Presidente Lula é o convidado especial da edição de 20 anos do Meia HoraRicardo Stuckert / PR
MEIA HORA: A principal ação do governo na Saúde atualmente é o programa Agora Tem Especialistas, que já começou a beneficiar o Rio com novos médicos. Os cariocas e fluminenses já podem sonhar com o fim das filas nas unidades federais?
PRESIDENTE LULA: A demora no atendimento com especialistas sempre foi algo que me incomodou bastante. De 2023 para cá, conseguimos avançar muito no atendimento básico, reconstruindo programas importantes como o Mais Médicos que, só no Rio de Janeiro, praticamente triplicou o número de profissionais, que passaram de 491 para 1.421 nesses dois anos e meio. Mas faltava atender melhor quem precisa de um exame ou tratamento mais complexo, sem ficar em filas de espera enormes. Por isso, lançamos o Agora Tem Especialistas, que está aumentando a capacidade de atendimento nos hospitais públicos e também colocando os hospitais privados e planos de saúde que têm dívidas com a União para atenderem gratuitamente os pacientes do SUS. Isso vale para todo o Brasil – e para o Rio de Janeiro também. Além disso, estamos realizando mutirões nacionais nos hospitais universitários federais para reduzir as filas. Já fizemos dois nesse ano. O primeiro, em junho, realizou 12,5 mil consultas, exames e cirurgias. No sábado passado fizemos o segundo mutirão, com 34 mil atendimentos. E ainda vamos fazer outro até o fim do ano. Especificamente para a saúde no Rio de Janeiro, estamos reestruturando os hospitais federais no estado. Isso já permitiu, entre outras conquistas, reabrirmos a emergência do Hospital Federal de Bonsucesso e, em parceria com a prefeitura, também as emergências do Hospital Federal do Andaraí e do Cardoso Fontes.
Presidente, quando o senhor pretende anunciar o seu candidato a vice? A meta é repetir a tabelinha com o Alckmin, ou prefere que ele dispute o Senado por São Paulo? Porque o senhor mesmo já falou que é importante o governo ter um Senado com mais aliados, não é mesmo? E o senhor está no terceiro mandato como presidente e deve se candidatar em 2026. Com quase 80 anos, acha que ainda dá para fazer muita coisa no quarto?
Eleição é um tema para 2026. Mas eu já venho dizendo que, se continuar tão bem fisicamente, mentalmente e politicamente como estou agora, serei sim candidato no ano que vem. Só então definiremos qual será a chapa. Minha certeza é de precisamos derrotar a extrema-direita nas urnas, defender as conquistas do povo brasileiro e continuar o trabalho pelo verdadeiro desenvolvimento do Brasil. Meu sonho é conseguirmos nos transformar em um país de classe média, com menos desigualdade, com oportunidades para todos e que seja um exemplo para o mundo na economia sustentável. Isso só é possível com a democracia, sem as ideias autoritárias que trouxeram tanto retrocesso no passado recente. Quanto ao companheiro Alckmin, ele tem sido um vice-presidente e ministro extraordinário, com papel importante no fortalecimento e crescimento da indústria nacional nos últimos três anos e no apoio para nossas empresas seguirem produzindo e gerando empregos mesmo depois do tarifaço.
E no estado do Rio, como o senhor vê a movimentação para a eleição de governador? O caminho é o PT lançar candidato próprio ou compor chapa com Eduardo Paes?
Esse é outro assunto que vai ser decidido no seu devido tempo, depois de muito diálogo. Mas todos sabem da consideração que tenho pelo Eduardo Paes, que tem sido um ótimo prefeito e um grande parceiro de nosso governo em ações importantes para a população. Assim, é mais do que natural que estejamos juntos em 2026.
E a picanha, presidente? A importância do brasileiro poder comprar carne para fazer um churrasquinho no fim de semana virou assunto durante a campanha e acabou sendo usado pela oposição para criticar a situação da Economia. Como o senhor reage a esses comentários e piadinhas do tipo "Faz o L"?
