Ex-presidente Jair Bolsonaro foi declarado inelegível até 2030AFP
Segundo o The Post, o julgamento do ex-chefe do Executivo, aliados próximos e militares de alta patente marca uma inflexão na história política do Brasil. É a primeira vez que uma tentativa de rompimento da ordem institucional irá a julgamento. Além da tradição política, há um enfrentamento contra o presidente dos EUA, Donald Trump, que tentou coagir o julgamento com sanções contra o País e o relator do processo, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
"Durante décadas, estudei mais de uma dúzia de golpes e tentativas de golpe, e todos eles resultaram em impunidade ou anistia", disse ao The Post o historiador Carlos Fico, um dos principais pesquisadores sobre a questão militar do País. "Desta vez será diferente."
Na mesma linha, a historiadora Lilia Schwarcz afirmou ao jornal que o julgamento contra Bolsonaro e aliados é "simbólico" por romper um "pacto de silêncio" sobre os militares. Mesmo após a redemocratização, os crimes da ditadura militar nunca foram julgados, em razão de uma Lei de Anistia proposta e aprovada pelo próprio regime em 1979.
O The Washington Post também destacou que o julgamento ocorrerá após uma "ruptura crescente" entre Brasil e Estados Unidos promovida pelo presidente Donald Trump. O governo norte-americano realiza uma investida contra o Brasil desde maio, quando o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o governo Trump avaliava sanções contra Alexandre de Moraes. As tensões se intensificaram a partir de julho, quando o presidente dos EUA manifestou-se contra o que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, anunciou tarifas adicionais a produtos brasileiros e revogou vistos de autoridades. Além disso, Moraes foi sancionado com base na Lei Magnitsky.
Os atos do governo norte-americano contra Moraes foram precedidos por uma campanha de bolsonaristas contra o magistrado no exterior. Embora tenha se intensificado com a atuação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no primeiro semestre deste ano, a campanha já estava em curso desde 2024, quando Moraes entrou em embate com Elon Musk.
Apesar da investida do governo americano, a ação penal seguiu seu curso. "Em vez de recuar, o Brasil aumentou a pressão sobre o ex-presidente e seus aliados", destacou o The Post. "A Polícia Federal do Brasil indiciou (Jair) Bolsonaro e seu filho, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), citando as repetidas reuniões do deputado federal com funcionários da Casa Branca, onde ele incentivou medidas punitivas contra o Brasil".
A tarifa de 50% imposta pelos EUA a produtos brasileiros impactou a ação penal em que Bolsonaro é réu. Moraes considerou que as tarifas demonstravam uma tentativa de coação do curso do processo e impôs medidas cautelares a Bolsonaro. Após o descumprimento reiterado da restrição de uso de redes sociais, o ex-presidente teve a prisão domiciliar decretada em 4 de agosto.
"Não há a menor possibilidade de recuar nem um milímetro", disse Alexandre de Moraes em entrevista ao The Washington Post publicada em 18 de agosto. "Faremos o que é certo: receberemos a acusação, analisaremos as provas e quem deve ser condenado será condenado, e quem deve ser absolvido será absolvido."
O jornal deu destaque para o reforço da segurança na residência onde Bolsonaro está preso. As autoridades "estão tomando medidas para apertar ainda mais o cerco ao ex-líder, em meio a crescentes preocupações de que ele possa tentar fugir", escreveu. Policiais à paisana montam guarda no local para "vigiar de perto" o ex-mandatário enquanto ele aguarda o julgamento.
"As autoridades estão especialmente preocupadas com os esforços recentes de um de seus filhos para pressionar a Casa Branca a intervir no caso de seu pai", ressaltou o NYT, em referência a Eduardo Bolsonaro.
O The Guardian, por sua vez, apresentou o julgamento com uma entrevista do trompetista Fabiano Leitão. O homem ficou conhecido por tocar o instrumento ao fundo de momentos que marcam reveses de bolsonaristas. Quando Bolsonaro era presidente, o músico ia atrás dele pela capital federal para tocar interpretações do hino antifascista Bella Ciao. Em março, depois de o ex-presidente ser acusado de tramar um golpe, Leitão passou a entoar a Marcha Fúnebre de Chopin.
O jornal britânico disse que o trompetista ensaia um samba para o momento de Bolsonaro ser condenado. "Leitão está entre milhões de brasileiros progressistas que têm o champanhe metafórico na geladeira antes da tão aguardada condenação de Bolsonaro e sete supostos conspiradores, quando o julgamento começar esta semana", destacou a reportagem.
Para o jornal espanhol El País, o julgamento marca uma "contagem regressiva" para Bolsonaro, seu clã e a direita do Brasil, já que o caso abriu a batalha pela sucessão. "A movimentação também deixou em alerta o movimento populista nacionalista conservador internacional".
O diário destacou que o ex-mandatário pode pegar mais de 43 anos de prisão no "julgamento mais importante da história recente" do país e ressaltou como Trump tentou atrapalhar, sem sucesso.
- 3 de setembro – 9h;
- 9 de setembro – 9h e 14h;
- 10 de setembro –9h;
- 12 de setembro – 9h e 14h.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.