A economia brasileira ganhará produtividade e competividade com melhor uso da inteligência artificialMarcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil vive um paradoxo tecnológico. Nunca se falou tanto em inteligência artificial, mas raramente se discutiu com intensidade como utilizá-la de forma estruturada para resolver os gargalos históricos de produtividade nacional. A IA deixou de ser um tema futurista e passou a ser uma ferramenta concreta de competitividade econômica. Sua adoção, no entanto, ainda é desigual, fragmentada e, muitas vezes, superficial. O problema brasileiro não é a falta da tecnologia, e sim a falta de estratégia para integrá-la aos setores que sustentam a economia real.
Na agricultura, por exemplo, a inteligência artificial já demonstra impacto direto e mensurável. Estudos citados por iniciativas do setor indicam que o uso de IA pode elevar a produtividade agrícola em até 20% e reduzir perdas por pragas e eventos climáticos em até 30%, números especialmente relevantes para um setor que responde por mais de 23% do PIB nacional. Mais do que inovação, trata-se de sobrevivência competitiva: a própria demanda global por alimentos deve crescer significativamente até 2050, pressionando países produtores a aumentar eficiência e previsibilidade produtiva. Ainda assim, pesquisas mostram que entraves como falta de infraestrutura, custos e sobretudo falta de entendimento técnico continuam entre os principais obstáculos para adoção tecnológica no campo brasileiro.
Na indústria, a lógica é semelhante. Sistemas baseados em inteligência artificial e robótica permitem automatizar tarefas, operar máquinas com maior precisão e reduzir desperdícios, ampliando a eficiência. A integração entre IA, sensores e sistemas autônomos é hoje um dos pilares da automação moderna e da chamada indústria avançada, tornando a capacidade de incorporar essas tecnologias um fator decisivo de competitividade econômica. Em um país ainda marcado por custos logísticos elevados, baixa digitalização industrial e produtividade estagnada, ignorar essa transformação significa aceitar perda progressiva de espaço nos mercados internacionais.
O setor de serviços, responsável pela maior parcela do PIB brasileiro, talvez seja o campo onde a revolução da inteligência artificial será mais silenciosa e mais profunda. Ferramentas de análise de dados, automação de atendimento, previsão de demanda, detecção de fraudes e otimização de processos administrativos já permitem reduzir custos operacionais e aumentar a qualidade das decisões. A IA não substitui necessariamente o trabalho humano, mas redefine a forma como ele é organizado, deslocando valor econômico para quem consegue combinar inteligência humana e sistemas automatizados de decisão.
Essa modernização, no entanto, precisa vir acompanhada de investimentos elevados, mudança cultural e formação técnica especializada. Porque a inteligência artificial não é uma solução automática — ela só produz ganhos reais quando integrada a planejamento operacional, capacitação profissional e governança de dados. Sem isso, corre-se o risco de transformar uma ferramenta estratégica em apenas mais um símbolo de modernização retórica.