Rafa Dias, CEO da Dia TV, fala a Andrei Lara sobre a expansão da emissora digital e os desafios do mercado de mídia Foto: Divulgação
Rafa Dias, da Dia TV: 'A televisão vai migrar quase por completo para o digital'
Em conversa com a Coluna Andrei Lara, o CEO da Dia TV fala do medo antes da estreia, da audiência de mais de 20 milhões de pessoas por mês e de como uma ideia de internet virou emissora digital que inspira novas gerações
Em menos de três anos de existência como “TV com todas as letras”, a Dia TV se consolidou como um dos maiores cases de mídia digital do país, falando mensalmente com mais de 20 milhões de pessoas a partir de uma programação colorida, diversa e profundamente conectada à cultura da internet. À frente de tudo isso está Rafa Dias, criador da marca e CEO da empresa, que há 12 anos vem transformando um projeto nascido na web em uma estrutura robusta, com estúdios, equipe numerosa, programas diários e presença em TVs conectadas e canais FAST.
Nesta entrevista a Andrei Lara, Rafa relembra o medo que sentiu às vésperas da estreia, conta o momento em que percebeu que a Dia tinha virado, de fato, uma emissora, reflete sobre o futuro da televisão no ambiente digital e fala da responsabilidade de representar públicos que nunca se enxergaram na TV tradicional. Ele também comenta os bastidores da operação, os desafios para crescer em audiência e revela que, nos próximos meses, quer tirar do papel projetos que prometem surpreender ainda mais a audiência da Dia TV.
Andrei Lara: Rafa, hoje a Dia TV fala em mais de 20 milhões de pessoas alcançadas por mês. Em que momento você sentiu que aquilo que começou como um projeto de internet virou, de fato, uma emissora, uma “TV” com todas as letras?
Rafa Dias: Eu percebi que a Dia tinha realmente virado uma TV com todas as letras quando cheguei em casa, um dia, no meu antigo prédio. Passei pela portaria para pegar umas encomendas e o porteiro fez um comentário sobre uma coisa que tinha acabado de acontecer na Dia TV, e eu tinha dirigido aquele momento. Ele estava rindo da piada e brincando sobre aquilo, e eu nem imaginava que o porteiro sabia o que eu fazia ou que acompanhava a Dia TV pelo celular. Acho que foi nesse momento que eu vi que estava presente na vida das pessoas e que aquilo tinha tomado outra proporção no meu trabalho.
Andrei Lara: Você já contou que, às vésperas do lançamento da Dia TV, bateu medo, bateu insegurança, que você chegou a chorar pensando no risco. Se você pudesse voltar naquele dia, o que diria para o Rafa de antes da estreia?
Rafa Dias: Antes de começar a Dia TV eu realmente tive muito medo, bateu uma insegurança gigantesca, e se eu pudesse voltar lá para falar com o Rafa daquele momento, antes da estreia, eu o encorajaria demais. Com o passar da vida e das experiências, eu vou tendo mais coragem. Ter uma ideia é fácil; executar essa ideia é muito difícil. E acho que é isso: pensar sempre na execução, porque no fundo é tirar o projeto do papel, e isso é muito difícil. Hoje em dia, tem que ter muita coragem para executar esse tipo de coisa, e eu tive essa coragem. Então acho que isso foi muito importante para a minha história e para a minha carreira.
Andrei Lara: A Dia TV nasceu muito forte nas plataformas digitais e agora também ocupa espaço em TVs conectadas e canais FAST. Na sua visão, o futuro da televisão está mais nesses modelos novos do que na TV aberta tradicional? Por quê?
Rafa Dias: Eu acredito muito que a televisão vai migrar quase por completo para essa versão digital. Hoje em dia é mais fácil, em casas que já têm Wi-Fi, você conectar a TV ao Wi-Fi do que comprar uma antena para ligar na televisão, e muitas vezes nem fica esteticamente bonito. Então está mais fácil conectar a TV a um Wi-Fi sem fio e ter acesso a tudo: aos streamings, às TVs… absolutamente tudo. Por isso eu acredito tanto nesse modelo, porque acho que essa é a transformação.
Andrei Lara: Nesses últimos meses, a grade ganhou novos programas, novas temporadas e novos nomes no elenco. O que você leva em conta na hora de aprovar um programa para a Dia TV? É mais gut feeling, dado, representatividade, nicho… como você decide?
Rafa Dias: Para colocarmos um novo programa na grade, acho que há vários fatores. Primeiro, entender que a gente ainda não tem um programa como aquele na grade. Depois, ter uma percepção do público: o que o público vai achar desse novo programa, se tem a ver com ele. E, naturalmente, esse público também é o mercado publicitário, o que o mercado vai achar disso. Então, com essas três informações, a gente decide um novo programa na grade.
Andrei Lara: A Dia TV virou um case de economia criativa, movimentando muita gente, emprego, dinheiro, marca. Hoje você se enxerga mais como criador de conteúdo que virou empresário ou como um empresário de mídia que trabalha com criadores?
Rafa Dias: A Dia virou um case, e eu acho isso fantástico na minha história. Mas eu me enxergo muito mais como um empresário que trabalha com mídia e com criadores de conteúdo. O meu trabalho como criador hoje é muito pequeno, quase irrelevante. O meu trabalho grande mesmo é como empresário de uma empresa que movimenta tudo o que a gente movimenta e que se comunica com milhões de pessoas.
