Kakay16abronlineARTE KIKO

“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.”
Pablo Neruda
É necessário reconhecer que o mundo é cada vez mais enfadonho, estranho e, de vez em quando, tem um certo ar falso. Acompanhar o dia a dia do Brasil às vezes parece um filme bizarro, em que nós, com alguma lucidez, não temos lugar. Os programas de auditório, com vários jornalistas comentando sobre absolutamente tudo, mais parecem papos de mesa de boteco.
Enquanto a política interna se esforça para manter uma polarização cansativa, as ações atabalhoadas do presidente dos EUA fazem, muitas vezes, com que até mesmo os mais toscos políticos brasileiros pareçam razoáveis. A última do Trump foi postar uma imagem dele próprio, vestido de Jesus Cristo, curando um enfermo. Talvez nem Bolsonaro fosse capaz de tamanha sandice. E essa postagem veio após ele investir contra o Papa! Chegando a dizer que o Papa só foi escolhido porque ele, Trump, é o Presidente dos EUA. São entrevistas de um ser que apresenta graves indícios de insanidade e de desequilíbrio. Mas que ainda concentra um enorme poder na liderança de um país em decadência.
Em um mundo conturbado, com grandes mudanças na geopolítica global, é possível identificar descompassos internos no nosso país que geram profundas inseguranças. Há uma deliberada tentativa de desestabilizar o Judiciário, especialmente por meio de ataques sistemáticos contra o Supremo Tribunal e contra alguns de seus ministros. Muitas das críticas são encetadas mais pelos acertos recentes do que pelos erros.
É preciso registrar que a estabilidade democrática só se manteve graças à atuação firme e decidida da Suprema Corte. Não fosse o STF, hoje estaríamos mergulhados numa Ditadura. E, para piorar, no meio da crise, a Corte resolve, acertadamente, enfrentar o gravíssimo caso dos desvios orçamentários. A reação, infelizmente, era esperada, mas o momento se tornou mais delicado.
Tivemos um relatório elaborado pela CPI do Crime Organizado - que, em tese, foi instalada para apurar as facções criminosas e as milícias -, que se afasta completamente do objeto para mirar na cúpula do Supremo Tribunal e até no procurador-geral da República. Pedia o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal e do chefe do Ministério Público Federal, até mesmo em razão de discordância de decisões proferidas pelo ministro Gilmar Mendes.
Uma proposta completamente desvirtuada que só contribui para uma ideia crescente em Brasília: a de que, infelizmente, a espetacularização, o jogo político e o circo montado fazem com que as Comissões Parlamentares de Inquérito, um importante braço do Legislativo com poderes inerentes aos do Judiciário, deixem de ser relevantes e se tornem um atraso. Com a opção deliberadamente política de atacar o Supremo Tribunal, jogando para setores que atuam na desestabilização democrática, fica no ar que parte do Senado aposta no caos.
O relatório, claro, foi rejeitado por 6 a 4 e vai para a lata de lixo da história. Mas a ultradireita fez o barulho político que pretendia, mesmo sabendo que o documento não poderia ser aprovado.
Importante a manifestação do ministro Flávio Dino sobre o relatório: “É uma irresponsabilidade investigar o crime organizado e não tratar sobre milicianos, traficantes de drogas, vendedores de armas ilegais, garimpos ilegais, facções que controlam territórios, matadores e pistoleiros, etc”.
Mas não vamos nos iludir: em um ano eleitoral, tudo faz parte de um jogo pelo poder. A ultradireita pensa que atacar o Supremo Tribunal desgasta o governo Lula. Será um período cansativo e perigoso.
Impossível não nos lembrar do velho Rui Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, de rir-se da honra, de ter vergonha de ser honesto.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay