Evento do Clube do Samba na Cidade das Artes, no último dia 17 de agostoReprodução / Instagram

Rio – O Clube do Samba foi declarado Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado do Rio, em decreto publicado nesta quinta-feira (4) pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O movimento, fundado pelo sambista João Nogueira (1941-2000) em 1979, se tornou um espaço de promoção da cultura popular, contando com a participação de grandes artistas da música brasileira, como Beth Carvalho (1946-2019), Clara Nunes (1942-1983), Cartola (1908-1980), Dona Ivone Lara (1921-2018), Bira Presidente (1937-2025), Alcione, Martinho da Vila, Gilberto Gil, entre outros.
Ao DIA, a presidente do grupo, Ângela Nogueira, ressaltou a sensação de felicidade com o tombamento e destacou as possibilidades que a medida abre para a elaboração de novos projetos. "Para nós, é de uma alegria muito grande, porque com isso, podemos ampliar todos os projetos que temos, porque sempre tem essa questão burocrática, e sendo um patrimônio cultural e imaterial, facilita muito para captar recursos, dar segmento aos projetos, oficinas de música, arte e quero ampliar para esporte. Tem o bloco, os bailes, as rodas de samba. Isso tudo facilita. Dá uma satisfação de que valeu a pena", afirmou.
Ela ainda deu detalhes sobre lançamentos do Clube do Samba que devem acontecer em breve. "Nós vamos preparar mais coisas, passar vários materiais para o audiovisual. Teremos o lançamento de um livro. Não é uma biografia, mas alguns amigos contando a vivência que tiveram com o João Nogueira, falando sobre o Clube do Samba também. Vamos dar continuidade sempre. O bloco não parou. Temos que caminhar adiante. Penso que o projeto deve se expandir, fazer outras coisas, catalogar tudo, a nossa biblioteca. Nós fazemos tudo isso através de projetos de incentivo, e esses títulos, certificados, patrimônios, ajudam bastante, valorizam a seriedade com que nós trabalhamos."
Ângela, viúva de João, também analisou a importância do movimento fundado pelo marido para difundir o samba e como ele serviu para unir artistas em prol da música. "O João era muito firme, desde 1979, colocando o samba para ele se projetar cada vez mais. O Clube do Samba foi uma das alavancas para que o samba pudesse estar no patamar que está hoje. Foram várias vertentes, principalmente o Clube do Samba em 1979, que começou a se movimentar junto com compositores e cantores do gênero. É mostrar que vale a pena sonhar e alguém se propor a dar continuidade a esse sonho", disse.
O grupo já havia sido tombado como patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio. A nova lei amplia a possibilidade de investimentos públicos, promoção e proteção do movimento.
'Enorme satisfação'
O cantor Diogo Nogueira, filho de João, é presença carimbada nos eventos do Clube do Samba. Ao DIA, ele descreveu a sensação de receber a notícia como uma "grande felicidade". "Enorme satisfação de conduzir, junto com minha família, esse legado tão lindo deixado pelo meu pai. É também uma grande vitória para o samba e para todos que mantém viva essa cultura. Agora é seguir com a intenção de sempre aprimorar e fazer com que o projeto cresça", afirmou.
Diogo ressaltou que o movimento foi criado para reforçar a cultura nacional e dar identidade à música brasileira. "Ele surgiu em um momento que o Brasil precisava dessa exaltação, desse espaço, para mostrar nossa diversidade e riqueza cultural, tanto na música quanto em outras artes. Mas acho que tenho lindas memórias, entre outras tantas, com o Clubinho do Samba, um projeto que nutre sonhos e esperança, e é emocionante poder ver essas crianças se desenvolvendo dentro do projeto."
O artista destacou o legado de João na condução do projeto e comentou sobre a luta dele, que é mantida através dos mais de 40 anos do grupo. "Meu pai foi um cara fundamental como pessoa e como artista. O sonho do meu pai era cuidar de crianças, dando aulas de música, teatro... e a gente mantém isso, o Clube do Samba tem um espaço para atender essas crianças. Ele também lutava pela exaltação da música popular brasileira. Se hoje o Brasil é um dos países que mais consomem sua própria música e gêneros nacionais, tem a mão do meu pai nesse processo histórico de pertencimento", ponderou.
Quem também disse estar contente com a novidade foi a sambista Thaís Macedo. A artista frequentou os eventos do Clube do Samba por anos e destacou a importância e história dele para a cultura do Rio.
"Fico muito feliz [com o tombamento], porque é a história de tudo que foi escrito e construído até aqui. Se hoje, o samba é um dos segmentos mais fortes e potentes do nosso país, é graças a todos aqueles que lá atrás começaram a lutar e brigar por essa história. O Clube do Samba surgiu em um momento que a música da discoteca e internacional invade as rádios, televisões, novelas e trilhas sonoras do Brasil. Lá atrás, o João teve essa visão de criar um movimento de fortalecer, reafirmar o que é nosso", ressaltou.
Thaís afirmou que o Clube do Samba foi tema da sua monografia da faculdade de Produção Cultural, na Universidade Federal Fluminense (UFF), e relembrou sua história com o movimento. Ela disse que costumava frequentar as tradicionais feijoadas, que aconteciam no período pré-Carnaval, e destacou ter sido muito bem recebida pela família Nogueira.
"Logo que eu comecei a vir para o Rio, o Clube do Samba foi o lugar que me acolheu, dentre todas as rodas daqui. Sou de Rio das Ostras, não fui criada nesse universo, e quando eu comecei a vir para cá, ia no Renascença, Samba do Trabalhador, vários desses movimentos, e o Clube do Samba me abraçou. A família Nogueira foi uma das responsáveis pela minha vinda para o Rio ainda bem nova, com 16, 17 anos. Participei muitas vezes."
Espaço de resistência
O Clube do Samba foi fundado em 1979 no Méier por João Nogueira, que teve a ideia de fazer um espaço para que os sambistas pudessem se reunir e promover a identidade brasileira através da música. A casa do artista foi palco dos primeiros encontros, que contaram com nomes como Alcione e Bira Presidente.
O movimento ganhou sua primeira sede em 1981, na Barra da Tijuca, com uma programação semanal dos artistas Gilberto Gil, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Moraes Moreira, entre outros. As atividades do estabelecimento, no entanto, foram fechadas em 1988, e os encontros passaram a serem realizados em diferentes pontos da cidade.
Nos anos 1990, o Clube do Samba promoveu músicas com sátiras, em meio a uma década marcada por escândalos na política nacional. Casos como o de PC Farias e a privatização da Vale do Rio Doce ganharam destaque no grupo, através de blocos e sambas.
Em 5 de junho de 2000, João Nogueira morreu aos 58 anos. A partida do artista desencadeou uma série de homenagens nos anos seguintes, entre elas o bloco "Como Diria João", lançado em 2001. Depois disso, Ângela passou a administrar o Clube do Samba.
Já em junho de 2012, é inaugurado o Centro Cultural João Nogueira no Méier, também chamado de Imperator, em homenagem ao lendário músico. O espaço funciona até hoje, recebendo eventos, exposições culturais e encontros de artistas.
Um grande marco do movimento foi a criação, em 2013, do Clubinho do Samba, projeto social idealizado por Ângela e sediado no Imperator, que promove oficinas de percussão, violão e cavaquinho para crianças e adolescentes estudantes de escolas públicas.
Hoje, o Clube do Samba realiza eventos que reúnem artistas do gênero e convidados especiais. O último aconteceu em 17 de agosto, na Cidade das Artes, Barra da Tijuca, e contou com shows do Diogo Nogueira e a roda de samba Bom Gosto.