Sinto que Gil tenha mesmo feito um acordo com o tempo. Em sua poesia, constatei mais uma vez que "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". Felizmente, eu de fato estava lá, naquela arena, no domingo à noiteCristina Granato/ Divulgação

Foi a segunda vez que estive diante de Gil — seu nome é também Gilberto, mas parece tão belo e íntimo chamá-lo apenas de Gil. Lembro que, na primeira vez em que assisti a um show dele, há uns dois anos, pude vê-lo de pertinho, no aconchegante anfiteatro do Morro da Urca. Desta vez, em um espaço bem maior, na Farmasi Arena, na Barra, estive mais distante dele fisicamente, mas igualmente perto por meio das suas músicas. E ele estava gigante da mesma forma.
Sempre tenho em mente que Gil guarda com ele muitas épocas — e o espetáculo do último domingo só confirmou isso. Estão com ele a sua história e também parte da História do nosso país. Não foi à toa que Chico Buarque, em mensagem transmitida pelo telão, falou sobre a letra de 'Cálice', feita em parceria com o amigo e censurada durante a ditadura, e resumiu o que é Gil. Para Chico, o baiano já guardava naquela época a serenidade de quem sabia que o 'Tempo Rei', nome de uma de suas canções e da sua turnê, lhe daria razão.
Estar na plateia de Gil é mesmo reencontrar a força do tempo, que parece se esvair de nossas mãos. Assim, quando ele cantou "Subo nesse palco, minha alma cheira a talco/ Como bumbum de bebê", eu tive a convicção de que aquele senhor de 83 anos é mesmo um menino. Em duas horas e meia de show, o baiano repassou sua carreira e reverenciou diferentes gerações através de seus músicos. Foi assim quando falou de Mestrinho, ao dizer que ele havia sido discípulo de grandes nomes do acordeon, e agora já pode ser considerado Mestre Mestrinho. Gil também exaltou a família, que faz música ao seu lado, como a neta Flor, que cantou lindamente: "Há de surgir/ Uma estrela no céu/ Cada vez que ocê sorrir..."
Gil é do tempo da simplicidade, de quem eterniza algo singelo e genial: "Do luar não há mais nada a dizer/ A não ser/ Que a gente precisa ver o luar". É também da era das delicadezas com um amor que se transforma. 'Drão', composta após a separação de Sandra Gadelha, está aí para confirmar que ciclos começam e se encerram. Não precisamos romper em todos os desencontros, como ele nos ensina: "Tem que morrer pra germinar/ Plantar n'algum lugar/ Ressuscitar no chão, nossa semeadura".
O tempo é ainda lugar de riqueza para Gil. De sua memória, ele resgata passagens da vida com extrema lucidez. Foi assim quando contou sobre sua viagem para Lagos, na Nigéria, em 1977, durante o Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negra e Africana. Voltou de lá escrevendo 'Refavela'. Ou quando chamou 'Os Paralamas do Sucesso' ao palco e relembrou um pedido de Herbert Vianna para fazer a letra que originou a canção 'A Novidade'. Gil estava em Florianópolis na época e recebeu a gravação instrumental em uma fita cassete através de um serviço de entrega. Daí surgiu a canção em parceria com Herbert, Bi Ribeiro e João Barone: "Oh, mundo tão desigual/ Tudo é tão desigual/ De um lado esse Carnaval/ De outro a fome total..." Ali, Gil já descrevia um tempo que cisma em não ir embora: o das desigualdades.
Sinto que Gil tenha mesmo feito um acordo com o tempo. Em sua poesia, constatei mais uma vez que "o melhor lugar do mundo é aqui e agora". Felizmente, eu de fato estava lá, naquela arena, no domingo à noite. Ter corpo e mente no mesmo lugar é um luxo em momentos tão acelerados como os de hoje, que nos fazem pensar lá frente. Também é luxo viver na mesma época desse homem, por tanta sabedoria compartilhada. Definitivamente, a vida é bem mais feliz no Tempo Gil.