O livro ainda traz a magia de dizer que o Astro Rei reconheceu em Conceição o brilho do Sol. Ela tornou-se escritora aos 44 anos para se firmar como a mulher que ilumina por onde passa. Para mostrar que sempre poderia irradiar palavras por aíArte O DIA

O dia raiava lá fora quando abri os olhos e vi o pequeno espelho com moldura de sol que fica em uma das paredes do meu quarto. Lembro que foi meu pai quem fez o furo para instalar a peça ali, no início da pandemia da covid-19. Logo recordei o livro que havia recebido poucos dias antes pelos Correios: 'Nosso Sol', com texto de Simone Mota e ilustrações de Isabela Santos, da Editora Pallas. A obra é uma homenagem à escritora Conceição Evaristo e começa com uma menina na praia em um dia nublado fazendo uma simpatia para atrair o Sol. A garotinha riscava o Sol na areia com palito de picolé e, além de raios, colocava olhos e boca no Astro Rei na esperança de que ele conversasse com ela.
Até que o dia de prosa, enfim, chegou! E o Sol se pôs a contar para a menina da praia a história de uma outra garota, que, para ajudar a mãe a secar as roupas que garantiam o sustento da família, também o havia chamado. Nessa outra vida, gravetos quebrados riscavam a areia encharcada da chuva.
O Astro Rei, então, seguiu mostrando a vida de Conceição, desde a infância humilde com sua mãe e irmãs até se tornar a grande autora reconhecida. Para ela, era preciso marcar o chão com força para fazer traços no solo molhado. "E mesmo assim a menina sorria para a mãe, desenhando o Sol. Como se ela não percebesse a sua força. Sabe aquela força que a gente faz sem sentir quando está desenhando, mas quando vê o desenho marcou o outro lado do papel? Foi desse jeito que, sem perceber, a menina puxou o Sol", diz um trecho do livro.
Toda essa maneira poética de levar aos pequenos a história de Conceição Evaristo me encantou. Pela crença de que podemos ensinar aos mais novos quem são as grandes referências da literatura. Até porque arte é para ser sentida e não é preciso crescer em tamanho para ter acesso a ela. Inclusive, há quem cresça e insista em deixar de sentir, infelizmente.
Também pensei em como o Sol aparece de diferentes formas no mundo. Cada universo é único e, por mais que estejamos debaixo do mesmo céu, cada um de nós olha para o alto com a perspectiva da sua própria vida — o que revela também desigualdades sociais. Alguns chamam o Sol em um dia de praia riscando a areia com palito de picolé. E há quem recorra a gravetos e marque o solo encharcado de chuva com força na tentativa de ver os raios de luz aparecerem na imensidão azul.
O livro ainda traz a magia de dizer que o Astro Rei reconheceu em Conceição o brilho do Sol. Ela tornou-se escritora aos 44 anos para se firmar como a mulher que ilumina por onde passa. Para mostrar que sempre poderia irradiar palavras por aí. Para nos lembrar de ouvir a história de outros sóis no mundo. E para reconhecer as pessoas que nos ajudam a brilhar mais forte. Conceição, por exemplo, tinha as palavras da mãe como guia e hoje é uma dessas referências que jogam luz em múltiplos caminhos. Ao se tornar a primeira negra na Academia Mineira de Letras, em 2024, ela irradiou ainda mais confiança para mulheres que se identificam com a sua trajetória. Ao virar escritora depois dos 40, ela clareou os passos contra o etarismo e contra a ideia de que há uma idade certa para tudo.
Curiosamente, comecei a escrever este texto no mesmo dia em que vi de perto um mural em homenagem a Conceição Evaristo no Largo São Francisco da Prainha, na Zona Portuária do Rio. A obra faz parte do projeto NegroMuro, projeto do muralista Cazé e do pesquisador e produtor Pedro Rajão, que desde 2018 reverencia a memória negra por meio da arte urbana. Logo encontrei uma reportagem em que Rajão defende a ideia de que a escritora seja uma guardiã daquele território. Talvez seja por isso que nem aquele dia nublado em que estive por ali tenha sido capaz de esconder a força solar da menina Conceição, que agora ganha o céu, com cores, flores, livros e seu brilho próprio.