Velório de Hermeto Pascoal acontece nesta segunda (15), na arena cultural que leva o nome dele em BanguÉrica Martin/Agência O Dia

Rio – Familiares e fãs de Hermeto Pascoal, um dos maiores gênios musicais do país, estiveram na Arena Cultural municipal que leva o nome do músico, em Bangu, Zona Oeste do Rio, nesta segunda-feira (15), para dar o último adeus. O compositor, multi-instrumentista e arranjador reconhecido mundialmente por sua inventividade, morreu aos 89 anos, no último sábado (13).
A previsão é de que o velório, aberto ao público, se estenda até as 21h. O corpo será cremado em cerimônia restrita, às 10h de terça-feira (15), no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap.
Fábio Pascoal, filho e também músico, exaltou o legado artístico deixado pelo 'Bruxo', como o instrumentista era conhecido. "Daqui a 200 anos vão estar falando do Hermeto, porque a música dele não envelhece. Nós gravamos um disco recentemente com arranjos de 30 anos atrás. Parece que ele escreveu ontem. Caras como ele são diferenciados", disse.
O filho do músico recordou também o momento em que soube da morte do pai, logo após se apresentar com a Nave Mãe, banda que acompanhava o instrumentista. "Fui para Belo Horizonte (MG) com o grupo, e já se sabia que ele não poderia estar junto por problemas de saúde. A gente começou a tocar e quando acabou, nos aplausos, ele fez a passagem. A alma dele foi lá fazer esse show com a gente".
Também presente no velório, Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura do Rio, colocou Hermeto na prateleira mais alta da música brasileira. "É o Bruxo, a pessoa que mostrou o que o Brasil tem de melhor, um gênio musical e inclassificável, de valor inestimável. Ninguém foi e será maior do que Hermeto Pascoal! Grande como ele foi [o compositor e maestro, Heitor] Villa-Lobos, foram vários outros brasileiros. Mas ele está em uma lista de gênios".
O secretário ainda lembrou o tributo ao músico com o equipamento cultural batizado com seu nome. "Ele foi um alagoano que escolheu Bangu para passar a vida. Essa areninha onde estamos agora, que a família escolheu para fazer o velório, tem o nome dele desde 1996, ou seja, uma homenagem em vida. E a partir de agora, esse legado vai continuar vivo aqui em Bangu e no mundo todo".
Neta de Hermeto, Joyce Pascoal também enalteceu a obra do avô, mas admitiu ter um carinho especial pela canção que leva seu nome, composta em 2002: "O céu agora está do tamanho do talento dele... A música que eu mais ouvia é a que leva meu nome (risos). Ele fez uma para cada neto. E agora é manter esse legado".
'Alma de criança'
Além da exitosa trajetória artística, o espírito alegre do músico também foi ressaltado pela família. "Ele era uma pessoa maravilhosa, um ótimo avô, uma pessoa alegre, feliz. Uma alma de criança", comentou Joyce.
"A vida dele sempre foi uma festa. Não teve tristeza na vida do Hermeto. Ele transformou a tristeza em música. Nunca parou para ficar triste", complementou Fábio, adiantando que, apesar do abatimento pela perda, a atmosfera do velório também deve ganhar mais alegria, inclusive com a presença da banda Nave Mãe. "A vida dele sempre foi festa, sempre foi palco. Então por que na hora de ele ir, a gente vai ficar triste? Vamos fazer um som para ele já já aqui".
Hermeto estava internado no Hospital Samaritano Barra, na Zona Sudoeste do Rio, desde o dia 30 de agosto por causa de complicações de uma fibrose pulmonar. "A despeito de todo suporte terapêutico, o quadro se agravou nas últimas horas, evoluindo para falência múltipla dos órgãos", informa a nota do hospital.
Projeção nacional após mudança para o Rio de Janeiro
Nascido em 22 de junho de 1936, em Lagoa da Canoa, no agreste de Alagoas, Hermeto cresceu em meio às sonoridades do interior nordestino. Albino de nascença, passou a infância impossibilitado de trabalhar na lavoura, mas encontrou na música seu universo. Logo cedo aprendeu a tocar sanfona e, com ouvido absoluto, desenvolveu uma relação única com os sons da natureza e do cotidiano.
Sua carreira começou em programas de rádio e grupos regionais, mas ganhou projeção nacional nos anos 1960, quando se mudou para o Rio de Janeiro, tornando-se morador ilustre do então sub-bairro Jabour, em Senador Camará, na Zona Oeste. Na década seguinte, consolidou-se como figura central da música instrumental brasileira, com uma obra que transitava entre o choro, o jazz, a música erudita e a improvisação livre.

Hermeto ficou conhecido como 'O Bruxo' pela capacidade de transformar qualquer objeto em instrumento musical. Do barulho da água em uma chaleira ao coaxar de sapos, tudo se tornava parte de suas composições. Essa originalidade chamou atenção de artistas como Miles Davis, que gravou uma de suas composições no álbum Live-Evil (1971).

Com discos históricos como A Música Livre de Hermeto Pascoal (1973), Slaves Mass (1977) e Hermeto Pascoal e Grupo (1982), ele construiu um legado singular. Nos palcos, suas apresentações eram marcadas pela improvisação radical e pela comunhão com a plateia.

Hermeto também se destacou como arranjador e educador musical. Em 1996, realizou o feito de compor uma peça por dia durante todo o ano, projeto que resultou em mais de 400 partituras. Nos últimos anos, continuava ativo, gravando, se apresentando e transmitindo sua paixão pela música às novas gerações.
*Colaborou Érica Martin