nuno 30-08-2026Arte gerada por IA
Não há economia que resista...2
Enquanto mais nomes vistosos engrossam a lista das empresas em recuperação judicial, o governo segue gastando dinheiro a rodo e agravando a situação da economia
Se uma grande empresa, com anos de atividade, entra em crise e recorre à Justiça para se recuperar, a culpa quase sempre é da administração. Se duas empresas igualmente poderosas recorrem à Justiça em busca de socorro, pode ser apenas uma coincidência. Se, no entanto, mais de seis mil empresas, muitas delas com anos de tradição e capacidade comprovada de superar crises, jogam a toalha e pedem recuperação judicial mais ou menos ao mesmo tempo, a culpa não é delas, e sim da hostilidade do ambiente em que atuam.
Essa reflexão é necessária diante dos casos que vêm se acumulando na economia brasileira — como, aliás, foi mostrado aqui na semana passada. Entre os milhares de CNPJs que neste momento se encontram em recuperação judicial ou extrajudicial há marcas consolidadas e negócios que eram sólidos — mas que chegaram ao limite do endividamento e recorreram aos mecanismos que a lei prevê para renegociar as dívidas e tentar se manter de pé.
O caso mais recente é o do Grupo Gennius, controlador das redes de fast food Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill. Com dívidas de R$ 265 milhões, o grupo entrou com pedido de recuperação judicial na segunda-feira, 24 de agosto. A crise do Habib’s é atribuída aos efeitos da pandemia, à mudança dos hábitos de consumo e, sobretudo, aos juros indecentes que vêm empurrando a economia brasileira para o buraco.
CRISE DE SOLVÊNCIA — Não se trata de uma empresinha de fundo de quintal. O processo abrange 178 empresas, entre holdings, franqueadoras e unidades operacionais. O Gennius informa ter atualmente mais de 600 unidades e mais de 10 mil colaboradores. O faturamento estimado é de mais ou menos R$ 3,5 bilhões.
Perto de um faturamento como esse, a dívida declarada, de R$ 265 milhões, parece modesta. Nada disso. Uma empresa pode faturar bilhões e, no final do mês, não ter como pagar suas obrigações. Quando o custo financeiro cresce e o crédito encolhe, a dificuldade de acesso ao financiamento se torna uma armadilha — e uma dificuldade conjuntural pode evoluir para uma crise de solvência.
O Habib’s é apenas mais um nome vistoso na lista. Na semana passada, a petroquímica Braskem também avançou para uma recuperação extrajudicial motivada por uma dívida de cerca de R$ 54 bilhões. A quantidade e a variedade das empresas que estão em recuperação revelam, antes de tudo, uma situação em que a dificuldade de acesso ao crédito e o custo excessivo do dinheiro estão inviabilizando qualquer possibilidade de sobrevivência dos negócios.
RENDA FUTURA — Dívidas como a do Habib’s e da Braskem são, sem dúvida, fardos pesadíssimos para as empresas, mas significam uma gota se comparadas com o oceano das dívidas federais. No mês de julho passado, a Dívida Pública Federal chegou a R$ 9,2 trilhões. E o próprio Tesouro projeta que poderá terminar o ano de 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.
É necessário não confundir alhos com bugalhos. Empresas se endividam para financiar suas operações, investir no crescimento ou simplesmente sobreviver. O Estado, por sua vez, emite títulos para financiar o déficit e refinanciar aquilo que já estava devendo. Há semelhança entre uma situação e outra? Sim! Quanto maiores forem a dívida e o custo do dinheiro, maior será a parcela da renda futura comprometida com o pagamento de juros. Para um país em que as empresas e as pessoas já estão sufocadas por uma carga fiscal indecente, a única forma de resolver o problema é com o corte das despesas. Não há outro caminho.
ASPECTOS NUMÉRICOS — Aqui é preciso cuidado. Quando se fala em gastos federais, há uma tendência quase irresistível de apontar o dedo para os programas sociais, em especial para o mais vistoso deles: o Bolsa Família. Essa questão deve ser trazida para essa discussão?
Visto apenas por seus aspectos numéricos, o Bolsa Família está longe de ser o principal obstáculo ao equilíbrio fiscal. O orçamento deste ano prevê um total de R$ 158 bilhões para o Bolsa Família — o que significa menos de um quarto dos R$ 644 bilhões reservados ao pagamento de juros. Isso é o que está no papel. Na prática, porém, o rombo é bem maior. Os números do próprio governo falam em algo entre R$ 950 bilhões e R$ 1 trilhão destinados por ano ao pagamento de juros.
Embora o Bolsa Família deva ser avaliado sob todos os aspectos, um ponto é evidente: é melhor destinar recursos para mitigar os problemas sociais do que gastar tanto dinheiro para rolar uma dívida irresponsável como a brasileira. O programa deve ser analisado sob uma série de aspectos. Um deles é seu impacto sobre o mercado de trabalho. Por todo o país há notícias de beneficiados que recusam ofertas de emprego com carteira assinada para não perder os benefícios do governo — mas esse assunto ficará para a próxima semana.

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