Escola Portátil de Música conta com mais de mil estudantesÉrica Martin / Agência O Dia

Rio – A Escola Portátil de Música, espaço de referência para artistas do choro, completou 25 anos neste sábado (20) com uma programação especial no campus da Unirio na Urca, Zona Sul do Rio. O ensaio semanal do "Bandão", que reúne todos os alunos do curso e é aberto ao público, teve um bolo e uma apresentação em homenagem ao aniversário do projeto, que integra a Casa do Choro, instituição com trabalhos de difusão e preservação da história do gênero musical.
A empolgação do público animou a fundadora e integrante da diretoria do coletivo, Luciana Rabello. Ao DIA, ela disse ter boas perspectivas para o futuro, devido ao interesse dos mais jovens na cerimônia. "O evento ontem foi lindo e muito pragmático, porque mostrou bastante o caráter desse projeto, que eu costumo dizer que não nasceu para ser uma escola, mas os alunos é que os transformaram em uma. O interesse das pessoas sempre houve, e ainda continua havendo, de gente cada vez mais jovem, muitas crianças, que é um público que a gente nunca tinha antes se dedicado a ele, e os resultados são lindos", disse.
A escola foi criada em 2000 e começou com cerca de 50 alunos na Sala Funarte. Hoje em dia, ela conta com mais de mil estudantes nos núcleos da UniRio e a sede da Casa do Choro, na Rua da Carioca, Zona Central, além de aulas on-line.
A equipe tem cerca de 40 professores de flauta, clarinete, saxofone, trompete, trombone, contrabaixo, violão, cavaquinho, bandolim, pandeiro, percussão, piano e canto. Também são oferecidas aulas de apreciação musical, história do choro, acompanhamento de samba, teoria musical, harmonia, arranjo, composição, prática de conjunto, entre outras matérias.
Luciana destacou que a maioria dos professores são formados pela própria instituição. "A gente tem vários grupos de alunos que se profissionalizaram ao longo desses anos que hoje também são professores. Mais da metade dos professores da Escola são formados por grupos de ex-alunos. Esses grupos estão fazendo shows pela cidade", explicou.
Ela disse que os 25 anos da Escola Portátil de Música foram "muito bem comemorados". Vendo pessoas de todas as origens, todas as classes sociais. Eu costumo dizer que não tem nada mais democrático que o ambiente do choro."
Acesso à cultura
Luciana, que é casada com o compositor Paulo César Pinheiro, autor de centenas de pérolas da MPB, também ressaltou como o choro é uma forma de inclusão social. "Ver gente que está com a gente há 20 anos é a maior recompensa que temos. Pessoas mais velhas que estão trazendo os seus filhos e ver as crianças se interessando por isso, e apaixonadas pela escola. A gente também atende pessoas com deficiência, super apegadas ao ambiente, que na verdade é muito espírito carioca que essa música tem. De ser inclusiva, coletiva. É um pensamento coletivo, uma cultura coletiva", disse.
Ela comentou a importância da integração causada pela música. "Você vê pessoas de todas as classes sociais, idades, convivendo, tendo como único fiel da balança, a música. Entender que é uma linguagem realmente universal, que junta as pessoas, não tem competição. Só agrega valor à vida das pessoas. Sem ser piegas, mas é incrível como essa música aproxima. Não só essa, mas como as manifestações da cultura popular são agregadoras e como isso faz bem para a cabeça de todo mundo", opinou.
Além disso, a escola também está acostumada a receber estudantes estrangeiros. "Gente que vem de fora do Brasil para ter aula na escola, acho isso incrível. Vem, às vezes, passar um, dois meses no Brasil para ter aula na Escola Portátil, apesar da gente ter, também, núcleos fora do Brasil, na Holanda, Argentina, tem um pessoal espalhado também, levando essa mesma metodologia. E tem nossas aulas on-line, que atingem o mundo inteiro. Temos mais de 100 alunos japoneses."
Em continuação às celebrações de aniversário, a Casa do Choro, localizada na Rua da Carioca, 38, receberá, nesta quarta-feira (24), um show do grupo "O Trio", formado por Mauricio Carrilho no violão, Pedro Amorim no bandolim e Paulo Sérgio Santos no clarinete.
'Base da MPB'
O choro consiste em um conjunto de práticas musicais baseadas em instrumentos de solo, acompanhamentos, contrapontos e ritmo. O cantor e pesquisador musical Pedro Paulo Malta, que já se apresentou na Casa do Choro, detalhou a história do gênero e sua importância para a cultura brasileira.
"O choro está na base da história da Música Popular Brasileira (MPB). Podemos dizer, em linhas gerais, que se a música popular brasileira é uma enciclopédia, o choro está no primeiro volume. É através da arte de grandes músicos como Ernesto Nazaré, Chiquinha Gonzaga, Henrique Alves de Mesquita, Anacleto de Medeiros que o choro vai brotar a partir de matrizes musicais europeias, e que por aqui, vão ganhar um balanço diferente", ressaltou.
Pedro afirmou que os artistas citados, da segunda metade do século 19, são vistos como os fundadores do choro. "Eles vão começar a trazer uma acentuação rítmica, um 'borogodó' para aquelas músicas que chegaram da Europa aqui, onde também, inevitavelmente, se encontraram com outras matrizes musicais africanas. Disso, vai surgir o choro, assim como o samba e a MPB", disse.
O pesquisador também explicou que o gênero se consolidou no século 20, através de artistas como Pixinguinha e Jacob do Bandolim. "Esse fenômeno que a gente identifica como MPB tem o choro lá no começo da sua história."