Fachin afirmou que o combate ao crime organizado precisa se adaptar às realidades regionaisMarcelo Camargo/Agência Brasil

São Paulo - O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que, ao fim de 2025, havia 12.448 ações penais contra organizações criminosas pendentes de julgamento no Brasil. O dado foi apresentado nesta segunda-feira, 23, pelo presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, durante encontro nacional para debater os desafios do Poder Judiciário na atuação contra o crime organizado.

Segundo o ministro, pelo menos duas grandes organizações criminosas estão presentes em todos os estados e no Distrito Federal. Além disso, ao menos 19% dos brasileiros vivem em locais com presença explícita desses grupos, o que equivale a cerca de 30 milhões de pessoas. No Rio de Janeiro, mais de 30% da população convive com a chamada "governança criminal".

Os números são obtidos pelo Painel Nacional do Crime Organizado, ferramenta desenvolvida pelo CNJ e indicam ainda que parte relevante desses processos termina sem condenação. Segundo Fachin, o panorama reforça a necessidade de identificar gargalos e aprimorar a atuação judicial.

"Embora estejamos diante de uma ameaça à integridade do território brasileiro, as estratégias de enfrentamento ao crime organizado precisam se ajustar à heterogeneidade regional", afirmou.

O ministro ressaltou a complexidade das ações que envolvem esse tipo de criminalidade, frequentemente marcadas por grande número de réus, hierarquias sofisticadas, uso de tecnologias digitais e criptoativos para lavagem de dinheiro, além da prática sistemática de intimidação de testemunhas e corrupção de agentes públicos.

Para o ministro, a indisponibilidade de bens e a recuperação de ativos são instrumentos centrais para enfraquecer a capacidade operacional das organizações criminosas.

"Sem um Judiciário eficiente, a investigação não se completa, a condenação não se sustenta e a recuperação de ativos não se consolida", afirmou.

O ministro também chamou atenção ainda para o papel do sistema prisional na expansão das facções criminosas. Fachin destacou que a ausência de separação efetiva entre condenados de diferentes grupos, a precariedade das condições de custódia e as falhas no controle de comunicações criaram um ambiente propício à expansão e ao aperfeiçoamento das estruturas criminosas.

Segundo ele, a execução da pena dentro da legalidade é condição essencial para um enfrentamento efetivo e qualificado do crime organizado.
Reunião com Galípolo
Nesta segunda-feira, 23, Fachin, recebeu os presidentes do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, e do BNDES, Aloizio Mercadante, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A reunião foi realizada no gabinete do ministro no Supremo e teve como tema central o combate à lavagem de dinheiro e o "estrangulamento financeiro" de organizações criminosas, segundo a assessoria da Corte.

De acordo com a nota divulgada pelo Supremo, Galípolo disse a Fachin que o BC está finalizando um pacote de medidas regulatórias para mitigar riscos ao sistema financeiro diante de novas ameaças digitais.

Fachin, por sua vez, defendeu a "inteligência coordenada" e uma "resposta estratégica unificada entre as instituições". Segundo a nota, a Polícia Federal (PF) vai prestar apoio técnico "para assegurar que as novas diretrizes do Banco Central tenham plena eficácia jurídica e operacional".