Inclusive, algo que sempre faço acompanhada de mim mesma é pedir licença a Moa e a Clarão, seu parceiro na composição 'A Reza do Samba'. Eles não sabem, mas peço-lhes para recordar a minha mãe logo nos primeiros acordes da cançãoArte: Kiko
Grandes desejos
Moa, enfim, me fez pensar em como é lindo ter privacidade nesses tempos atuais em que tudo parece ser clicado e compartilhado. Como é bela essa possibilidade de realizarmos vontades que não precisam ser expostas
Os grandes desejos de Moacyr Luz fizeram morada nos meus pensamentos. Passei a levá-los comigo desde que soube que o sambista — que se submeteu a uma cirurgia para tratar o mal de Parkinson, em São Paulo — quer, por exemplo, roubar comida da geladeira assim que a operação começar a dar resultados. Moa, como é carinhosamente chamado, argumentou que vai derrubar tudo se tentar realizar a sua vontade atualmente. Imagino que ele tenha orientações médicas a seguir, tanto para alimentação quanto para brindes, mas o fato é que me fez lembrar de como são importantes as nossas singularidade e intimidade.
Acordei pensando nisso durante uma madrugada quando me levantei da cama para ir ao banheiro. Não roubei comida escondida da geladeira, mas pensei em como é bom ter a chance de fazer isso. Até porque, entre tantas particularidades que nos constituem, está o paladar. Eu certamente pegaria um doce, meu ponto fraco, enquanto outra pessoa poderia ir direto em alguma guloseima salgada. Só a gente sabe por quais delícias vale a pena sair da dieta. No dia seguinte, amanheci refletindo sobre o luxo de estar a sós. Peguei a balança digital que fica no meu quarto, subi nela e conferi o meu peso sem ninguém para espichar o olho nos números mostrados no visor. É claro que na próxima consulta eles estarão bem visíveis para a minha nutricionista. Mas, naquele momento, éramos só eu e a balança, com quem já tive muitos dilemas.
Também lembrei o desejo de Moa quando dirigi sozinha na quinta-feira pela manhã e cantei dentro do carro. Se alguém estivesse ao meu lado, certamente diria que não tenho afinação nenhuma. Mas, a sós, tenho a quase certeza de que sou um talento ainda não descoberto. Inclusive, algo que sempre faço acompanhada de mim mesma é pedir licença a Moa e a Clarão, seu parceiro na composição 'A Reza do Samba'. Eles não sabem, mas peço-lhes para recordar a minha mãe logo nos primeiros acordes da canção. Afinal, ela sempre me dizia que segunda-feira é o dia das almas benditas. Inclusive, aprendi com ela o ritual de acender velas. Até podemos fazê-lo diante dos outros, mas será sempre um momento particular. Afinal, a intimidade de uma oração é uma das coisas mais belas que existem.
Moa, homem público de trajetória notável, me fez pensar em como é possível equilibrar exposição e privacidade. Ele compartilha sua luta contra o mal de Parkinson e traz à tona, para um número enorme de pessoas, a possibilidade de amenizar as consequências da doença. O procedimento a que se submeteu em São Paulo é capaz de reduzir os sintomas em pelo menos 60% e também diminuir pela metade o uso de remédios. O artista tem ajuda de uma cuidadora, mas penso que profissionais assim também têm a sensibilidade de respeitar a individualidade de quem é cuidado. Já tive a chance de conhecer um enfermeiro que me relatou o modo como atendia pacientes sedados, por exemplo, sempre lhes chamando pelo nome e explicando o procedimento que seria realizado naquele dia.
Bem-humorado, Moacyr Luz também me fez rir. Eu lembrei que, um dia desses, eu e meu pai recebemos duas fatias de bolo de um aniversário. Comi a minha e peguei também um pedaço da parte dele. É claro que meu pai iria perceber depois, assim como alguém vai descobrir se Moa 'atacar' a geladeira. Mas, às vezes, a gente só quer ter a sensação de ser criança novamente e fazer algo escondido dos pais, mesmo sabendo que eles estão por perto.
Moa, enfim, me fez pensar em como é lindo ter privacidade nesses tempos atuais em que tudo parece ser clicado e compartilhado. Como é bela essa possibilidade de realizarmos vontades que não precisam ser expostas. Aliás, quando será que deixamos de admirar esse poder? É mesmo instigante estarmos a sós com os nossos desejos e, ao mesmo tempo, em convívio com o outro. Moa é compartilhamento puro. Basta ir ao Samba do Trabalhador para sentir isso. Inclusive, estive lá duas vezes neste ano, uma delas em dia de festa. Era comemoração dos 20 anos da roda que ele comanda no Renascença, no Andaraí. Fui sozinha. E foi lindo! Eu me diverti muito, cantei várias músicas e me inspirei para escrever. O Rena estava lotado e eu me senti mais íntima de mim mesma. Obrigada, Moa, por me lembrar desses pequenos grandes poderes. Espero assisti-lo em breve cantando 'A Reza do Samba' e me fazendo lembrar da minha mãe mais uma vez.

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