É lindo ter um irmão como testemunha da nossa história! Não preciso de papel passado em cartório para saber isso. Também não há provas de que eu tinha amigos imaginários no quintal de casa, mas ninguém pode retirá-los das minhas lembrançasArte: Paulo Márcio

A conversa surgiu outro dia, por WhatsApp, em uma dessas tentativas de marcar uma confraternização de fim de ano. Eu e um amigo relembrávamos momentos em que o nosso grupo convivia mais de perto e também falávamos sobre essa correria da vida que insiste em nos roubar o que é mais precioso desse mundo. Já naquela época, vivíamos no eterno "vamos marcar um almoço". Claro que me lembro disso, mas, nesse bate-papo recente, quis provocá-lo e disse que não tinha recordações de que os planos eram sempre adiados. "Não há provas", aleguei em minha defesa. E ele logo me respondeu, brincando: "Mas há memória".
Fiquei com aquela frase em mente, provavelmente porque sou fascinada pelas lembranças que são entrelaçadas em nossa alma e no nosso coração. A memória é algo que me constitui de forma muito potente. Talvez meus textos sejam o meu exercício mais precioso de recordação. Gosto de recorrer à escrita para não cair na armadilha de apenas acionar o celular em busca de uma captura em vídeo ou foto na galeria. Afinal, a gente não precisa de provas para tudo e talvez os sentimentos sejam os melhores registros do que vivemos.
Tudo isso me fez pensar na beleza que é ser cúmplice de um momento ao lado de alguém sem achar que precisamos de comprovações para descrevê-lo depois. Aliás, nem tudo precisa ser exposto e postado. Mas a gente vive diante da ideia de que precisamos mostrar o show, a comida, a paisagem, o pôr do sol... Por que não sentir tudo isso e dizer depois que há memória dessas experiências? Aliás, não só na mente, mas também no coração. Os vestígios deixados na alma são preciosos demais para serem minimizados. Está tudo documentado nela.
Precisamos, por exemplo, resgatar a beleza de ler um livro e imaginar cenas e personagens sem que eles estejam desenhados. A facilidade de ter tudo mastigado com áudio, vídeo e legendas nos rouba a fantasia. Precisamos ir a um lugar e relatar a nossa experiência sem enviar um monte de fotos, como se todas elas pudessem falar sozinhas. Eu amo cliques, mas a gente precisa recuperar a capacidade de relatar nossas sensações e dizer o que ficou eternizado na mente e no coração. Até porque uma foto posada, um vídeo ensaiado e uma selfie programada não têm a espontaneidade de um momento vivido naturalmente. Inclusive, meus instantes recentes de maior cumplicidade não têm nenhum registro que não seja o da minha alma.
Inclusive, a gente precisa achar beleza na vida de gerações como a minha. Não temos registro em foto ou vídeo de tudo o que vivemos na infância, mas guardamos relatos de quem nos criou. Não há provas de que a minha mãe me disse exaustivamente que eu sou linda, mas o meu coração gravou assim. Não há provas de que eu e minha irmã brincávamos de sorteio de cartas quando éramos crianças, mas nós duas nos lembramos disso. É lindo ter um irmão como testemunha da nossa história! Não preciso de papel passado em cartório para saber isso. Também não há provas de que eu tinha amigos imaginários no quintal de casa, mas ninguém pode retirá-los das minhas lembranças.
Tudo isso me lembra de uma história linda que escutei sobre um momento de cumplicidade entre pai e filha, que parece ter sido tirada de um conto de fadas. Ocorreu em uma noite de Natal: a menininha dormia até que despertou do sono e perguntou imediatamente ao pai se ele havia visto o mesmo que ela. Rapidamente, ele disse que sim. E, a partir dali, a garotinha passou a contar que só ela e o pai conseguiram ver o Papai Noel. Nenhum dos dois precisa provar o que aconteceu naquele instante. Juntos, eles foram cúmplices de um momento especial. Há memória. E isso basta.