Naquela manhã de domingo, eu me esqueci do meu tamanho considerado real, aquele que a gente preenche em fichas médicas, por exemplo Arte: Kiko
Pequena, gigante e livre: uma manhã nas nuvens
Naquela manhã de domingo, eu me esqueci do meu tamanho considerado real, aquele que a gente preenche em fichas médicas, por exemplo. E recordei a pequena que jamais morreu dentro de mim
Quando olhei a cortina recortada em tiras em uma das portas do primeiro andar do CCBB-RJ, logo enxerguei a palavra 'continua' e me dirigi a uma funcionária do CCBB-RJ ali presente. Perguntei se a mostra seguia para outra sala e ela me explicou que aquela mensagem queria expressar a continuidade infinita da obra de Mauricio de Sousa, o criador da Turma da Mônica homenageado naquela exposição. Tratei de puxar papo com outra senhora que estava por ali e me interessei pela sua emoção aflorada no rosto. Era possível sentir sua alegria, especialmente quando apontou para um painel na última sala com os dizeres: "Eu aprendi a ler com a Turma da Mônica". Ela me contou que foi exatamente assim que sua irmã mais velha lhe apresentou o mundo das palavras, por meio dos gibis daquela menina dentuça que nunca levou desaforo para casa e com quem ela sempre se identificou. Também me relatou, orgulhosa, estar ali com três gerações da família: ela, as netas e uma das filhas, todas vestindo camisas estampadas com personagens criadas por Mauricio.
Naquela manhã de domingo, eu me esqueci do meu tamanho considerado real, aquele que a gente preenche em fichas médicas, por exemplo. E recordei a pequena que jamais morreu dentro de mim. Passei a semana anterior pensando na boneca da Mônica que tive na infância: além do tradicional vestido vermelho, ela tinha uma capa de chuva amarela. Feita de plástico, era grande e estática. Não tinha mobilidade como as bonecas mais modernas, que falam e gesticulam. Mas a minha Mônica não precisava de nenhuma engenhoca: toda a sua personalidade já estava dentro da minha mente.
Percorri a exposição pensando em como aquela personagem era decidida: agarrava-se ao coelho azul, o Sansão, que era originalmente amarelo e se chamava Hércules. Inspiração para a protagonista dos desenhos, Mônica, a filha de Mauricio, falou certa vez que não precisava mais dar coelhadas para conquistar seu espaço. Fiquei refletindo e constatando a importância de uma menina ser a personagem central de uma história, com personalidade forte. Não foi à toa que passei os dias anteriores recordando a música 'Sou a Mônica': "Quando diz que sim, quando diz que não/ Mostra ter opinião".
Pensando em todo esse universo, eu me permiti ser pequena naquele domingo. Ou gigante, na verdade. Afinal, acredito que as crianças, em geral, têm a grandeza de não ter vergonha de situações bobas e se render ao encantamento. Quando cheguei à parte da exposição que mostra o famoso bairro do Limoeiro, perguntei a outra funcionária se poderia sentar no chão para tirar foto pertinho de uma árvore que tinha ali. Ela me respondeu que sim, desde que não me demorasse muito. E lá fui eu, toda boba, fazer o clique que queria. Logo vi um homem e uma mulher pulando a amarelinha riscada no chão e não me contive. Pedi a ele que gravasse um vídeo meu naquela brincadeira de pular pelas casas até chegar ao céu. Afinal, a gente se sente nas nuvens sendo livre.
Foi bonito ver adultos rindo de piadas simples. Eu também ri! Foi reflexivo notar como Mauricio de Souza trouxe temas como a perda de alguém para o mundo infantil, através da Dona Morte. Foi interessante perceber que, ao entrar em cada ambiente dos personagens, era fácil identificá-los por uma característica marcante. No ambiente do Cascão, aliás, vi o relato do seu primeiro banho. Vi o quarto da Magali, com quem sempre me identifiquei, talvez por ela amar melancia, uma dentre tantas frutas que eu adoro. Sem falar, é claro, do Cebolinha, trocando os erres pelo éles.
Hoje, ao escrever este texto, faço o exercício de voltar para os instantes em que percorri aquela exposição vendo muitas belezas. Admirei o momento em que os adultos orientavam os pequenos a sorrir na hora das fotos: "Abacaxi!". E achei graça no pai que falava a todo instante para a filha: "Aqui não pode tocar". Queria dizer para aquela menina que eu também gostaria de pegar vários itens daquela mostra. Mas tento me agarrar à crença de que posso tocar um pouco daquele mundo mágico ao acionar o coração.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.