Ana Maria Gonçalves posa com o fardão que usará na posse, na ABLGil Lira / Divulgação

Artistas do barracão da escola foram responsáveis pela confecção do traje que a escritora Ana Maria Gonçalves usará nesta sexta-feira (7), às 20h, em sua posse na Academia Brasileira de Letras (ABL). Nos 128 anos da instituição, é a primeira vez que o fardão de um imortal leva a assinatura de integrantes de uma escola de samba. Tradicionalmente a roupa é feita por alfaiates.

No ateliê do barracão, liderados pelo carnavalesco André Rodrigues, João Vitor Ferreira, Raayane Costa e Anthony Albuquerque trabalharam na elaboração da peça, que, inspirada no vestido usado por Rachel de Queiroz em sua posse, em 1977, reúne elementos ligados à trajetória da escritora mineira.

Primeira mulher negra a ser eleita pela ABL, Ana Maria é autora de "Um Defeito de Cor", clássico premiado que inspirou o enredo da Portela em 2024. Com 952 páginas, a obra foi publicada em 2006 e levou cinco anos para ser concluída (dois anos de pesquisa, um de escrita e dois de reescrita). Ele narra a trajetória de Kehinde, uma mulher negra sequestrada no Reino do Daomé e escravizada na Bahia, inspirada na história de Luiza Mahin, mãe do advogado abolicionista Luis Gama.

“A Portela é uma escola historicamente preta, formada por artistas que transformam ancestralidade em arte. Ver uma mulher como Ana Maria Gonçalves ser imortalizada na Academia Brasileira de Letras, vestindo uma criação confeccionada por nossos profissionais, é motivo de orgulho e reafirmação da nossa identidade. É a prova de que seguimos honrando o legado de Paulo da Portela e mostrando que o talento de Oswaldo Cruz e Madureira também alcança a imortalidade”, exalta o presidente da Portela, Junior Escafura.

Responsável pela coordenação do trabalho, André Rodrigues acompanhou todas as etapas do processo criativo, desenvolvido em diálogo com a escritora, que tornou-se muito próxima da agremiação desde que o livro virou enredo. Recentemente, ela participou de uma mesa de debates na Festa Literária da Portela. Em outra ocasião, em 2024, ministrou uma oficina de leitura na antiga quadra da agremiação, convidada pela rainha de bateria Bianca Monteiro.
“Não é apenas a construção fisica da roupa, mas o simbólico também importa. Isso mostra a potência dos nossos artistas e da capacidade da escola de samba de dialogar com diversos universos”, destaca André.

Detalhes da cerimônia

Aos 54 anos, Ana Maria Gonçalves toma posse na cadeira 33, que pertenceu ao filólogo Evanildo Bechara, morto em maio deste ano. A escritora, que é a 13ª mulher a ser eleita, torna-se a acadêmica mais nova a entrar na Casa de Machado de Assis. A cerimônia será realizada no Petit Trianon, na sede da ABL, no Centro do Rio, com transmissão, ao vivo, pelo site e pelo canal do Youtube da ABL.

Ana Maria será recebida por Lilia Schwarcz e ganhará o colar das mãos de Ana Maria Machado. Já o  diploma vai ser entregue por Gilberto Gil. O evento contará, ainda, com as participações de Rosiska Darcy de Oliveira, Fernanda Montenegro, Miriam Leitão, Domício Proença Filho, Geraldo Carneiro, Eduardo Giannetti, entre outros acadêmicos.

De acordo com a ABL, Ana Maria está programando algumas novidades para a festa. Ao final da posse, será servido um jantar para 300 pessoas no pátio externo, com um cardápio africano. Os amigos da escritora também preparam uma surpresa: um grupo musical chegará à Academia depois de percorrer algumas ruas do centro cantando.

A cerimônia será, também, transmitida ao vivo por um telão na Casa Savana, na Zona Portuária, que estará aberta apenas para receber os amigos da acadêmica. Terminado o jantar na ABL, a nova imortal vai para o local confraternizar com seus convidados.

Trajetória

Ana Maria Gonçalves nasceu em Ibiá, em Minas Gerais, em 1970. É roteirista, dramaturga e sócia-fundadora da terreiro Produções. Largou a publicidade, onde trabalhou durante 15 anos, para escrever “Ao lado e à margem do que sentes por mim” e Um defeito de cor”.

Começou a escrever contos e poemas desde a adolescência, sem chegar a publicar. A paixão pela leitura nasceu durante a infância, e desde criança lia jornais, revistas e livros.

Já publicou contos em Portugal, Itália e nos Estados Unidos, onde morou por oito anos e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais.

Foi escritora residente nas Universidades de Tulane (New Orleans), Stanford (California) e Middlebur (Vermont).