Nem tudo é incerteza nessa decisão do pato Donald Trump de taxar em 50% as mercadorias brasileiras. No mercado flutuante das feiras livres, a notícia vem deixando os fregueses otimistas. Sim, porque a expectativa é que tudo que não embarcar para a América, vai parar no mercado interno. Aqui, no caso, na feira do Engenho de Dentro.
Afinal, essa é a lei do feirante desde antes mesmo do nascimento de Cristo, quando, ainda não existiam sequer as quitandas, o que dirá os supermercados. De manhã cedo, os preços estão em alta, as frutas mais frescas, as verduras verdinhas.A freguesia também é mais abastada, tem mais dinheiro no bolso e espaço nas bolsas para preencher com o peixe mais bonito da bancada de pescados. Mas à medida que a hora avança, quando vai dando meio-dia, esse mercado flutuante muda: é a hora da xepa.
O que se espera nesse momento de incertezas intercontinentais é que o horário da xepa nesses primeiros dias aconteça bem mais cedo, já no início do dia: afinal, como escoar da noite pro dia tudo que não será mais enviado para a terra de Tio Sam ?
Diante do fenômeno, Ibiapina propôs na reunião aqui no Principado de Água Santa, que a gente fizesse uma caravana para a feira de domingo.
Maravilha – disse Júlio. E completou: não vamos permitir que a laranja brasileira apodreça no pé. Vamos fazer caipirinha da fruta.
A euforia me fez lembrar do Manolo. Vizinho antigo aqui do bairro, ele não perdia uma feira de domingo. E ia sempre animado, com suas duas bolsas. Mas elas iam e voltavam vazias. Explico. Para o Manolo, o que importava mesmo era o programa. Ia de barraca em barraca, conversando, encontrando amigos. E, de quebra, aceitava todas as provas que lhe eram oferecidas pelos feirantes.
Experimenta aqui essa melancia que separei para o freguês -. E assim, Manolo voltava para casa com o bucho cheio e as bolsas vazias...
Teve outro vizinho, o Pinduca, que bem que tentou ganhar uns trocados se oferecendo para fazer um tipo de delivery para os amigos. Ele pegaria as encomendas e levaria pessoalmente até a casa dos fregueses. Mas ninguém da turma aceitou. Freguês de feira é uma atividade individual e intransferível.
Numa dessas idas à feira, eu descobri um golpe na barraca dos peixes. O feirante pegava um peixe grande, tipo, namorado, e colocava um peixe menor, boca abaixo do grande. Quando o freguês pedia pra pesar, dava bem mais alto o peso. Na hora de limpar o pescado, ele batia com força na barriga do peixe grande para retirar de dentro o sobrepeso do peixe pequeno. Era o golpe do peso falso. Comentei com os amigos, e passamos a comprar o pescado com um olho na balança e o outro no feirante.
Com golpes, xepa, produtos baratos ou não, o importante, amigos, é que as feiras continuam livres. E nós também.
Ainda bem que ainda não inventaram a feira artificial.