância.
Na década de 1980, Arlindo Cruz entrou para o grupo Fundo de Quintal, considerado um dos grandes renovadores do samba de raiz. Com o coletivo, que contava com grandes nomes do samba carioca, ele passou mais de uma década, contribuindo como cavaquinista, cantor e compositor, ajudando a revigorar o gênero com novas composições e arranjos.
Após seguir carreira solo, Arlindo lançou álbuns que se tornaram referência, entre eles "Sambista Perfeito" e o aclamado "MTV ao Vivo: Arlindo Cruz", consolidando seu espaço no cenário nacional. O artista foi parceiro musical de nomes como Sombrinha e suas canções foram interpretadas por grandes vozes da música, como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Maria Rita.
Ao longo da carreira, compôs mais de 500 canções e conquistou inúmeros prêmios, incluindo 19 troféus Estandarte de Ouro com seus sambas-enredo para escolas de samba como Império Serrano, Vila Isabel e Grande Rio. Sua obra é celebrada por mesclar tradição e inovação, contando histórias da vida carioca e da cultura popular brasileira.
Em março de 2017, Arlindo sofreu um grave Acidente Vascular Cerebral (AVC) hemorrágico que o afastou dos palcos. Desde então, enfrentou um longo processo de recuperação, marcado por dificuldades na fala e mobilidade, além de diversas internações devido a complicações, como infecções.
O cantor tinha uma forte ligação com Madureira. O bairro, que ainda abriga a quadra da Portela, serviu de inspiração para a música "Meu Lugar", sucesso lançado em 2007 para exaltar o subúrbio carioca. A canção foi regravada em 2012 e fez parte da trilha sonora da novela "Avenida Brasil", da TV Globo, embalando as cenas no fictício bairro Divino.
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