Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou uma alta de 88,6% nos casos de "homicídio oculto"Reprodução/Ipea
Ao mesmo tempo, os envolvidos no estudo alertam para a alta das mortes violentas por causa indeterminada e, por consequência, do que chamam de "homicídios ocultos", que seriam casos de assassinato não contabilizados oficialmente - estes praticamente dobraram em um ano.
"O número de mortes violentas indeterminadas é o recorde histórico. Foi de 13.896, em 2023, para 17.207, em 2024, o que foi algo até surpreendente", diz Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do Atlas da Violência. Em outros anos, quando havia mais casos de homicídio registrados oficialmente, esse número oscilou de 9,5 mil a 16,5 mil.
A morte violenta por causa indeterminada (MVCI) é uma classificação utilizada quando o Estado não consegue identificar a causa básica do óbito - se é decorrente de acidente, suicídio ou homicídio -, o que pode prejudicar o entendimento do cenário. Segundo Cerqueira, não se sabe exatamente o motivo que levou ao aumento expressivo, de mais de 23%, desse indicador em 2024.
Mas, em geral, duas razões são apontadas: a primeira é a incapacidade de elucidação de determinados casos. "Eventualmente a polícia pode não saber o porquê de alguém ter morrido", diz Cerqueira. Já a segunda, tida como mais recorrente, está ligada a problemas na troca de informações entre os órgãos governamentais. Em ocorrências em que o médico-legista emite um laudo cadavérico e não sabe exatamente as circunstâncias de determinada morte, e é preciso que a polícia complemente as informações posteriormente.
"Nos lugares onde a saúde não tem o dado, a polícia não entrega o dado e não tem um protocolo que compartilhe a informação. Aquele dado termina ficando desconhecido, ainda que eventualmente a polícia saiba o que tinha ocorrido", afirma Cerqueira.
Para dimensionar os impactos desse problema, os pesquisadores à frente do Atlas desenvolveram, eles próprios, um modelo que permite estimar, por meio de técnicas de machine learning (aprendizado de máquina), quantas dessas mortes violentas por causas indeterminadas podem ter sido "homicídios ocultos".
"A gente olha as pessoas que morreram por morte violenta e as características das vítimas e também do incidente em si", afirma Cerqueira. A partir desse conjunto de variáveis, o modelo indica quais casos podem ter sido assassinatos na prática, driblando possíveis subnotificações. O cálculo não é inédito - já foi feito em outras edições da pesquisa -, o que permite também comparar os dados com outros anos.
Praticamente o dobro
Diante disso, os pesquisadores calculam que, no ano de análise, o Brasil pode ter tido, na verdade, 49.673 homicídios estimados, que correspondem à soma entre os casos com registro oficial e os homicídios ocultos. O número representa um leve aumento em relação às 49,5 mil ocorrências estimadas de 2023, com variação de 0,3%.
Ao mesmo tempo, a taxa de homicídios apresenta queda de 0,4%, caindo de 23,5 para 23,4 assassinatos para cada 100 mil habitantes. "É uma queda histórica que estamos vivenciando, mas que, principalmente neste último ano (de análise), acabou ficando um pouco na sombra da piora da qualidade dos dados", afirma Cerqueira.
De resto, as outras unidades federativas tiveram melhora ou manutenção nos números. Em São Paulo, os registros foram de 3 043 para 3.041, o que manteve a taxa sem oscilar e a menor do País (6,6). As quedas mais intensas ocorreram em Amapá (-30,0%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%) e Roraima (-22,8%). No caso do número absoluto de homicídios, as maiores quedas foram no Rio, com menos 772 casos, na Bahia, com menos 555, e no Rio Grande do Sul, com redução de 280.
Conforme o estudo, praticamente dois terços dos Estados (18) tiveram taxa de homicídios acima da média nacional. Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3) e Alagoas (35,9) têm os maiores indicadores. São Paulo teve o menor índice (6,6), seguido por Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3) e Minas (12,8). Os principais aumentos foram em Ceará (28,0%), Maranhão (25,9%) e Piauí (20,5%). Já os Estados com os maiores recuos foram Acre (-47,9%), Sergipe (-47,0%), Goiás (-43,0%).
O estudo ainda mostra que a Bahia concentra metade das 20 cidades mais violentas com 100 mil habitantes ou mais - Salvador é a única capital na lista, com 52,7 homicídios por 100 mil habitantes. As capitais com menores índices são Florianópolis (9,7), Brasília (10,9), Curitiba (13,2) e Goiânia (14,7). Em 5.º lugar está São Paulo (15,3).
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará diz que, neste ano, com investimentos do Estado e intensificação das ações policiais, houve queda nos índices de mortes por crimes violentos e de crimes contra o patrimônio. Já a Secretaria da Segurança Pública do Maranhão diz que os dados do Ministério da Justiça, que levam em conta estatísticas policiais, apontam redução das mortes violentas no Estado nos últimos anos. "Em 2023, foram registrados 2.104 casos. Em 2024, o número caiu para 2.050, redução de 2,5%. Já em 2025, o Estado registrou 1.938 casos, representando nova redução de 5,5% em relação ao ano anterior", afirma.
Maranguape, no Ceará, é a cidade com maior taxa de homicídios estimados, com 87,2 casos para cada 100 mil habitantes. A menos de 30 km de Fortaleza, a cidade é alvo de disputas entre facções
Norte e Nordeste seguem concentrando não só as maiores taxas de homicídios, mas também os municípios mais violentos. Quatro dos 10 líderes de violência ficam no Ceará e outros seis, na Bahia. No topo da lista, além de Maranguape, estão Jequié (BA), com taxa de 79,4 homicídios estimados para cada 100 mil habitantes; Maracanaú (CE), com 74,1; Itapipoca (CE), com 74,0; e Caucaia (CE), com 72,9.
Juntas, as dez cidades com as maiores taxas de homicídio responderam por 19,4% do total nacional. O estudo ainda diz que metade das 20 mais violentas com 100 mil habitantes ou mais fica na Bahia - Salvador é a única capital na lista, com 52,7 homicídios por 100 mil habitantes. As capitais com menores índices são Florianópolis (9,7), Brasília (10,9), Curitiba (13,2) e Goiânia (14,7). Em 5.º lugar está São Paulo (15,3).
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