Thiago Flausino foi morto a tiros por PMs na Cidade de Deus, em 2023Reprodução/Redes sociais

Rio - O júri popular dos policiais militares acusados de matar Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, na Cidade de Deus, Zona Sudoeste, segue para o segundo dia na manhã desta quarta-feira (11), no Tribunal de Justiça do Rio. O julgamento, que teve início na terça (10), precisou ser interrompido às 2h30.

Na ocasião, prestaram depoimento a vítima sobrevivente e outras oito testemunhas. Os réus, Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria, que estão presos desde 2024, também foram interrogados. Eles são acusados de homicídio qualificado e tentativa de homicídio qualificado.
Ainda na terça, a mãe de Thiago também foi ouvida e mostrou surpresa ao saber que a perícia encontrou fotos de um adolescente armado no celular do filho. Ela afirmou não reconhecer o menino nas duas imagens exibidas pelo assistente de acusação, uma em que aparece apenas a mão de uma pessoa segurando uma arma e outra em que um jovem aparece com o rosto encoberto.
"Eu não sabia. Eu não consigo ver verdade nessas fotos, em várias delas eu não acho que é o Thiago”, frisou.

Em uma terceira fotografia apresentada, na qual um jovem aparece segurando o que parece ser uma arma longa, a mãe afirmou reconhecer o adolescente. "Aí parece o Thiago. Não sei o que é isso que ele está segurando. Não sei se é de matar rato", relatou.
Durante os depoimentos, o amigo da vítima, que sobreviveu ao ataque, contou que nunca viu Thiago armado e que o adolescente não portava arma no dia em que foi morto.
Momentos antes da primeira audiência, familiares do adolescente e ativistas protestaram contra a violência policial. Em um vídeo públicado pelo Voz das Comunidades durante o ato, a mãe de Thiago, Priscilla Menezes, fez um desabafo sobre a morte. Ela agradeceu o apoio que a família vem recebendo e chegou a lembrar que o menino teria terminado o Ensino Fundamental no ano passado e foi homenageado pelos colegas durante a formatura.
"O que eu vou fazer da minha sem o meu filho? Eu venho me mantendo de pé, essa dor adoece. É muito difícil a gente estar nos nossos dias com nossos familiares, a gente estar sorrindo, mas só Deus sabe como a gente está por dentro. A gente pensa: "Era para o meu filho estar aqui comigo" e eu não vou ver mais o Thiago (...) Sou muito grata pelas pessoas que sempre homenageiam o meu filho, estão sempre lembrando o Thiago, sempre mantendo a memória do Thiago viva, para não deixar que eles marginalizem o meu filho", lamentou Priscilla.
Entenda o caso
O caso aconteceu na Estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, esquina com a Rua Jeremias, na entrada da Cidade de Deus. Na ocasião, Thiago estava na garupa de uma moto pilotada pelo amigo, que acabou caindo com o veículo e, no momento em que tentava levantar, um carro descaracterizado, onde estavam os policiais militares, se aproximou e atirou. O adolescente, atingido por três tiros, morreu no local e o outro, ferido na mão, conseguiu fugir.
Em depoimento, os policiais militares relataram que havia uma operação para coibir um baile funk irregular e alegaram que estavam usando o carro de Roni, atendendo a um pedido de superiores para que operassem drones para monitorar a região e identficar a melhor estratégia para as equipes acessarem a área.
Após terminarem o trabalho com os drones, eles seguiram para encontrar com a equipe em um posto de combustíveis, com excessão de Roni, que estava à paisana e voltaria ao batalhão no próprio carro. Ainda segundo as oitivias, enquanto aguardavam no veículo particular, os PMs viram a motocicleta com as vítimas passar pelo estabelecimento, alegaram terem visto Thiago portando uma arma e passaram a seguir as vítimas, até o momento em que elas caíram com a moto.
Na sequência, Aslan Wagner teria descido do banco de trás e ido em direção aos jovens, no momento em que, segundo relatos dos réus, teriam sido efetuados disparos contra a equipe. Ele afirmou ter sido o primeiro a desembarcar e que deu ordem de parada para as vítimas, mas que Thiago teria atirado contra ele, que revidou com dois disparos, mas não soube dizer se foram esses os tiros que o atingiram.
Já Diego, que estava no banco do carona, afirmou que ao ouvir os tiros, imediatamente saiu do carro e viu o adolescente atirando contra a equipe, disparando contra a vítima neste momento.