Andrei Lara: Muita gente comenta que se sente “representada” assistindo à Dia TV, principalmente o público LGBT+, jovens e quem nunca se viu na TV tradicional. Como você equilibra entretenimento, representatividade e responsabilidade quando coloca um programa no ar?
Rafa Dias: Muita gente comenta que se sente representada assistindo à Dia TV e, de fato, isso não foi planejado. Eu não planejei isso. Foram as pessoas com quem eu convivia: meus amigos, pessoas com quem eu troco, saio para jantar, que me encontram, que chamo na minha casa, e são essas pessoas que fazem a Dia TV. Então foi essa grande mistura que fez com que as pessoas hoje tivessem essa sensação de se enxergar na televisão. E eu adoro isso, porque é nítido e visível que não havia esse espaço na TV. Quando as pessoas dizem que a gente é uma “MTV da internet”, é porque lá também havia muita representatividade. Então, mais do que falar com o público jovem, que eu acho que é uma marca nossa, é sobre todo mundo poder se enxergar ali no meio de todas aquelas pessoas.
Andrei Lara: Vocês já abriram inscrições para novos apresentadores da Dia TV, buscando talentos não só entre creators, mas também entre pessoas que simplesmente têm o sonho de se comunicar. Como funciona esse olhar para novos apresentadores hoje? E por que é tão importante oferecer essa oportunidade para quem nunca teve acesso aos grandes meios?
Rafa Dias: Já buscamos um novo apresentador para a grade com o reality Você na Dia TV, e o Luan Iaconis foi quem ganhou. Hoje ele apresenta o Pra Variar e tem um espaço de bastante destaque na programação. A gente acha muito importante que as pessoas possam se inscrever. Tem muita gente talentosa, e a internet possibilita isso: que as pessoas mostrem seu talento. Então vamos constantemente fazer iniciativas como essa para revelar novos talentos.
Andrei Lara: A gente vê o brilho, o colorido, o humor no ar, mas nos bastidores tem pressão, entrega, tecnologia, equipe gigante. O que foi mais difícil de estruturar na Dia TV nesses últimos tempos: a parte técnica, a gestão de pessoas ou segurar a saúde mental no meio de tanta cobrança?
Rafa Dias: Ah, o brilho, o colorido, o humor no ar… Nos bastidores tem tecnologia para caramba, principalmente por ser uma televisão digital. Mas hoje a gente vem numa evolução. A Dia é uma empresa que tem 12 anos, então nesse tempo aprendemos muita coisa: tecnologia, ferramentas, equipamentos, maneiras de produzir. Eu costumo falar que 90% das pessoas da Dia, e isso varia sempre entre 90 e 95%, nunca trabalhou com televisão. Então a TV que a gente faz é diferente, e naturalmente a maneira como a gente faz também é diferente. Estamos sempre tentando nos atualizar em gestão e em tudo mais, para entregarmos algo atual para todos os profissionais que estão ali no dia a dia. Tem muita cobrança, claro, porque somos uma empresa que precisa pagar as contas, mas tudo o que a Dia faz nesses 12 anos é investido nela mesma. E é muito nítido: os colaboradores percebem esse investimento na programação, na sede, nos espaços… em tudo.
Andrei Lara: Falando de negócios: quais são os maiores desafios hoje para fazer uma emissora como a Dia TV se sustentar e crescer? É convencer marcas mais conservadoras, é diversificar receita, é manter a audiência engajada todo dia?
Rafa Dias: Hoje, o maior desafio da Dia para crescer é conquistar cada vez mais público. É isso. E eu nem falo isso por algo conservador, mas porque é muito gostoso ter esse desafio de todo mês, querer aumentar o público e ver esse número crescer. Essa é a parte mais legal: ver que estamos conseguindo. Em maio, a Dia faz três anos, e se a gente parar para pensar no que era a Dia lá no começo e no que somos hoje, vemos o quanto crescemos, o quanto essa história está acontecendo e o tanto de registro que já temos. Então esse é o nosso maior desafio, e também o mais legal de todos.
Andrei Lara: Quando você olha para os próximos 12 meses, qual é o grande passo que você ainda não deu com a Dia TV e que quer muito tirar do papel? Tem algum sonho de projeto, parceria ou formato que ainda não aconteceu, mas já está rondando sua cabeça?
Rafa Dias: Quando olho para os próximos 12 meses, penso no grande passo que ainda não dei com a Dia TV e que quero tirar do papel. Ano que vem, em abril, vamos lançar coisas históricas, e a Dia já é o meu maior sonho da vida. Eu era uma criança que transformava a janela do meu quarto em TV nos eventos da família: dia das mães, dia dos pais, aniversário do meu irmão. Eu colocava todo mundo do outro lado da janela para assistir ao teatrinho de fantoches. E hoje ter uma televisão de verdade, com essa “janela” que todo mundo assiste, é um sonho. Em abril, vamos deixar isso ainda maior. Eu garanto que vamos surpreender muito todo mundo. Vai vir muita coisa legal e surpreendente para essa audiência.

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