Rio – O Instituto Vida Livre, ONG que trabalha na reabilitação e soltura de animais em situações de risco no Rio, completa 10 anos em 2025 com histórias emocionantes de resgate e tratamentos realizados por mais de 20 colaboradores. A sede da organização, na Rua Caminhoá, no Jardim Botânico, Zona Sul, conta com cerca de 600 bichos, entre jabutis, gaviões, papagaios, furões, passarinhos, entre outros. Ao DIA, o fundador do grupo, Roched Seba, detalhou os desafios enfrentados no dia a dia e destacou a importância na conscientização das pessoas para evitar acidentes com a fauna existente nos meios urbanos.
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"O instituto tem uma sede administrativa e centro de reabilitação. Temos dez áreas de soltura operando, uma fica fora do estado e outra em São Paulo. Temos três projetos de pesquisa em curso, que são super importantes. São projetos de pesquisa e conservação de baleias e golfinhos chamado 'Vida Livre Baleias', em parceria com o laboratório Ecomar, da UFRJ, temos o projeto 'Conexão Silvestre', de fomento da Aneel, que fazemos junto com a Light e a empresa Consert, para podermos desenvolver o primeiro diagnóstico dos animais silvestres na rede elétrica, que nasce a partir do volume de animais eletrocutados que recebemos na cidade", explicou.
O Vida Livre foi fundado em 2015 como um projeto durante o mestrado de Roched em engenharia de produção, em que ele abordou os conflitos de fauna silvestre com o ambiente urbano. "O instituto nasceu como fruto dessa pesquisa acadêmica e também da minha paixão pessoal desde sempre com animais. Sempre foi um assunto que eu quis trabalhar e atuar diretamente. Fui voluntário em um zoológico durante alguns anos, e foi quando eu entendi que era nesse universo que eu queria trabalhar, poder transformar, colaborar, e tornar esse assunto algo conhecido", afirmou.
A ONG passou a operar após parceria com o cantor Ney Matogrosso, o primeiro patrono da instituição. O cantor ofereceu uma fazenda que se tornou a primeira área de soltura do grupo.
Atualmente, o coletivo conta com 14 funcionários, entre veterinários, engenheiros ambientais e outros cargos de logística, além de 12 voluntários, todos estudantes de medicina veterinária. Ele é mantido através de campanhas de doações recorrentes e parcerias com empresas, como a Bonus Track, que organiza os festivais Mita e Doce Maravilha.
A associação também se manifesta ativamente em favor da aprovação do Projeto de Lei 4.728, que busca aprimorar os mecanismos de punição para quem matar, perseguir, caçar, apanhar, traficar ou utilizar animais silvestres para benefício próprio. "É um trabalho que está bem adiantado, tramitando no Congresso, e é muito importante a adesão da sociedade sobre isso, porque é um projeto que vai ampliar e favorecer muito a proteção dos animais silvestres e ajudar os órgãos de fiscalização a ter mais ferramentas para combater crimes cometidos contra eles", disse Roched.
'Aprendizado diário'
O Instituto Vida Livre recebe animais dos órgãos públicos, como os Bombeiros, as secretarias de Meio Ambiente Municipal e Estadual, a Polícia Ambiental, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea). O grupo precisa lidar diariamente com as mais diversas situações e espécies.
"É um trabalho que requer e impõe um aprendizado diário, porque são situações muito diferentes. Recebemos desde um bicho-preguiça eletrocutado até um macaco dopado, um monte de jabuti que passou dias na estrada dentro de uma mala, um gavião que se machucou com uma linha de pipa, um tucano que bateu na vidraça. Recebemos muitas situações diferentes com animais diferentes. Tem o desafio técnico, mas que a gente se empenha em pesquisa, troca com outros profissionais, para ir sempre melhorando o atendimento", apontou Roched.
O fundador do Instituto Vida Livre ainda destaca a importância da conscientização dos tutores e pessoas para evitar acidentes entre animais silvestres e humanos. "No mundo ideal, seria muito bom que o instituto não precisa ter um hospital aberto todo dia atendendo animal, que as pessoas tivessem consciência de não capturar os animais, não aprisionar os animais, não circular com cachorro em área de floresta, que acaba colocando os animais da floresta em risco. Então, temos muitas questões que são muito a partir da falta de consciência da pessoa", afirmou.
