Vendaval arranca árvore pela raiz e atinge carro em Porto RealDivulgação
As tragédias climáticas anunciadas que insistimos em ignorar
Enquanto governos gastam mais para reconstruir do que para prevenir, eventos extremos deixam claro que ignorar a crise climática custa cada vez mais caro.
Não dá mais para tapar o sol com a peneira ou fazer cara de paisagem. As catástrofes ambientais causadas pelas mudanças climáticas são uma realidade. Custam caro, ceifam vidas e arrasam a economia de cidades, estados e países inteiros. Que o diga o Rio Grande do Sul, fortemente atingido por vendavais e inundações na semana passada. Que o digam os fluminenses, que na última quarta-feira (29) enfrentaram ventos de até 120 quilômetros por hora, cujo rastro incluiu mortes, destruição de imóveis e queda de energia. Que escutem os candidatos às eleições de outubro.
Este ano, em especial, começamos a sofrer os efeitos do El Niño — fenômeno climático causado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que, segundo projeções do centro de pesquisa oceânica e atmosférica da Universidade de Miami, deve se refletir no aumento da temperatura média global em 2oC pela primeira vez na história.
O resultado é conhecido. Com as águas do oceano mais quentes, há mais evaporação. O vapor que sobe dos mares forma nuvens densas, que se transformam em tempestades em alguns lugares e secas e temperaturas extremas em outras. No Brasil, a conta costuma chegar no verão, sobretudo no Região Sudeste. Mas, num mundo em mudanças climáticas, há de se esperar de tudo um pouco. Não há mais garantia de invernos frios e secos, nem de chuva em janeiro.
Quem negava a realidade hoje sofre para pagar a conta do prejuízo; que não é baixa. Mas o que mais surpreende é que, diante da crônica de tragédias anunciadas, ainda se faz muito pouco para prevenir. Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) calcula que, desde 2012, a União gastou três vezes mais com ações de resposta e recuperação após inundações e deslizamentos do que com medidas de prevenção.
Não dá mais para repetir esse mantra. Até porque a caminhos viáveis. O Acordo de Paris, firmado em 2015 por quase 200 países, tem como principal objetivo limitar o aumento da temperatura média global a bem menos de 2°C, buscando mantê-la em até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Para isso, os países assumiram o compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, ampliar o uso de energias renováveis, aumentar a eficiência energética, combater o desmatamento e promover o reflorestamento.
O acordo também prevê investimentos em tecnologias limpas, adaptação às mudanças climáticas, apoio financeiro aos países em desenvolvimento e revisão periódica das metas nacionais, para que se tornem cada vez mais ambiciosas e contribuam para conter o aquecimento global.
De quem cobrar? Da União, com certeza. Dos estados, igualmente. Mas também dos municípios. Ações de custo relativamente baixo, como o reflorestamento urbano e rural e a substituição da energia termelétrica por energia solar e eólica, por exemplo, são possibilidades cada vez mais acessíveis. Onde a infraestrutura urbana invadiu o espaço antes ocupado pela natureza, é preciso proteger as nascentes e as margens dos rios, assim como criar e preservar parques urbanos que funcionam como esponjas naturais. E o relatório do TCU está aí para provar que sai mais barato prevenir do que remediar.
O compromisso é de todos, pois estamos falando no planeta Terra, nossa casa comum. E as tragédias climáticas desconhecem fronteiras, nem têm preferência por candidatos de esquerda, centro ou direita.
Está feito o alerta, está dado o recado. Porque, no fim das contas, o maior desastre talvez nem seja o climático, mas o político. A ciência avisa, os relatórios alertam, os números comprovam e as tragédias se repetem. Ainda assim, seguimos tratando prevenção como despesa e reconstrução como vitrine. É mais fácil posar para a foto entregando cheques milionários depois da enchente do que plantar uma árvore antes dela. Enquanto isso, a natureza, indiferente aos calendários eleitorais e aos discursos de ocasião, continua cobrando sua fatura — com juros, correção monetária e, infelizmente, vidas humanas como parte do pagamento.

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