Avanço dos vapes entre jovens acende alerta para a saúde públicaFoto: Freepik

Rio - Em meio à crescente preocupação com a popularização dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), conhecidos como cigarros eletrônicos, vapes e pods, uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) busca ampliar o conhecimento sobre os impactos desses produtos no controle do tabagismo no Brasil.
Coordenado pela pesquisadora Neilane Bertoni, o estudo multidisciplinar "Dispositivos Eletrônicos para Fumar e seus impactos para o controle do tabagismo" utiliza técnicas de Ciência de Dados para analisar padrões de consumo, estratégias de comercialização e os riscos associados ao uso desses dispositivos, com foco especial em adolescentes e jovens.
A pesquisa adota metodologias inovadoras para acompanhar a dinâmica do mercado e do consumo dos DEFs no ambiente digital. Entre as estratégias utilizadas estão o monitoramento de sites de venda online por meio de coleta automatizada de dados (web-scraping), o recrutamento de participantes pela internet com o método Respondent-Driven Sampling (Web-RDS), a análise integrada de informações quantitativas e qualitativas e o acompanhamento da prevalência de uso a partir de grandes levantamentos nacionais, como a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) e o Vigitel.
Um dos principais objetivos do estudo é reunir evidências sobre o chamado "efeito gateway", hipótese que sugere que os dispositivos eletrônicos para fumar podem facilitar a iniciação ao cigarro convencional e ao consumo de outros produtos derivados do tabaco.
"É importante reunirmos evidências que nos apoiem na compreensão do chamado ‘efeito gateway’, ou seja, o potencial dos DEFs de favorecer a iniciação e uso do cigarro convencional e de outros produtos de tabaco. Muitos jovens que antes conseguiam ser protegidos da iniciação ao tabagismo podem ter esse caminho facilitado pelos DEFs, especialmente porque esses produtos costumam ser percebidos como menos nocivos e mais atrativos, devido à presença de sabores e aromas doces e frutados. Uma vez estabelecida a dependência à nicotina, o adolescente pode passar a utilizar outros produtos de tabaco mais acessíveis e disponíveis para manter essa dependência", explica Neilane Bertoni.
O estudo recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). Segundo a presidente da instituição, Caroline Alves, pesquisas sobre o tema são fundamentais para orientar ações de prevenção e fortalecer políticas públicas baseadas em evidências científicas.
"O avanço dos dispositivos eletrônicos para fumar representa um desafio importante para a saúde pública. Investir em pesquisas que ampliem o conhecimento sobre esse fenômeno é fundamental para apoiar estratégias de prevenção, fiscalização e conscientização, especialmente entre os jovens. A FAPERJ tem o compromisso de fomentar pesquisas capazes de gerar impacto social e contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população", afirma.
Apesar de a comercialização dos dispositivos eletrônicos para fumar ser proibida no Brasil, os produtos continuam sendo amplamente ofertados por meio de canais digitais e redes sociais. Especialistas apontam que fatores como o apelo visual, a variedade de sabores e a percepção de que seriam menos prejudiciais à saúde contribuem para a popularização desses dispositivos, sobretudo entre os mais jovens.
Ao integrar ferramentas de Ciência de Dados e saúde pública, a pesquisa pretende fornecer subsídios para órgãos de fiscalização, gestores públicos e profissionais da área da saúde. Os resultados poderão auxiliar no monitoramento do comércio online, na elaboração de campanhas de conscientização mais direcionadas e no desenvolvimento de estratégias de prevenção voltadas aos diferentes perfis de usuários.
A expectativa é que as evidências produzidas fortaleçam a capacidade de resposta das instituições brasileiras diante dos desafios relacionados ao uso dos dispositivos eletrônicos para fumar, especialmente na proteção de crianças, adolescentes e jovens contra os riscos da dependência da nicotina e do consumo de produtos derivados do tabaco.