Ricardo Machado afirma que as fofocas são um problema na vida corporativaDivulgação

Que atire a primeira pedra quem nunca fez uma fofoquinha, mesmo que seja de leve, para falar da roupa da colega de trabalho: "esquisita, não? Ih está fora de moda", falar do cabelo da outra que está mal pintado, ou para comentar do colega sempre com o mesmo casaco. Essas podem até não interferir tanto assim. São aquelas fofoquinhas jocosas, do dia a dia, mas passam batido. Já em outras o clima fica muito pesado. É a famosa rádio corredor - as informações não oficiais trocadas entre funcionários e na maioria das vezes, sem nenhuma checagem da sua confiabilidade que não são novidades no ambiente corporativo.Mas o que está ficando cada vez mais em destaque são os possíveis efeitos danosos desta disseminação da chamada fofoca,  aumentando na medida que as redes sociais ganham mais força e visibilidade como explica o gestor de carreiras e professor universitário Ricardo Machado De acordo com o profissional, as chamadas 'Fakes News' já entraram no vocabulário popular como um dos novos vilões da história e é denunciada pela grande maioria das pessoas pelo mal que pode provocar. "As fofocas da rádio corredor continuam acontecendo sem que a maior parte das pessoas percebam o mal que esta ação, assim como as notícias falsas, pode fazer para as pessoas, inclusive para o 'autor' das fofocas", pontua.
"Se por um lado, temos percebido cada vez mais a necessidade de estarmos alertas por muitas frentes que propagam diversos tipos de preconceitos, vemos também uma legião de resistência vigilante para combater qualquer linha de injustiça. Mais que isso, já não é de hoje que questões como a importância de uma postura ética e de empatia seja trabalhada em nossa sociedade e desta forma, muito presente no ambiente empresarial", alerta o gestor de carreiras e professor universitário, Ricardo Machado.
O gestor de carreiras frisa que o profissional deve avaliar com total atenção antes de propagar uma fofoca na vida pessoal e na carreira profissional. "A minha dica é se auto perguntar: vale mesmo a pena propagar informações ou mesmo fofocas no ambiente de trabalho? Isso poderá ajudar na minha carreira? Lembrem-se! As palavras do momento para a sua carreira são, por exemplo, empatia, ética, humanidade, colaboração entre outras da mesma linha. Tire do seu vocabulário e principalmente de suas ações, a palavra fofoca", aconselha Machado.
Outra dica colocada como importante por Machado é trocar a iniciativa da fofoca pelo comentário positivo. Segundo ele, comentários desse tipo trazem ganhos significativos para os profissionais. Eles aumentam a motivação, o engajamento e a produtividade, além de melhorar o clima organizacional e promover o desenvolvimento profissional. "O 'fofoqueiro do bem', quando destaca pontos positivos sobre uma terceira pessoa, passa a ser visto como alguém honesto e de boa índole", frisa. O gestor ainda fala mais em rápida entrevista o jornalú.

O DIA: Por que a fofoca é mais comum em salões de beleza e academias?

Ricardo Machado: Estes ambientes são, geralmente, espaços informais, de convivência e interação social. São locais, onde muitas pessoas normalmente se sentem seguras para falar de uma forma que não fazem em outros locais mais rígidos. Como muitas vezes as pessoas estão relaxadas ou em momentos de descontração, com a autoestima em foco, acabam compartilhando assuntos da vida pessoal ou de terceiros. A ausência de uma estrutura formal, com muitas regras e repressão, como ocorre nas empresas, por exemplo, favorece a propagação de comentários que facilmente se transformam em fofoca.

O DIA: A fofoca no ambiente corporativo também pode ser considerada uma forma de bullying?