"Quando um animal está na sua casa, engaiolado, ele é só seu, e deixa de ser o animal que ele é. Quando ele está na floresta, ele passa a ser o animal de todo mundo e está colaborando com a biodiversidade."
História de superação
Ao longo dos anos, o instituto acumulou diversas histórias de resgate e salvamento de animais, mas uma das mais marcantes é a da jiboia Santinha, que chegou ao local em agosto de 2022. Ela havia sido espancada e ficou com a cabeça toda fraturada. "Nossa equipe veterinária, na época, até em função do sofrimento do animal naquele contexto, a eutanásia foi cogitada, até para poupá-la daquele sofrimento, mas o nosso veterinário, o doutor Thiago, sugeriu que dava para fazer uma imobilização nela", comentou.
Santinha, então, passou seis meses com a cabeça imobilizada, sendo alimentada por sonda e recebendo tratamento diário, além de fortes medicações contra a dor, como morfina. Essa rotina foi compartilhada através das redes sociais, comovendo os seguidores.
"Você vê um macaquinho sendo cuidado, um tamanduá, um bichinho que é fofo, as pessoas têm uma adesão mais natural, só que um animal que a maioria das pessoas tem repulsa, como as cobras... Conseguimos levar a história dela, as pessoas passaram a ter afeto por ela, eu recebi muitas mensagens de pessoas falando: 'Depois de ver o sofrimento da Santinha, nunca mais vamos matar cobra aqui no sítio', 'Eu tô chorando em função de uma cobra em tratamento', 'Não imaginava que uma cobra pudesse sofrer tanto'."
A jiboia foi solta em 2023 e virou um símbolo do empenho da equipe. Ela teve a sua história imortalizada através da atriz Vera Holtz na campanha "Vozes", uma iniciativa do instituto contra a crueldade aos animais que busca contar histórias de maus-tratos.
Áreas de soltura e tratamento
Quem deu mais detalhes sobre como os tratamentos funcionam foi o veterinário Thiago Muniz, membro do instituto desde a sua fundação. Ele destacou a importância de reintroduzir os animais nas áreas de soltura para que possam se readaptar.
"Alguns animais que recebemos no Instituto Vida Livre para fazer os primeiros socorros, os cuidados, a recuperação clínica e depois da alta clínica, eles saem do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras) e vão para as áreas de soltura. Elas são locais, normalmente propriedades particulares, que ficam dentro da Mata Atlântica. Elas têm viveiros para os animais se acostumarem de novo com a mata, que entrem em contato direto com a mata, onde eles possam se ambientar novamente com o meio ambiente antes de serem soltos, antes da porta abrir", detalhou.
Thiago ressaltou, ainda, que cada animal possui suas particularidades que precisam ser trabalhadas durante o tratamento. "Antes do momento de soltura, eles passam por todo esse longo processo de reabilitação, tanto no CRAS, onde eles fazem a reabilitação da saúde deles, e depois eles vão para a soltura, onde fazem a reabilitação de voo, são viveiros grandes. As aves, por exemplo, reaprendem a voar, exercitam a musculatura peitoral, responsável pela força do voo, para depois, eles serem soltos nas condições de sobreviverem na natureza", explicou.
Segundo o veterinário, as pessoas que encontrarem animais silvestres feridos devem alertas as autoridades. "Não é qualquer cidadão, bem-intencionado, que vai pegar um macaco. Os primatas, por exemplo, projetam muito risco de transmissão de herpesvírus. É muito comum e pode sofrer uma mutação se a pessoa pegar um primata, e ela tiver contaminada com herpes e pegar um primata, ele pode se contaminar, aquele vírus se torna muito mais agressivo, muitas mutações que ele pode sofrer, e voltar para as pessoas como um vírus letal", ponderou.
"É bom não sair mexendo de qualquer jeito. É importante procurar a Guarda Ambiental, Corpo de Bombeiros ou pessoas previamente treinadas para lidar com esse tipo de situação."
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