O etanol, uma solução tecnológica brasileira, pode ajudar o país a se destacar na política energética mundialmenteJosé Cruz/Agência Brasil

A crise no Oriente Médio, tendo como protagonistas os EUA, Israel e Irã, já provoca calafrios nos países que dependem do petróleo. Com o preço do barril em alta, vale a pena voltar 53 anos no tempo e recordar como uma crise semelhante se transformou em oportunidade para o país.
O ano era 1973. Com o mundo já altamente dependente do ouro negro, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) reduziu sua produção para forçar um aumento do preço. Em apenas um ano, o barril passou de 3,5 dólares para 13 dólares. Por traz do aumento, que afetou o mundo inteiro, estava uma estratégia geopolítica: pressionar as potências ocidentais a retirar o apoio militar dado a Israel na Guerra do Yom Kippur, contra Egito e Síria.
Pagando o alto preço dessa instabilidade, o Brasil se viu diante de três estratégias possível. A primeira, altamente impopular, foi forçar a população a consumir menos gasolina, elevando o preço do combustível e proibindo os postos a funcionar nos finais de semana. A segunda foi prospectar novas reservas de petróleo. Foi o pontapé para as primeiras descobertas e produção de óleo na Bacia de Campos.
A terceira estratégia foi inovadora: substituir o petróleo por fontes alternativas. Foi quando o álcool entrou em cena. Hoje chamado de etanol, ele continua sendo uma solução para que o país invista mais numa solução nacional renovável e concentre a produção de petróleo principalmente na exportação.
“Bendita crise do petróleo, que nos despertou para os problemas nacionais”, disse, na época, o secretário da Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, Erasmo Dias. “Que devemos procurar petróleo, não há dúvida. Mas, por mais gigantescas que sejam as nossas reservas desconhecidas, elas são finitas, acabam um dia. O álcool não, é eterno, perdurará enquanto existir o sol”.
Em 14 de novembro de 1975, o então presidente Ernesto Geisel assinou o decreto que lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), prevendo volumosas verbas públicas para instituições de pesquisa tecnológica, cultivadores de cana-de-açúcar e usinas produtoras de álcool. Sucesso total, o programa resultou numa tecnologia 100% brasileira – até hoje, uma das mais importantes da história do país. Logo, o motor a álcool era adotado em larga escala pela indústria automobilística.
Além de reduzir a dependência de petróleo do país, o Proálcool criou muitos empregos nas lavouras de cana-de-açúcar e nas usinas. Contribuiu com a redução das emissões de gases do efeito estufa, numa época em que ainda não se falava sobre esse tema. Também impactou positivamente no preço dos combustíveis: além de o etanol custar menos que a gasolina, a própria gasolina ficou mais barata por causa da adição do álcool.
Mas, cinco décadas depois, a história parece ter perdido força. O país que transformou uma crise internacional em política pública estruturante hoje trata o etanol quase como coadjuvante. Em grande parte dos estados, o combustível deixou de ser competitivo frente à gasolina. Faltou direção estratégica. Tributos estaduais desiguais, ausência de uma política de preços consistente e a prioridade quase exclusiva dada à exportação de petróleo do pré-sal enfraqueceram o protagonismo do etanol no mercado interno. O etanol, que já foi política de Estado, virou variável de mercado.
Cada vez que o consumidor opta pela gasolina, o país abre mão de fortalecer uma cadeia produtiva nacional, geradora de empregos no campo, renda no interior e tecnologia própria. Abre mão, também, de reduzir emissões sem depender de subsídios bilionários ou importação de soluções estrangeiras.
A crise no Oriente Médio serve, mais uma vez, como alerta. O Brasil não precisa escolher entre petróleo e etanol. Pode exportar óleo e, ao mesmo tempo, fortalecer um mercado interno sustentado por combustível renovável. Foi essa inteligência estratégica que marcou os anos 1970. Se naquela época a crise nos despertou, hoje a acomodação parece nos anestesiar. Talvez o maior risco não seja o aumento do preço do barril, mas a perda da memória estratégica de um país que já soube transformar vulnerabilidade em liderança energética.