Fernando Haddad disse que estar à frente do Ministério da Fazenda "é um negócio incríível"Jose Cruz / Agência Brasil

São Paulo - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta segunda-feira que não tomou uma decisão sobre o seu futuro político, mas assegurou que não pensa hoje em disputar as eleições do ano que vem, demonstrando satisfação em ocupar o cargo atual.

"Ao contrário do que dizem, que eu ocupo o pior emprego do mundo, eu acho que é um dos melhores. É um negócio incrível ... É bom ser ministro da Fazenda. É um lugar bom para trabalhar, para fazer muita coisa para ajudar o País", disse Haddad durante o Macro Vision, evento do Itaú BBA.

"Não sei responder o que eu vou fazer. Neste momento, eu não tenho intenção de ser candidato no ano que vem", acrescentou Haddad ao responder a uma questão sobre o seu futuro político.

Mais tarde, Haddad repetiu que não decidiu qual será o seu próximo passo. "Eu estou vendo como é que nós vamos caminhar, conversar com as pessoas", afirmou o ministro.

Ao ser questionado se seguirá no cargo de ministro da Fazenda caso o presidente Luiz Inácio da Lula peça, Haddad respondeu que este é um assunto ainda a ser discutido com o chefe do Executivo "Eu vou conversar com o presidente Lula sobre isso. Ele é o candidato, ele que vai compor o seu gabinete. Vamos aguardar", afirmou.
EUA
Haddad disse que acredita que o atual cenário de "animosidade" com os Estados Unidos foi "artificialmente criado", mas é uma situação que será superada. Na avaliação de Haddad, o tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros foi "um tiro no pé" por parte dos norte-americanos. "Não faz o menor sentido os EUA pagar mais caro no café, na carne, não faz o menor sentido", afirmou.

Sobre a relação comercial com os Estados Unidos, Haddad lembrou que teve um encontro com o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, no mês de maio, no qual ele mencionou que não faria sentido os EUA taxarem a América do Sul.

"Aí, dois meses depois, muda tudo, e veio uma tarifa que está aí, de 40% extra sobre alguns produtos. Todo mundo vai concordar que não faz o menor sentido, do ponto de vista econômico, nem para ele, nem para nós", afirmou o ministro, destacando que os EUA tem superávit comercial com o Brasil.

Haddad reforçou que acredita que uma hora haverá o início de um debate "racional" sobre a questão, separando questões econômicas das questões políticas. Neste contexto, o ministro disse que o discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na assembleia da ONU na última semana foi muito "oportuno" e na direção correta.

"Gerou um clima mais amigável, temos que explorar isso", avaliou o chefe da Fazenda.

O ministro salientou, ainda, que, do ponto de vista macroeconômico haverá poucos impactos do tarifaço, e que o problema maior é justamente micro, entre os setores mais afetados.
Reformas
Haddad disse que reformas recentes aprovadas pelo governo estão criando um ambiente que fará com que o Produto Interno Bruto (PIB) potencial do País cresça. Segundo ele, a opção da atual administração foi a de fazer um ajuste fiscal que, apesar de gradual, é consistente. O ministro destacou, por exemplo, que nos últimos três anos houve um grande esforço de recuperação da base fiscal do governo e que isso implicou em enfrentar interesses "particularistas".

"É muito desgastante, você sabe que enfrentar interesses particularistas no Brasil é muito mais difícil do que enfrentar interesses gerais", disse Haddad, ao participar de um painel do evento do Itaú BBA, em São Paulo, que foi mediado pelo economista-chefe do banco, Mario Mesquita.

Haddad mencionou que, hoje, há um equilíbrio maior entre receitas e despesas no orçamento federal.

"Nós atingimos um equilíbrio fiscal com a receita líquida girando em torno de 19% do PIB. E eu recebi o orçamento com 17% do PIB", lembrou ele, destacando que isso aconteceu após "limar" alguns gastos tributários.

"Nós preferimos o caminho mais difícil de buscar justiça tributária. De fazer quem não pagar, pagar", disse Haddad.

Assim, ele considera que um próximo governo, herdará uma situação fiscal mais positiva do que sua administração recebeu. "Nós podemos crescer na média mundial, como aconteceu com os dois mandatos iniciais do presidente Lula."
Política fiscal
Haddad destacou que o esforço fiscal do governo vai continuar, mas sempre partindo do princípio do que é mais justo a ser feito. Haddad mencionou, por exemplo, que no ano passado houve mudança na regra de correção do salário mínimo, reduzindo o impacto fiscal dos reajustes, mas que isso foi feito com "inteligência", levando em consideração que o Brasil tem um dos menores salários mínimos na comparação com outros países da América do Sul.

"Será que não tem um jeito inteligente de fazer uma política de modernização fiscal mais equilibrada?", questionou o ministro, reforçando que é preciso ter "cuidado" ao se falar de ajuste fiscal no País.

Nesse sentido, Haddad pontuou que, ao se falar de equilíbrio fiscal, muitas vezes, o discurso do mercado financeiro não leva em consideração fatores relevantes e que estão sendo combatidos pelo atual governo, como os gastos tributários.

O ministro da Fazenda participou nesta segunda-feira de evento do Itaú BBA, em São Paulo.