Ricardo Machado: Sem dúvidas. Quando a fofoca tem como objetivo prejudicar a imagem, expor ou isolar um colega, como acontece na maioria das vezes, ela acaba por deixar de ser apenas um comentário e passa a configurar alguma forma de assédio moral e até o chamado bullying organizacional. Seja a famosa 'radio corredor' com fofocas disseminadas ou em pequenos grupos, esse comportamento pode destruir o clima da equipe, afetar a produtividade e pode trazer ainda, sérios prejuízos emocionais para a vítima, que podem atrapalhar a sua vida profissional e também pessoal.

O DIA:Como fazer para evitar uma fofoca?
Ricardo Machado: A postura que tomamos é uma ação fundamental. E logo no primeiro momento. Devemos evitar dar espaço para comentários negativos, mudando de assunto quando percebemos alguma intenção de início de fofoca e, principalmente, não alimentar esse tipo de conversa, são algumas atitudes que fazem diferença, entre viver ou não, um clima de fofoca. Seja no ambiente social ou profissional. Além disso, ficar em alerta e focar apenas em diálogos construtivos, sobre resultados e desenvolvimento, ajuda a criar um ambiente mais saudável e feliz.

O DIA: Como a 'vítima' pode e deve resolver a questão com seus colegas e superiores?

Ricardo Machado: O primeiro passo é não revidar na mesma moeda. Isso só acaba dando maior foco e holofote para quem iniciou uma fofoca. A vítima pode buscar uma conversa franca e respeitosa com o colega de trabalho envolvido, mostrando como a situação está impactando sua rotina. Se o problema persistir, é importante levar a questão ao gestor liderança ou diretamente ao setor de recursos humanos, para que medidas sejam tomadas. O diálogo aberto, aliado à postura ética, é sempre o caminho mais seguro. Além de ser uma base para uma possível ação jurídica, se for o caso.

O DIA: Uma pesquisa afirma que casais que fofocam mais entre eles são mais unidos. Procede?

Ricardo Machado: Sim, já ouvi que existem pesquisas que realmente apontam que quando casais compartilham impressões sobre outras pessoas, isso pode fortalecer a cumplicidade entre eles. Por incrível que pareça. Mas é preciso ter muito cuidado, pois o que diferencia esse tipo de troca de uma fofoca realmente nociva é a intenção. Quando há respeito e não existe julgamento destrutivo, pode ser apenas uma forma de criar laços e intimidade. Do contrário, o início de atritos que podem levar a desavenças.
'Tentativa desesperada de influenciar pelo caminho errado'

Outros especialistas também falam a respeito da fofoca no ambiente corporativo como é o caso de Alexandre Lucas, gestor de Recursos Humanos e Coordenador e professor do MBA em Gestão Estratégica de Pessoas da Universidade Iguaçu (UNIG). "Mesmo sendo algo aparentemente normalizado no cotidiano e muitas vezes não percebida como um problema sério, a fofoca no ambiente corporativo pode entrar em rota de colisão com regras de compliance e até configurar assédio moral. Ela corrói a confiança entre colegas, distorce informações e gera divisões que comprometem a convivência saudável", explica o profissional.
Para o gestor, os efeitos são danosos. "Vão além da produtividade: abalam relações humanas, criam um clima de insegurança e favorecem conflitos muitas vezes irreparáveis. Como pesquisador na área de Relações Humanas há alguns anos, ressalto que a prevenção exige comunicação transparente, canais legítimos de diálogo e lideranças preparadas para enfrentar conflitos de forma clara e ética. Em ambientes onde prevalecem confiança, transparência, honestidade intelectual e escuta genuína, a fofoca perde força e dá lugar a relações mais colaborativas e respeitosas", finaliza ele.

