Confiando, mais ou menos, nas previsões do tempo, o Conselho dos mais velhos do Principado da Água Santa resolveu manter agasalhos na caverna. A decisão é para os dias que estão chegando. O sol lusco-fusco dos últimos dias não nos engana.
Sabedoria, ou experiência? Talvez seja malandragem. Quem mora no Rio sabe que nessas épocas tudo pode acontecer. Lembro de um período mais antigo, quando a notícia de hoje só podia ser lida no dia seguinte, que, para evitar erros de informação, os jornais populares publicavam previsões incertas, como “Amanhã, o céu deve ficar de ensolarado a encoberto, com possibilidade de chuvas”.
E mesmo hoje, quando a previsão pode ser revista na velocidade dos ponteiros do relógio, ainda assim volta e meia somos surpreendidos com mudanças bruscas.
Daí a decisão de manter aqui casacos e guarda-chuvas dos amigos. Mas como somos muitos e o velho cabideiro de madeira é um só, Fred avisou que vai providenciar armário para abrigar as roupas, boinas e outros abrigos anti-frio.
Proposta bem recebida e seguimos com a pauta. Mas, se a roupa agasalha o corpo, o alimento é que esquenta a alma. Adilcinho fez constar na ata da reunião que está na hora da Sopa-do-Cavalo-Cansado retornar ao cardápio dos eventos permanentes do grupo. Afinal, como disse, a sopa ajuda a esquentar e não tira o churrasco do menu principal.
Júlio, descendente de portugueses, lembrou de acrescentar o vinho, bebida que deve estar presente à mesa de qualquer sopa. Quase foi aplaudido de pé.
Uma ótima ocasião para inaugurarmos a pequena adega em mogno, com prateleiras ligeiramente inclinadas para baixo, para as garrafas de vinho tinto e verde. Combinamos de fazer uma expedição no dia seguinte ao Cadeg, que tem esse nome porque um dia foi o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara, mas hoje é o Mercado Municipal. Lá, refizemos o estoque que havia sido consumido no inverno passado.
Enquanto buscávamos as bebidas, a patroa providenciou os legumes, as verduras e as carnes e os salgados. O fogão movido à lenha tá limpo, aguardando o panelão. Tudo e todos de prontidão.
E, amigos, não pensem que a passarinhada foi esquecida: todas as aves já estão devidamente alimentadas.
Mas as carnes bovinas estão na geladeira, de molho, marinando em vinhadalhos – como os mais velhos costumavam dizer. Uma delícia!
O vizinho dos fundos planta cebolinha, tomate, pimentão e outras iguarias. São dele os temperos que usamos por aqui. Sem agrotóxico. Viva a natureza pura.
Pimenta de cheiro, amigos e amigas, é a gosto. Claro, para quem gosta.
O Ronaldo vem do Leblon. Ele não gosta do sopão. Fica só no churrasco. Ah, e na cerveja.
Um vizinho pão duro que não vou contar o nome por discrição, contribuiu com um saquinho de sal. Sal refinado!
Outro contribuiu com pratos de papelão pra sopa, vejam só.
– Mas são inquebráveis! – defendeu.
– E dissolvíveis em caldo quente – retrucou Ibiapina.
Melhor então comer tremoços?
Mas, voltando ao menu anterior, antes dos pratos de papelão para quem não gosta de sopão, podemos improvisar um bom caldo verde, usando as folhas trazidas pelo vizinho. Afinal é outro prato típico que serve para aquecer as manhãs, tardes e noites frias que andam aparecendo sem aviso prévio aqui pelo Principado.
Só espero que não me apareça outro sovina trazendo palitos!