Gostei justamente da pluralidade ali mostrada, tanto pela beleza múltipla e diversão dos dançarinos quanto pelas particularidades de cada local retratado aliArte de Kiko com fotos de Léo Queiroz/Divulgação

Ainda na Linha Vermelha, no trajeto de carro de Caxias, na Baixada, até Copacabana, na Zona Sul do Rio, minha irmã me perguntou se eu já havia assistido a algum filme no Roxy, cinema que marcou época no bairro carioca. Respondi que não e ela relembrou que já havia estado lá com sua turma de faculdade. Contou também que, durante a adolescência, esteve com a minha mãe no Odeon, na Cinelândia, e também recordou a época em que íamos sempre em família para a Mesbla, no Passeio. E foi assim, cheia de lembranças de um Rio antigo, que chegamos ao Roxy em uma noite de sábado. A fachada está mantida, mas o espaço - tombado como bem imaterial - agora abriga uma casa de shows desde 2024, a Roxy Dinner Show.
Diante da bilheteria, percebi que o português se misturava a outros idiomas, como o inglês e o espanhol. Havia muitos turistas estrangeiros por ali, prontos para assistir ao show 'Aquele Abraço', que mescla música e dança para apresentar as diferentes regiões do país. Gostei justamente da pluralidade ali mostrada, tanto pela beleza múltipla dos dançarinos quanto pelas particularidades de cada local retratado ali. Na vez de São Paulo, por exemplo, as imagens projetadas em um enorme telão no palco me deram nitidamente a sensação que tive na minha última visita à capital paulista: a cidade não para nunca. Da Amazônia, também retratada ali, guardo as lembranças da minha experiência em Altamira, um grande município amazônico no Pará, banhado pelo Rio Xingu.
Tudo isso, aliás, conduzido por Rodrigo Naice, natural de Manaus, e Tauã Delmiro, nascido no Rio. Vestidos de lanterninhas, os dois artistas representaram os simpáticos funcionários que antigamente conduziam os espectadores, especialmente os que chegavam atrasados, nas salas escuras dos cinemas. As músicas, inclusive, tiveram papel fundamental nesse clarão de recordações, com 'Baianidade Nagô', 'Asa Branca', 'Ai se eu te pego', 'Esperando na janela', 'Rap da Felicidade', 'Não deixe o samba morrer', 'Garota de Ipanema', entre tantas outras canções. Em cada uma delas havia muitos registros guardados pela forma como marcaram épocas e fases da vida de cada um de nós.
Não faltou também irreverência, como no momento em que um dos lanterninhas citou Clarice Lispector e brincou dizendo que se tratava de uma escritora em início de carreira. Depois, disse que iria declamar algum poema de Clarice e completou com um trecho de 'São Amores', música famosa com Pablo Vittar. Houve também muita interação com a plateia, com uma senhora sendo chamada ao palco e a inclusão de uma imagem do público no telão para dizer que todos temos responsabilidade pelo futuro do meio ambiente.
Sinto que o espetáculo dirigido por Abel Gomes acerta justamente por não reduzir o Brasil a um rótulo. Afinal, somos o país onde se dança funk, forró, bossa nova, sertanejo, samba e muito mais. Somos o país de corpos diversos e belezas plurais. Somos o país de gente que baila e canta. Somos o país do Amazonas, das fitinhas do Senhor do Bonfim, do Cristo Redentor, da Avenida Paulista, da Sapucaí, das Cataratas do Iguaçu...
Toda essa experiência se uniu à chance de admirar detalhes do espaço inaugurado em 1938 que simboliza um Rio antigo. Gostei também dos cliques feitos logo na entrada por fotógrafos do local. Eu e minha irmã posamos na escadaria e também com um lindo lustre ao fundo. Depois, a fotógrafa passou na mesa oferecendo os registros em papel para comprarmos. E esse ritual também me trouxe a nostalgia de outras casas de shows e de um tempo em que não tínhamos celular para capturar imagens em todos os instantes. Inclusive, uma das fotos de que mais gosto da minha mãe está emoldurada em papel personalizado do antigo Canecão, em Botafogo. E foi assim que eu fui e voltei do Roxy naquele dia. E é assim que sigo com aquela noite dentro de mim, como um farol de boas memórias.