Para  Marcelo Galuppo, doutor em Filosofia do Direito, professor da PUC Minas Gerais e da UFMG, autor do livro "Os Sete Pecados capitais e a busca da felicidade", falar mal das pessoas não tem como dar certo. "A fofoca é uma tentativa desesperada de influenciar pelo caminho errado, de se manter relevante quando de fato não se tem nada a colaborar para o sucesso de um projeto. Pouco importa se o que se diz é verdadeiro ou não: o problema está na via escolhida. À primeira vista, quem ouve pode até sentir-se privilegiado por receber uma informação reservada, mas logo percebe que também poderá ser a próxima vítima, e acaba se afastando do fofoqueiro".
E se a pessoa tem esse hábito, ela terá problemas. "Com o tempo, ninguém mais confia nele. Se, de um lado, as organizações formam sua identidade através da competição externa com outras organizações, de outro elas também formam sua identidade a partir da cooperação interna. E cooperação só existe onde há confiança."
'Panelinhas podem virar um grande problema'

Especialista em liderança, gestão de pessoas e CEO da Alba Consultoria, Rosa Bernhoeft, afirma que a fofoca é muito complicada e alarmante."A conversa de corredor pode virar um incêndio na empresa. Dados mostram que 72% dos profissionais admitem fofocar no trabalho, mas nem tudo é problema. Especialistas explicam que alguns tipos de conversa informal ajudam a navegar no ambiente corporativo e identificar parceiros confiáveis", avalia a profissional.
Rosa conta que o perigo surge quando comentários viram ataques pessoais, criam panelinhas e deixam o trabalho em segundo plano. "Mais de 60% dos líderes já demitiram funcionários por má conduta relacionada a comentários inadequados. O resultado da fofoca tóxica é a queda na produtividade, pois cria desmotivação e o clima fica insuportável, podendo ter perdas de talentos por demissão. Para resolver somente com informação clara mata especulação. A receita funciona quando há comunicação direta, conversas abertas e líderes que falam a verdade. No final das contas, prefira sempre perguntar na fonte certa do que acreditar no que ouviu por aí", orienta.
Vítimas da língua ferina

E não é pouca gente que já foi vítima de fofocas em seu ambiente de trabalho. Temos o depoimento de duas pessoas, que, por motivos óbvios, preferiram que o nome fosse fictício.
Acusado de puxar o saco do patrão

"Passei por muitas fofocas, principalmente em empresas que trabalhei, onde tinham muitos funcionários. Fui promovido em duas empresas, e em ambos os casos, sempre meu nome foi envolvido em fofocas, por ser acusado de 'puxar o saco do patrão', já que eu fui promovido com pouco tempo de casa. Então nunca pensaram que eu poderia ganhar esta promoção por mérito.
Outra fofoca que aconteceu comigo, foi quando sai de uma empresa, na qual fui acusado, junto de outras duas pessoas, de ter 'facilitado' um roubo. Algo que nunca foi provado, e nunca aconteceu (até por isso fui mandado embora sem justa causa) ", diz João Santos.

Dúvidas sobre a capacidade profissional

"Eu era muito nova quando fui contratada para prestar uma consultoria em uma empresa de minério. Assim que o chefe da equipe soube, começaram fofocas maldosas e deturpadas sobre o meu trabalho. Comentários sem fundamento colocavam em dúvida minha capacidade e minha conduta. A consequência foi ainda mais dura: passei a ser rejeitada pelos colegas de trabalho, isolada no ambiente profissional. Na época, tudo isso foi tratado como algo 'normal' no mundo corporativo, mas hoje compreendo que se tratava de assédio moral. Situações como essa impactam profundamente a saúde mental, deixam marcas duradouras e mostram a urgência de discutirmos respeito, ética e responsabilidade no ambiente de trabalho", afirma Nina Pereira.
Dicas de como evitar a fofoca no trabalho
•Diferencie conversa de ataque: Troca de informação útil é diferente de comentário maldoso

•Vá direto à fonte: Tem dúvida? Pergunta para pessoa certa
•Mantenha todos informados: Comunicação clara evita especulação
•Não alimente boatos: Ouviu algo estranho? Pare por aí
•Crie canais oficiais: Estabeleça formas claras de comunicar novidades
•Lidere pelo exemplo: Gestor que comenta inadequadamente gera equipe fofoqueira
•Promova cooperação: Ambiente colaborativo reduz competitividade tóxica