Kakay23abronlineARTE KIKO

“É no ínfimo que eu vejo a exuberância.”
Manoel de Barros
Sou um cara antigo. Na minha pequena Patos de Minas, não havia televisão. Obviamente, celular, nem pensar. Eu era dos livros, da poesia improvisada e do verso feito na mesa do bar. A gente se encantava pelo verbo. Era um tempo de charme e de conversa. Não existia cartão de crédito. Ou, se já existia, a gente nem sabia. Desde aquela época eu lia sobre Paris. Sobre os poetas franceses. E, especialmente, sobre um poeta, cantor e artista armênio com ares da França.
Impossível amar Paris, ser amado em Paris, ser traído em Paris e viver amorosamente em Paris sem ouvir Charles Aznavour com sua adorável Hier Encore. Já chorei lágrimas amazônicas ao me apaixonar por essa música. Esse mágico cantor armênio, grande compositor, foi ator e diplomata. Atuou em mais de 60 filmes e compôs cerca de 850 canções. Mas poderia ter feito uma só. A que nos embala e emociona. Ainda agora, sentado num restaurante aqui em Saint-Germain, em Paris, pude ver a emoção silenciosa da música e da recitação: “Hier Encore, j’avais vingt ans”, “ainda ontem, eu tinha vinte anos”, que lindo. Que tudo. Peço que leiam este artigo ouvindo a música. Tudo faz mais sentido.
Mas a letra serve para todos nós nos lembrarmos de quando tínhamos 20 anos. No meu caso, vivíamos uma Ditadura cruel e silenciosa. Eu estava entrando na UnB, o AI-5 mandando. Restava a resistência poética para quem não fazia o enfrentamento político como meu ídolo Zé Dirceu. O mundo forjou cada um de nós com seu poder de alinhar os detalhes de quem somos hoje.
Agora, volta a angústia democrática. Outra vez, ronda o espectro do fascismo. De novo, os milicianos batem às portas. Resta uma resistência em nome dos princípios mais básicos. Liberdade. Democracia. Igualdade, talvez seja pedir demais. Mas é como se eu gritasse: “ainda ontem, eu tinha 20 anos! Acariciava o tempo e brincava com a vida”. Não vou mais permitir que “desperdiçava o tempo, acreditando detê-lo”.
Nós somos os donos do nosso tempo, ou temos que acreditar nisso e fazer o nosso tempo derrotar o fascismo e a opressão. Outra vez. Como se tivéssemos, outra vez, 20 anos.
Como nos lembrava Pessoa: “O homem é do tamanho do seu sonho.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay