Hoje entendo que, ao grifar os textos, deixo ali a marca de quem sou e me aproprio daquela escrita com a minha compreensão. Afinal, ler também é um ato solitário, como tudo o que fazemos na vida, mesmo que estejamos acompanhadosArte: Paulo Márcio

Enquanto o motorista do carro de aplicativo fazia o caminho rumo à minha casa, no finzinho da noite da última quinta-feira, a minha mente se transportou novamente para o famoso livro 'amarelinho' da psicanalista Ana Suy: 'A gente mira no amor e acerta na solidão', da editora Paidós. Passei a ler a obra novamente há cerca de uma semana, quatro anos e meio após o meu primeiro contato com ela. Li mais de 60 páginas de uma vez só e gostei de confirmar que, ao revisitar palavras, músicas, pessoas e lugares, a gente constata o quanto mudou ao longo do tempo. Desta vez, fixei meu olhar em outros trechos e me permiti, finalmente, usar uma caneta marca-texto, daquelas bem fluorescentes, para assinalar passagens que me chamaram a atenção. Nunca havia feito isso, pelo apego de achar que, ao sublinhar os textos, estaria estragando as páginas de alguma forma. Hoje entendo que, ao grifá-los, deixo ali a marca de quem sou e me aproprio daquela escrita com a minha compreensão. Afinal, ler também é um ato solitário, como tudo o que fazemos na vida, mesmo que estejamos acompanhados.
Pode parecer contraditório eu ter me lembrado de um livro que fala sobre solidão se revelar de onde estava vindo naquela noite. Menos de uma hora antes, eu estava em uma roda de samba, um lugar de coletividade, tanto pelos músicos que tocam juntos quanto pelo público que entoa as músicas em um coro lindo e ensaiado pelo coração. Mas até ali, ao lado de tanta gente, a nossa experiência é solitária: ninguém mais habita os nossos corpos e os nossos pensamentos além de nós mesmos. E que alívio é ter essa solidão! Naquela noite, inclusive, estava acompanhada de uma das minhas melhores amigas, a Claudia. Com ela, troco confidências, divido alegrias e compartilho minhas angústias. Ela é escuta e também diálogo, assim como acredito que as canções fazem com a gente ao falar de amor, tema que Ana Suy estuda e com o qual me identifico tanto.
Inclusive, em um dos textos que grifei do seu livro está escrito: "No fim da festa estamos sempre com nós mesmos e os nossos vazios, por mais incrível que o evento tenha sido". Aquela noite foi realmente incrível! Mas não me impediu de pensar e até me orgulhar da forma como tenho processado, sozinha, certas situações da vida. Aliás, essa foi uma das lições da terapia: preciso ter um tempo entre as sessões para elaborar certas experiências. Ninguém mais poderá fazer isso por mim. Assim como entendi que, de todas as compreensões que a gente deseja ganhar do mundo, há uma que jamais é compartilhada: a de entendermos nós mesmos e não nos culparmos tanto.
Fico feliz de, ao longo dos meus 48 anos, ter aprendido a ir ao encontro do outro para compartilhar o que sinto e perceber que há muitos universos além do meu. Inclusive, está escrito no famoso livro amarelinho que "são as palavras que fazem ponte entre a solidão de um e a solidão do outro no amor". Por outro lado, ao mesmo tempo em que me lanço nas conversas, faço o exercício de captar toda essa diversidade e voltar para a minha essência, pensando no que as minhas origens e o meu coração me pedem para fazer.
Talvez eu estivesse tão reflexiva porque a semana passada foi um momento especialmente voltado para mim mesma. E, ao entender que precisava me olhar, recebi afagos de muitas formas, sem que algumas pessoas se dessem conta. Ganhei um carinho do meu professor da academia, que retrucou a minha mensagem na manhã de segunda-feira, quando lhe disse que já estava vestida com a roupa de ginástica, mas não iria malhar porque estava com um pouco de cólica. "Um pouco? Que não dá pra você vir?", perguntou ele. Não demorou muito e lá estava eu na academia. Foi bom ter ido, ter levantado uns pesos e, mais do que isso, foi ótimo ter interagido com ele e com outra aluna, que já é minha parceria fixa na musculação. Ela também me ajuda e talvez nem perceba o quanto.
Felizmente, a semana se desenrolou com encontros que tornaram os meus dias mais leves. Foi assim na nutricionista, que me trata com tanto carinho, e em um rápido cumprimento com a profissional que cuida dos meus cabelos. A vida é mais bela quando a gente se lança ao mundo e encontra pessoas que nos dão carinho. A gente sabe que há muitos desencontros por aí, mas é bom festejar essa sensação boa que a convivência nos permite. Na solidão que me cabe, fiz questão de captar cada afago desses com muito amor para seguir vivendo a experiência de ser eu mesma.