Lula concedeu entrevista nesta quinta-feiraReprodução / Redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva relativizou nesta quinta-feira (6) as últimas pesquisas de intenção de voto divulgadas nos últimos dias, mesmo uma que o apontou como líder das intenções de voto em todos os cenário. Lula disse que as pesquisas não podem ser levadas "tão a sério" a essa altura do campeonato, "nem quando ganha, nem quando perde".

Lula concedeu entrevista às rádios Metrópole e Sociedade, da Bahia, nesta quinta. Disse que o governo terá de "trabalhar muito" para combater o negacionismo daqui para frente.

"Temos de dar tempo ao tempo. Pesquisa começa a fazer efeito quando a campanha começa, as pessoas vão para a rua, fazem debate. O resto é estatística que a gente tem que respeitar, mas a gente não pode levar tão a sério, nem quando ganha, nem quando perde", disse o presidente.

Lula disse que "ninguém é candidato com tanto tempo de antecedência". "As pessoas, dependendo de sua fama e grau de participação, mas na hora de votar para governar o País, o povo não é bobo e vota nas pessoas que elas sabem que vão cuidar dos interesses dela", declarou.

O presidente disse, ainda, que, se depender dele, "o negacionismo nunca volta a governar este País".

"Como estamos em uma fase de negacionismo, onde negar é mais importante que afirmar as coisas boas que podem acontecer, a gente vai ter que trabalhar muito", disse.
Roberto Campos Neto e juros
Lula voltou a criticar a antiga gestão do Banco Central (BC), de Roberto Campos Neto, que, segundo o presidente da República, "deixou uma arapuca" na autoridade monetária com novos aumentos da taxa de juros já previstos para este ano.

"O problema sério é que tivemos um aumento do dólar porque a gente teve um Banco Central totalmente irresponsável, que deixou uma arapuca que a gente não pode desmontar de uma hora para a outra. A gente não pode dar um cavalo de pau em um navio do tamanho do Brasil", disse Lula, poupando o novo presidente do BC, Gabriel Galípolo, de qualquer crítica.

"Acho que o aumento do dólar mostra que as loucuras que estava acontecendo nos EUA durante a campanha eleitoral contribuíram muito para a alta e agora ele começa a se ajustar. Ele se ajustando, acho que os produtos vão ficar mais aqui, povo vai produzir mais e com mais qualidade, e estou convencido de que a gente vai resolver este problema logo logo", afirmou.
Bolsonaro 
O presidente repetiu que a inflação nos seus dois primeiros anos de governo foi menor que no governo de Jair Bolsonaro, seja nos primeiros dois anos ou nos dois últimos. Defendeu, ainda, que o preço dos alimentos sejam reduzidos.

"Na medida em que a gente aumenta o salário mínimo acima da inflação, aumenta a massa salarial, precisamos compensar com uma redução do preço dos alimentos. Se comparar a inflação dos últimos dois anos, de 7,6%, e com os dois primeiros anos do Bolsonaro, de 27,4%. Nos últimos dois anos do Bolsonaro, foi 22% Nós estamos trabalhando, conversando com empresários, usando a competência da Fazenda, da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário", declarou.

Lula defendeu que o agronegócio brasileiro produza mais alimentos para que o preço da comida seja barateado. Negou qualquer possibilidade de fazer um congelamento de preços para evitar novos aumentos dos alimentos.

"Temos que ver o que fazer para garantir que a cesta básica caiba no orçamento do povo com certa flexibilidade", disse o presidente.

O petista disse estar "trabalhando com muito afinco para solucionar o preço dos alimentos" e adiantou que na próxima semana terá reunião com produtores de carne e de arroz para discutir o assunto. "Comida barata na mesa do trabalhador é algo que estamos perseguindo."
Lula também afirmou que irá derrotar o ex-presidente Jair Bolsonaro em todas as eleições que o ex-chefe do Executivo for candidato. Sem citar Bolsonaro nominalmente, Lula disse que se o ex-presidente acha que vai voltar à Presidência, "pode tirar o cavalo da chuva".
"Se depender de mim, o negacionismo não voltará ao poder. Se depender de mim, a democracia vai derrotar o negacionismo. E se o cidadão que foi presidente, com as bravatas que ele fala, com as mentiras que ele conta, com as provocações que ele faz, quiser se candidatar, ele sabe que eu o derrotei quando eu era oposição e ele estava com a máquina na mão", disse Lula em entrevista às rádios Metrópole e Sociedade, da Bahia, nesta quinta-feira, 6.

"Se esse cidadão acha que vai voltar ao poder, pode tirar o cavalo da chuva. Quantas vezes ele for candidato, quantas vezes eu vou derrotá-lo", complementou, na entrevista.

"Esperem o julgamento, se defendam, vai ter condenação ou não, haverá o direito de defesa que nunca houve para mim, se a Justiça entender que ele Bolsonaro pode concorrer, ele pode concorrer. E se for comigo, vai perder outra vez", disse hoje.
Donald Trump
Lula disse que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, "faz questão de, todo dia, dizer uma anomalia".

