Aristóteles DrummondAristóteles Drummond

O núcleo mais representativo do que existe de melhor na elite brasileira, considerando raízes familiares históricas, cultura, elegância e exemplo de total dignidade no comportamento, vai ficando cada vez mais pobre.

Na semana passada, o Rio de Janeiro e o Brasil perderam um destes homens que souberam representar bem o que houve de melhor na sociedade. Foi José Nabuco Filho, neto de Joaquim Nabuco, pelo pai, e do estadista da República Afrânio de Melo Franco, pelo lado materno.

Zezé Nabuco, como era conhecido, era filho de D. Maria do Carmo, referência de mulher brasileira por décadas do século passado na vida nacional, e o pai era um advogado respeitado e admirado – o casal tinha simpatias monárquicas herdadas de seus maiores. D. Maria do Carmo teve irmãos de grande presença nacional na diplomacia e na política – Virgílio, Afrânio, Caio e Afonso Arinos, formados na escola ética e moral do patriarca Afrânio de Melo Franco, chanceler que marcou a Casa de Rio Branco. E os filhos marcaram pela postura elegante e correta no Brasil de seu tempo. Assim era não só o estimadíssimo Zezé, mas também o irmão Joaquim Aurélio e as irmãs Maria do Carmo (Nininha) e Maria Silvia (Vivi), além dos já falecidos Afrânio e João Maurício.

O advogado José Nabuco, relevante por décadas entre os escritórios sediados no Rio, foi exemplo de gerações que atuaram nas lides jurídicas, com uma discreta presença em inciativas filantrópicas, culturais e sociais. E soube legar aos filhos e netos este compromisso.

O texto escrito pelo advogado Heitor Bastos-Tigre nas redes sociais é impecável em mostrar a personalidade deste homem que, mesmo discreto, soube ser relevante na vida do Rio de seu tempo. Acrescentaria apenas que Zezé, pela vida, temperamento e comportamento, tinha odores de santidade pela absoluta incapacidade de fazer o mal e a presença da fé em sua vida.

Importante que se saiba que ainda temos referências de um Brasil de categoria, espírito público, militância profissional correta, austera. Apesar de altas funções tanto no setor público como no privado, nunca um Nabuco ou um Melo Franco foi envolvido em algo questionável.

Lembrar o suave Zezé é constatar que podemos voltar a ter uma elite no Brasil, afastada nas últimas décadas pelo desvirtuamento das carreiras públicas, da monetização de carreiras nobres como a do Direito, da ideologia na diplomacia e pela demagogia na busca de mandatos.
Aristóteles Drummond é jornalista