Arte coluna além da vida 26 abril 2025Arte Paulo Márcio

Muitas pessoas acreditam que o fenômeno das cartas psicografadas são atividades exclusivas de centros espíritas, mas isso não é verdade. A mediunidade é a capacidade de ser intermediário entre o mundo espiritual e a Terra. E, no caso das cartas psicografadas, seria a atividade mediúnica em que os médiuns recebem as cartas psicografadas dos entes queridos, já desencarnados, para os seus familiares na Terra.
A Casa de Fátima (https://www.casadefatima.org/), sede da Filosofia de Fátima, no Rio de Janeiro, tem uma filosofia de vida inter-religiosa. Fátima é o pseudônimo do espírito que guia os trabalhos do médium Fernando Ben. Segundo ele, Fátima teria sido uma seguidora de Jesus em uma de suas encarnações e, em outra vida, Hipátia – a famosa filósofa, astrônoma e professora de Alexandria, no Egito.
Sua vida, porém, foi marcada por tragédias: ela foi injustamente condenada, atacada por uma multidão e assassinada, tendo seu corpo lançado a uma fogueira. O nome "Fátima" tem origem árabe e significa "a mulher que desmama", simbolizando a ideia de que, em suas encarnações, ela prepara seus filhos espirituais para o mundo e para uma nova consciência.
Mensalmente, é realizada uma reunião de cartas psicografadas. O médium que as recebe é autista e, em sua vida profissional, trabalha como psicólogo e faz doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Seu nome é Fernando Ben. A mentora espiritual que coordena esta atividade mediúnica se apresenta como Fátima. Por este motivo, esta reunião na Casa de Fátima ficou conhecida como As Cartas de Fátima.
Lá, as pessoas não escrevem fichas com dados e nomes dos seus parentes; apenas se sentam, nos domingos em que a reunião ocorre, e escutam as palestras enquanto o médium recebe as cartas na frente de todos. Os voluntários da instituição, com muito amor, acolhem as famílias enlutadas e com saudades dos seus parentes desencarnados. Ninguém paga nada por isso, é uma atividade de fé, e uma fé inter-religiosa. Logo, é comum pessoas de todas as religiões passarem por esta casa: católicos, umbandistas, espíritas, candomblecistas, budistas e até evangélicos.
Segundo os voluntários da Casa, já foram entregues mais de 6 mil cartas. E, além do trabalho de fé, é realizada, concomitantemente, uma ação social em prol de pessoas em vulnerabilidade social no bairro de Sepetiba, onde fica situada a Casa de Fátima. Cada pessoa que vai à casa leva 1 kg de alimento não perecível. Com os alimentos, os voluntários da Casa montam cestas básicas, que são doadas para as famílias necessitadas que procuram a instituição.
Durante as reuniões, também é realizado o abraço mediúnico, onde os médiuns da Casa se concentram para serem instrumentos dos familiares desencarnados e abraçarem suas famílias que estão na Terra.

É um trabalho genuíno de amor, doação e caridade. Inclusive, esta é uma das frases mais conhecidas de Fátima: “A nossa religião é o outro!”. E, com isso, ela explica que, olhando o outro, nós vemos Deus, e nos tornamos o Deus de quem nos vê, e que não existe prática de religação a Deus sem ajuda ao próximo.
Desta forma, a atividade das Cartas de Fátima é muito mais do que um fenômeno mediúnico: é, para o médium, os voluntários da Casa e as centenas de pessoas que vão à reunião, um ato de amor e entrega, que culmina, além do consolo espiritual, na prática da caridade com os alimentos e roupas entregues aos que mais necessitam no bairro.

Fernando Ben costuma dizer que as Cartas de Fátima são um ato de resistência para um mundo cada vez mais utilitarista e materialista. Continuar com esta atividade, diz ele, é resistir o tempo todo contra o mundo que passou a divulgar que olhar para si é a solução dos problemas, enquanto que, para a Filosofia de Fátima, olhar para o outro é o início não só de uma paz individual, mas de uma paz coletiva.