"Os EUA, a vida inteira, passaram a ideia para a humanidade de que era um símbolo da democracia, um xerife do mundo. E de repente elegem um presidente que faz questão de todo dia dizer uma anomalia. Um dia vai ocupar o Canal do Panamá, outro dia a Groenlândia, outro dia vai anexar o Canadá, outro dia vai tratar o povo palestino como se não fosse ninguém, quando na verdade precisa criar o Estado palestino para que não sejam tratados como lixo", disse o presidente brasileiro.
O petista disse respeitar a eleição de Trump, mas que ele "não foi eleito para governar o mundo, mas os EUA".

"Os EUA são grandes, poderosos, mas não são donos do mundo. É preciso respeitar as fronteiras e soberania de cada País. Vou defender a democracia como melhor forma de governança que o mundo já criou", disse.
Regulação de "imprensa digital"
Lula também defendeu a regulação do que chamou de "imprensa digital" e chamou o Congresso e o Supremo Tribunal Federal para esse debate. O presidente não foi claro ao explicar o que seria a "imprensa digital" - se seriam os sites jornalísticos hospedados na internet ou as plataformas digitais de redes sociais, como X e Facebook.

"Nós precisamos regular essa chamada imprensa digital. Não é possível que em uma imprensa escrita, o cidadão falou uma bobagem e é punido. Tem lei para isso. No digital, não tem lei. Os caras acham que podem fazer o que quiser, xingar, provocar, incentivar morte, promiscuidade. E não tem nada para punir. Não é possível que um cidadão ache que possa interferir na cultura de outros países", afirmou, em entrevista às rádios Metrópole e Sociedade, da Bahia, nesta quinta.

As publicações em redes sociais, no entanto, já são passíveis de punição. Em 2022, por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuou contra várias publicações que considerou desinformação e mandou as plataformas retirarem posts do ar. Influenciadores, como Felipe Neto, também já foram condenados a pagar indenizações a políticos por publicações ofensivas ou difamatórias (como no caso de Felipe Neto com Arthur Lira, por exemplo).

Apesar disso, Lula disse entender que "todo mundo tem direito à liberdade de expressão, mas isso não é utilizar meios de comunicação para canalhices, para mentir todo santo dia".

"Nosso Congresso tem responsabilidade e vai ter que colocar isso para regular, se não for o caso, a Suprema Corte vai ter que regular. É preciso moralizar. Todo mundo tem direito à liberdade de expressão, mas isso não é utilizar meios de comunicação para canalhices, para mentir todo santo dia. Isso bagunça a economia, o varejo. É preciso que haja seriedade. Defendo a regulação com a participação da sociedade, porque ninguém quer proibir a liberdade de expressão. Quanto mais liberdade, mais responsabilidade", declarou.
Reconstrução da Praça dos Três Poderes
Lula disse que pretende "reconstruir" a Praça dos Três Poderes após os atos golpistas de 8 de janeiro, mas que o tombamento de prédios públicos dificulta qualquer mudança.

A Praça dos Três Poderes, porém, não sofreu grandes atos de destruição no 8 de janeiro, como aconteceu com as sedes dos Três Poderes (Palácio do Planalto, Supremo Tribunal Federal e Congresso). A praça já se encontra aberta ao público.

"Brasília é quase toda tombada. Eu estou querendo reconstruir a Praça dos Três Poderes, que foi desmontada no 8/1, e leva um ano e meio só para fazer um projeto. É tudo interminável, complicado Quando a gente tomba, estamos fazendo um gesto para a humanidade, mas depois a gente constata que não tem dinheiro no Orçamento do governo federal, estadual e prefeitura, disse.

Lula usou o exemplo da Praça dos Três Poderes para criticar o tombamento de prédios públicos e a falta de dinheiro para sua manutenção.

"O tombamento deixa um prédio totalmente abandonado. Precisamos rever isso, senão vamos ter muitas coisas tombadas caindo. Temos de ter responsabilidade de tombar qualquer prédio público, colocando dinheiro para que aquilo seja mantido e que tenha gente preparada para fazer a manutenção", afirmou.
Crédito
O petista afirmou que o crédito no País está crescendo e que, nos próximos dias, o governo federal irá anunciar mais medidas sobre o tema. Ele se reuniu nesta quarta-feira, 5, com os presidentes dos bancos públicos federais.

"Nunca houve tanto investimento do BNDES, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, do BNB e do Basa. Portanto, o crédito está crescendo e vai ter mais medidas anunciadas nos próximos dias, porque não parou por aí", disse Lula em entrevista às rádios Metrópole e Sociedade, da Bahia, nesta quinta-feira, 6.

O petista voltou a defender que o dinheiro tem que circular no País e repetiu que "muito dinheiro na mão de poucos significa miséria, e pouco dinheiro na mão de muitos significa distribuição de renda". "Em vez de a gente ficar discutindo macroeconomia, a gente tem que discutir microeconomia, porque é ela que faz a coisa acontecer", comentou. O presidente, porém, pontuou que o governo não esquece que "também tem que financiar os grandes para que a macroeconomia cresça".

Por fim, Lula disse estar convencido que a marca que deixará de seu governo será crescimento, distribuição de renda e inclusão social.