Com a chegada das festas de fim de ano, um problema crescente e silencioso se agrava: o abandono de animais. Durante esse período de confraternizações e alegria, muitos gatos e cachorros, especialmente os mais velhos, deficientes ou com pelagem escura, tornam-se vítimas da negligência humana. A realidade cruel de deixá-los em locais desumanos, como latas de lixo, é cada vez mais frequente, e esse cenário se repete a cada Natal, trazendo à tona a urgente necessidade de conscientização e responsabilidade com a adoção e cuidados com os animais.
A protetora de animais Bruna Saraiva, presidente e fundadora da ONG Ajuda Patas, vive essa triste realidade de perto. Ela afirma que, embora o abandono de animais seja um problema constante durante todo o ano, ele aumenta absurdamente no final de ano. “É um absurdo ainda maior que, próximo e durante uma data que deveria trazer mais amor, união e esperança ao ser humano, como o Natal, continuamos a ver durante décadas casos de abandono, onde os ‘tutores’ são capazes de descartar seus animais como lixo simplesmente porque eles não cabem em seus planejamentos festivos”, desabafa Bruna.
O problema, segundo ela, está na falta de conscientização das pessoas que, ao planejar suas viagens ou compromissos de fim de ano, não consideram o bem-estar dos seus animais de estimação. Muitos optam por abandoná-los ao invés de buscar soluções adequadas, como encontrar alguém para cuidar deles ou procurar uma hospedagem para animais.
Uma tradição cruel que precisa acabar
Bruna, que acompanha de perto a realidade dos abandonos, ressalta a necessidade urgente de mudança. “Até quando os animais pagarão com sua vida por maldades como essa? Precisamos de leis severas para que isso não continue a acontecer no futuro!”, afirma. A protetora denuncia que a falta de empatia e responsabilidade nos tutores de animais torna esse período do ano ainda mais difícil para os animais vulneráveis.
A conscientização sobre a importância de incluir os animais nos planos de fim de ano, buscar soluções alternativas para o cuidado deles e adotar com responsabilidade são medidas essenciais para combater essa realidade cruel.
“O Natal, que deveria ser uma época de amor e união, infelizmente se torna, para muitos animais, uma temporada de sofrimento e abandono”, afirma Bruna.
CRIME Abandonar, maltratar ou privar um animal de água e comida é crime, com pena de 3 a 5 anos de prisão. Já resgatei animais abandonados junto aos parceiros do projeto @anjos.de4patas, salvando alguns, mas infelizmente muitos não resistiram.
E, do outro lado, um Natal iluminado de cães resgatados
Se, de um lado, o Natal evidencia a face mais cruel do abandono, do outro surge uma cena que renova a esperança: o Natal iluminado vivido pelos animais resgatados do Abrigo Ajuda Patas, da protetora e ativista da causa animal Bruna Saraiva, de 34 anos.
O abrigo, localizado em área rural, acolhe hoje cerca de 500 cães, a maioria resgatada em situações extremas de maus-tratos, abandono ou risco de morte. Além dos cães, Bruna mantém um sítio onde vivem burros, cavalos, galinhas e outros animais que também foram salvos de trajetórias de sofrimento.
Sem família e sem um lar para chamar de seu, esses animais encontram no abrigo não apenas segurança, mas uma tentativa de viver o Natal com dignidade e alegria, graças ao empenho da protetora.
“Eles podem não ter uma família humana para celebrar o Natal, mas eles têm a mim e às pessoas que ajudam o abrigo. Eu faço de tudo para que sintam que são amados, porque eles já sofreram demais antes de chegarem aqui”, conta Bruna.
Um Natal diferente para quem nunca conheceu o amor
Todos os anos, Bruna transforma o abrigo em uma grande celebração de afeto. Os cães de porte pequeno, que têm mais facilidade de convivência e manejo, são levados para dentro da casa onde ela mora. Lá, ela monta uma ceia especial, com petiscos, comidinhas caprichadas e um ambiente mais acolhedor, iluminado e festivo.
“A ceia é simples, mas feita com muito amor. Eles ficam felizes, abanam o rabo, alguns se aconchegam no colo… É como se por algumas horas esquecessem tudo o que viveram antes de serem resgatados”, diz.
Nos canis e no sítio, onde vivem os animais de maior porte e os resgatados que ainda não se adaptaram ao convívio doméstico, ela prepara uma programação própria: ração reforçada, alimentação especial, enriquecimento ambiental e brinquedos que chegam através de doações.
“Eu sempre digo que cada animal aqui merece um Natal bonito, porque muitos deles nunca tiveram nada na vida. Eles merecem sentir carinho, respeito e alegria, mesmo que seja por um dia”, afirma a protetora.
Luz em meio à dor
A rotina do Ajuda Patas é pesada, marcada por resgates diários, tratamentos veterinários, gastos constantes com alimentação e medicamentos e a sobrecarga emocional de acolher casos graves. Ainda assim, o Natal se torna um respiro — para Bruna e para os animais.
“Quando vejo eles felizes, brincando, comendo bem, sendo tratados com cuidado… isso me dá forças para continuar. É como se o abrigo ganhasse uma luz especial”, diz.
Para muitos dos cães e demais animais, o Natal no abrigo é o primeiro momento de felicidade genuína após uma vida inteira de negligência.
Um pedido para o futuro
Bruna reforça que seu desejo para os próximos Natais é simples: mais adoções responsáveis e menos abandono.
“Meu maior sonho é que cada animal daqui encontre uma família de verdade. E que um dia eu não precise mais preparar um Natal para 500 cães, porque todos eles terão um lar. Esse é o meu pedido de Natal todos os anos”, finaliza.
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