Soube depois que Pietra foi selecionada para participar do Prix de Lausanne, em fevereiro. Vê-la dançar ao lado de Hotavio Fernandes reforçou em mim a importância de resgatarmos o vigor da juventude para alimentar nossos sonhos, em qualquer época da vida Arte de Paulo Márcio sobre fotos de Daniel Ebendinger/ Divulgação
A magia da arte
Os pés em ponta e o sorriso no rosto dos bailarinos contrastavam com o que imagino que eles passem diariamente para chegar a um enorme grau de excelência: horas e horas de treinos levando o corpo à exaustão
As redes sociais, o calendário do celular e os compromissos na agenda não me deixam esquecer: o ano já virou. Oficialmente em 2026, eu me peguei pensando nesta escrita. Argumentei com os meus próprios pensamentos se ainda fazia sentido compartilhar essa experiência vivida no fim de dezembro do último ano. E decidi que sim, porque a arte vai muito além do instante em que temos contato com ela: sua magia perdura em nós.
Assim, resgato as minhas sensações ao assistir ao espetáculo 'Quebra-Nozes', no Theatro Municipal, na Cinelândia. Estava acompanhada da minha irmã naquela noite de verão no Rio. Chegamos pouco depois das 18h e admiramos a Vila de Natal montada no Boulevard na lateral do Theatro, onde alguns personagens faziam a alegria dos visitantes. No mundo literal, poderia dizer que uma pessoa estava fantasiada de árvore de Natal, equilibrando-se em pernas de pau. Mas no universo da poesia eu me permito contar que era de fato um símbolo natalino vivo.
Logo entramos naquele prédio histórico. Enquanto a minha irmã estava na fila da cafeteria, arrumei uma mesa no espaço e admirei detalhes do lugar. Aproveitamos para tirar algumas selfies nos espelhos do Municipal até nos dirigirmos ao nosso espaço na plateia. Já acomodadas em nossos lugares, notamos que estávamos bem perto do fosso, onde fica a Orquestra Sinfônica do Theatro. Logo me levantei e passei a admirar os músicos "aquecendo" seus instrumentos, cada um com o seu som particular. Aproveitei que o espetáculo não havia começado e cliquei um sorriso de Andréa Moniz ao retirar o seu violino do estojo, uma cena que simbolizou a beleza daquele instante.
Quando o espetáculo começou, o encanto se multiplicou. Fiquei fascinada com um pouco de tudo o que via ali: figurinos, bailarinos, cenários e músicos sob a regência do maestro Felipe Prazeres, além das vozes do Coral feminino do Theatro. Eram muitas nuances daquele clássico de Tchaikovsky. Com adaptação de Hélio Bejani e Jorge Teixeira a partir da obra de Marius Petipa, o enredo gira em torno da jovem Clara na noite de Natal: ela recebe um boneco quebra-nozes e, após adormecer, embarca em uma viagem mágica por reinos encantados.
A cada momento, um detalhe chamava a minha atenção. Os pés em ponta e o sorriso no rosto dos bailarinos contrastavam com o que imagino que eles passem diariamente para chegar a um enorme grau de excelência: horas e horas de treinos levando o corpo à exaustão. É a repetição que conduz ao sucesso. Inclusive, confirmei essa ideia ao navegar pelo perfil no Instagram da jovem bailarina Pietra Rêgo, de apenas 15 anos, que viveu Clara naquela noite. Em um post, ela revelava como havia sido o dia da sua estreia no papel, chegando ao Municipal pouco depois de meio-dia para fazer penteado, ensaiar, almoçar, receber maquiagem, terminar o penteado, ensaiar mais uma vez, colocar figurino, acertar os últimos detalhes e, enfim, chegar ao momento tão esperado, às 19h. Soube depois que Pietra foi selecionada para participar do Prix de Lausanne, em fevereiro. Vê-la dançar ao lado de Hotavio Fernandes reforçou em mim a importância de resgatarmos o vigor da juventude para alimentar nossos sonhos, em qualquer época da vida.
Admirando os figurinos de Tania Agra, percebi as saias fluidas, outras armadas, os corpetes e os adereços nos cabelos. Na cenografia de Manoel Puoci, notei o festival de cores do mundo açucarado no Reino dos Doces para onde Clara viajava. Tudo em harmonia com a iluminação de Paulo Ornellas. Admirei o entrosamento de Juliana Valadão no papel da fada açucarada com Cícero Gomes sendo o príncipe. Os dois, aliás, são primeiros bailarinos do Municipal e bailam como espelhos para quem está começando na dança.
Fiquei pensando no imenso trabalho de fazer tudo funcionar em harmonia: o balé, a orquestra, o coral, os figurinos, o cenário, a iluminação... A vida também é assim: cada um de nós tem diferentes nuances, mas fazer essa engrenagem da convivência funcionar sem ruídos não é fácil porque não temos direito a ensaios. Não é à toa que o Quebra-Nozes tem um time de ensaiadores: Jorge Teixeira, Mônica Barbosa, Celeste Lima, Deborah Ribeiro, Filipe Moreira e Hélio Bejani. Parece mágico reunir tanta gente e transformar esse encontro em harmonia. Ver aquele espetáculo me fez dar vida aos créditos dos profissionais envolvidos no evento — por isso cito aqui o maior número possível deles.
Ao fim do espetáculo, eu e minha irmã nos dirigimos para a frente da fachada do Municipal, onde uma projeção mapeada inspirada no próprio Quebra-Nozes conferia fantasia ao prédio. Ao anoitecer, as luzes ganharam vida. Reparei, então, na arquitetura no alto do edifício, onde era possível ler as palavras 'Música' e 'Poesia'. E constatei que a arte realmente nos dá respiros em momentos de aridez.

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