Jaques Wagner e Augusto Lima tiveram 5h30 de conversas por telefone, aponta PFReprodução

O relatório das investigações da Polícia Federal que embasou a operação policial Compliance Zero contra o ex-líder do governo Jaques Wagner apontou a existência de 74 ligações entre o senador e o ex-sócio do Banco Master, Augusto Ferreira Lima, também alvo das apurações. De acordo com os documentos tornados públicos nesta quinta-feira, 30, pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Wagner e Lima conversaram por cinco horas e trinta minutos nessas ligações. 

A PF observa que o senador e o banqueiro tinham "nítida preferência" por conversas telefônicas, em vez de mensagens, e que eles chegavam a se falar várias vezes no mesmo dia. Os diálogos compreendem o período de novembro de 2023 a maio de 2025.

A defesa de Jaques Wagner ainda não se manifestou. Na ocasião da operação, ele negou ter atuado em favor do banqueiro.
A investigação da PF apura pagamentos de propina do Banco Master para Jaques Wagner e aponta que a compra de um apartamento de R$ 2,5 milhões para o senador usou o mesmo esquema da aquisição de imóveis de propina para o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa. Além disso, a PF identificou que o dono do Master, Daniel Vorcaro, marcou encontro com Wagner no Senado, disponibilizou avião "em hangar discreto" para o senador e citou em um diálogo que o senador seria um intermediário para mandar recado a Lula.
Wagner articulou encontro 'discreto' de Messias com ex-sócio do Master
Mensagens extraídas do aparelho celular do ex-sócio de Ferreira Lima, mostram tratativas relacionadas à marcação de encontros entre o banqueiro e Jaques Wagner a serem realizados no gabinete do parlamentar. De acordo com a conclusão da PF, "as mensagens analisadas indicam que um desses encontros teria contado com a participação de Messias, possivelmente em referência a Jorge Messias, advogado-geral da União". Wagner também mostra preocupação com o local do encontro, dizendo que o gabinete seria mais "discreto" e "protegido".

Procurado por meio da AGU, Jorge Messias ainda não se manifestou.

De acordo com as mensagens, em 19 de abril de 2024, Wagner envia uma mensagem de áudio a Augusto Ferreira Lima questionando se eles podiam se encontrar no gabinete. O ex-banqueiro responde algum tempo depois que não havia visualizado a mensagem em tempo hábil.

No dia 28 daquele mês, porém, Augusto Ferreira Lima afirma a Wagner que já estava em Brasília. Durante o dia seguinte, eles conversam por chamada de voz e Wagner envia a seguinte mensagem:

"Ô Guga..é.. eu falei com o Messias agora e o presidente infelizmente chamou ele amanhã um pouco por causa dessas confusões.. então ele pediu se poderia ser horário de almoço. Que eu continuo achando que o melhor lugar pra fazer seria no meu gabinete, que é o mais protegido e discreto pra todo mundo.. pra ele é natural tá lá, você já teve várias vezes lá com André. Então não teria tanta atenção chamada. Até porque eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você na hora que for marcada e subo e você não precisa nem passar pela identificação. Então, eu quero ver se pra você dá, porque ele acabou de me avisar e aí eu confirmaria com ele... sei lá.. meio-dia.. Eu tenho CCJ, mas eu espero que meio-dia já tenha terminado e eu posso fazer lá ou na própria liderança do governo, que é mais perto da comissão, é lá embaixo. É até mais fácil de chegar, entendeu? Veja aí e me mande um zap. Abraço."

No dia seguinte, às 11h58, próximo ao horário mencionado no áudio, Augusto Ferreira Lima, enviou mensagem a Jaques Wagner informando que havia chegado.

Às 14h03 daquele mesmo dia, cerca de duas horas após o início do encontro que teria contado com a presença de Messias, há registro, no chat entre o ex-banqueiro e o AGU de mensagem automática do WhatsApp avisando que Messias "usa uma duração padrão para mensagens temporárias em novas conversas", indicando que ele teria adicionado o contato de Augusto Lima naquele momento.
Mendonça autorizou PF a monitorar celular de Jaques Wagner após suspeita de vazamento
O ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a quebrar o sigilo telefônico de Jaques Wagner e monitorar os movimentos de seu telefone celular após suspeitar do vazamento de um pedido de operação da PF contra o petista, apresentado na Operação Compliance Zero.

O ministro retirou o sigilo do processo que tratou da quebra do sigilo telefônico e monitoramento do celular de Wagner nesta quinta-feira. Na decisão que autorizou o monitoramento da antena do celular de Wagner durante dez dias, Mendonça citou que recebeu um pedido de audiência em seu gabinete no mesmo dia em que a PF protocolou o pedido de operação contra o petista.

"Impende realçar a ocorrência de fato que agudiza os riscos de vazamento indevido da operação no presente caso. Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa (09/06/2026), inclusive em horário anterior à distribuição de algumas das representações formuladas", escreveu na decisão.

Wagner foi alvo de busca e apreensão na Compliance Zero em 18 de junho. Um dia depois da operação, Wagner tentou efetuar a venda de um terreno de R$ 15 milhões na região metropolitana de Salvador, mas a operação foi barrada pelo cartório por causa de uma ordem de bloqueio de bens.

A PF pediu o monitoramento da antena de seu celular por receio de que uma vigilância feita em campo pelos agentes despertasse a desconfiança de que a operação estava prestes a ser deflagrada. É comum esse trabalho de campo, por exemplo, para identificar endereços dos alvos antes de uma busca e apreensão.

"Nesse cenário, diligências ostensivas de campo, vigilância presencial ou coleta aberta de informações junto a terceiros podem expor prematuramente a investigação, permitindo troca de aparelhos, destruição de provas digitais, evasão, ocultação de documentos ou coordenação de versões", justificou André Mendonça.