Em alguns casos, o trauma nos animais não se limita ao momento da festa e pode desencadear respostas comportamentais persistentes, agravando quadros ansiososfotos Freepik

Para muitas famílias, o Réveillon é sinônimo de celebração, encontros e fogos de artifício. Para cães e gatos, no entanto, a virada do ano pode representar um dos períodos mais críticos do calendário em termos de saúde física e emocional. O barulho intenso, repentino e imprevisível dos fogos está entre os principais gatilhos de medo, estresse agudo e ansiedade, frequentemente associado a quadros de taquicardia, tremores, vocalização excessiva, hipersalivação e tentativas de fuga, situações que se refletem diretamente no aumento da demanda por atendimentos veterinários nessa época do ano.
A audição dos animais é significativamente mais sensível do que a humana, o que torna os estampidos ainda mais agressivos. Em alguns casos, o trauma não se limita ao momento da festa e pode desencadear respostas comportamentais persistentes, agravando quadros ansiosos já existentes ou provocando novas manifestações clínicas.
Diante desse cenário, a orientação preventiva aos tutores é essencial, e o médico-veterinário desempenha papel central na educação, no manejo clínico e na proteção do bem-estar desses pacientes.
Fogos de artifício e manejo do estresse
A principal recomendação é que os tutores preparem previamente um ambiente seguro, silencioso e familiar, onde o animal possa se refugiar durante a queima de fogos. Esse espaço deve ser confortável, longe de janelas, portões e áreas externas, e conter itens conhecidos, como caminhas, cobertores e brinquedos habituais, que ajudam a transmitir sensação de proteção e previsibilidade.
O uso de feromônios sintéticos, que simulam sinais químicos naturais associados ao conforto e à segurança, pode auxiliar na redução da ansiedade, especialmente quando iniciado alguns dias antes das festividades. Além disso, medidas simples, como fechar cortinas e janelas, reduzir a iluminação externa e manter portas bem vedadas, contribuem para minimizar estímulos visuais e sonoros que potencializam o medo.
“Música suave ou ruído branco ajudam a reduzir a percepção sonora dos fogos, funcionando como uma espécie de barreira acústica. Em casos de ansiedade intensa, é fundamental que o tutor procure o médico-veterinário para avaliar, de forma individualizada, o uso de calmantes naturais, nutracêuticos ou, quando indicado, terapias farmacológicas”, orienta Francis Flosi, médico-veterinário.
O especialista ressalta que a automedicação é contraindicada e pode representar riscos graves à saúde do animal. Medicamentos inadequados, doses incorretas ou o uso sem orientação profissional podem agravar o quadro clínico, causar efeitos adversos e mascarar sinais importantes. Cada paciente deve ser avaliado de acordo com idade, espécie, histórico clínico, condição de saúde e intensidade dos sintomas, garantindo um manejo seguro e eficaz.
Quando o medo vira caso clínico
Na rotina veterinária, é comum que o impacto dos fogos vá além do desconforto momentâneo. Há relatos frequentes de animais que chegam às clínicas com crises de pânico, lesões provocadas por tentativas de fuga, automutilação, hipertermia e descompensações cardíacas ou respiratórias, especialmente em pacientes idosos ou com doenças pré-existentes.
Em cães com histórico de ansiedade ou sensibilidade a ruídos, o Réveillon pode intensificar comportamentos como destruição de objetos, vocalização contínua e tremores persistentes. Em gatos, o estresse costuma se manifestar de forma mais silenciosa, com isolamento prolongado, perda de apetite, alterações urinárias e agravamento de quadros como a cistite idiopática felina.
Esses casos reforçam a importância do acompanhamento veterinário prévio, sobretudo para animais que já apresentaram reações intensas em anos anteriores. O manejo antecipado pode evitar emergências e reduzir significativamente o sofrimento do pet.
Alimentação: riscos que se repetem nas festas
Outro ponto crítico nas celebrações de fim de ano é a alimentação. A ceia de Réveillon geralmente inclui alimentos inadequados para cães e gatos, como carnes muito temperadas, alimentos gordurosos, doces, chocolates e bebidas alcoólicas — todos potencialmente tóxicos ou de difícil digestão.
“Cabe ao veterinário reforçar com os tutores que esses alimentos representam riscos significativos, podendo causar intoxicações, pancreatite, distúrbios gastrointestinais e até quadros neurológicos. O ideal é oferecer apenas petiscos próprios e seguros para a espécie”, alerta o profissional.
Manter o animal longe da mesa e orientar convidados a não oferecer comida são medidas simples, mas fundamentais.
Identificação e prevenção de fugas
O medo provocado pelos fogos de artifício está entre as principais causas de fuga de animais nessa época do ano. Portões mal fechados, janelas abertas e grades improvisadas aumentam consideravelmente o risco. Por isso, a identificação correta do animal é uma medida preventiva indispensável.
“Coleira com plaqueta de identificação, cadastro atualizado e, sempre que possível, a microchipagem são fundamentais para aumentar as chances de retorno do animal ao lar”, afirma Francis Flosi.
Planejamento para emergências veterinárias
A orientação aos tutores deve incluir, ainda, o planejamento para possíveis emergências. Verificar com antecedência os horários de funcionamento de clínicas e hospitais veterinários durante o período festivo pode fazer toda a diferença em situações críticas.
“Muitos serviços operam em regime de plantão. Ter os contatos de emergência organizados e acessíveis pode ser decisivo em casos de intoxicação, crises de ansiedade severa ou acidentes”, reforça o especialista.
Réveillon sem sustos: orientações práticas para tutores
Prepare um local de refúgio silencioso e confortável
Antecipe o uso de feromônios ou estratégias calmantes, com orientação veterinária
Feche portas, janelas e cortinas antes do início dos fogos
Use música suave ou ruído branco para abafar sons externos
Não force interação nem repreenda o animal durante episódios de medo
Nunca medique o pet sem prescrição veterinária
Mantenha o animal identificado, com coleira, plaqueta e, se possível, microchip
Tenha em mãos os contatos de clínicas e hospitais veterinários de plantão