Todo mundo – a começar por mim – quer que os preços dos alimentos caibam no bolso do trabalhador, e é isso que está começando a acontecer. Nos dois primeiros anos de nosso governo, a inflação anual dos alimentos foi metade da média do governo anterior. E agora já estamos começando a ter deflação, o que quer dizer que os preços, em vez de subir, estão caindo. Os preços dos alimentos, aliás, já caem há três meses seguidos. E, enquanto a conta do mercado vai ficando mais justa, as pessoas estão ganhando mais. Na terça-feira, o IBGE divulgou novos recordes: temos 102,4 milhões de pessoas ocupadas e o desemprego nunca foi tão baixo. Nunca antes tivemos tanta gente trabalhando, nem com tanta renda, que pela primeira vez chegou na média de R$ 3.484. Tudo isso mostra que estamos indo no caminho certo. Já superamos os problemas do passado que elevaram os preços: a alta do dólar, secas e enchentes e a falta de força de nossa economia, que agora voltou a crescer acima de 3% por dois anos seguidos. E tivemos recorde de safra de grãos, inclusive do arroz, que está no prato de todas as famílias brasileiras.
E a Janja, presidente? Como o senhor analisa a atuação dela como primeira-dama? Quem precisa aconselhar mais o outro para não cometer ‘erros’, o senhor com ela, ou ela com o senhor?
A Janja desempenha um papel fundamental em angariar apoio nacional – e internacional – para as causas mais importantes de nosso governo. É o caso do combate à fome, da proteção às crianças e adolescentes que sofrem violência nas redes digitais, do combate aos preconceitos e da garantia de dignidade e igualdade para as mulheres. Para mim, está muito claro que as críticas que ela recebe são fruto de uma mentalidade ultrapassada, mas que ainda existe, de gente que acha que mulher não pode ter opinião, não pode pensar por si mesma nem ter atuação política. E pode ter certeza de que eu e Janja trocamos sim muitas ideias, especialmente sobre os imensos desafios que temos no Brasil – e como podemos seguir trabalhando ao lado do povo brasileiro para construir um país mais justo.
O enredo da Acadêmicos de Niterói, que vai estrear no Grupo Especial, vai falar da sua trajetória. Como recebeu essa homenagem? O senhor pretende desfilar? Pretende palpitar em algum aspecto para o carnavalesco?
E a escolha para torcer pelo Vasco. Por quê?
Todo mundo sabe que o time de meu coração é o Corinthians, mas, assim como muitos brasileiros, tenho times em outros estados. Em Minas, sou Cruzeiro. E, no Rio de Janeiro, sou Vasco porque ele sempre foi um time com a cara de nosso povo, um clube que não barrava os jogadores negros ou de qualquer origem mesmo em uma época em que eles não tinham espaço nas outras equipes. Além disso, o Vasco tinha o Bellini, que levantou a nossa primeira taça na Copa do Mundo em 1958. E, depois dele, o gigante Roberto Dinamite e o Juninho Pernambucano. Tem como não se apaixonar?
Que tal brincar de fazer uma capa do MEIA HORA? Qual seria a sua manchete para a condenação de Jair Bolsonaro e os outros sete aliados de tentativa de golpe de Estado?
Não dá para competir com o bom humor que o Meia Hora vem usando, há 20 anos, em suas manchetes. Mas um bom recado seria: "Democracia e Soberania Sempre". As pessoas, mesmo as mais poderosas, sejam daqui ou de outro país, têm que aprender que temos instituições fortes e independentes. Nosso país tem lei. E tem um dono, que é o povo brasileiro. Talvez ainda seja cedo para perceber isso, mas daqui a vinte, trinta anos, veremos que o que aconteceu foi um marco histórico. Desde a Proclamação da República, há quase 150 anos, o Brasil já passou por vários golpes de Estado. Alguns golpistas conseguiram tomar o poder, outros não. Mas eles nunca foram condenados, como foram neste processo, que lhes deu amplo direito à defesa e foi conduzido de forma muito séria e com provas muito robustas. Agora, servirão de exemplo para que ninguém mais tente essas investidas autoritárias.






Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.