Sociólogo Fábio GomesArquivo pessoal
SIDNEY: Baseado em sua pesquisa, quais os principais aspectos que o eleitor procura em um político?
FÁBIO GOMES: Observei, em processos qualitativos, quatro dimensões da idealização de uma candidatura, dessa tentativa do eleitor de encontrar um voto que seja mais assertivo frente às suas expectativas. Ele quer alguém que saiba fazer: competência para desenvolver o mandato com equipe e organização de suas funções; que sabe o que fazer: conhece o território, as demandas e as prioridades; que consiga fazer: com articulação, pois, na percepção do eleitor, na política não se resolve tudo sozinho; e que queira fazer. Esses quatro eixos são fundamentais na busca do eleitor por uma candidatura.
No livro, o senhor afirma que a decisão do eleitor começa antes da campanha. Nesse sentido, qual é o papel do marketing político?
A decisão é, antes, sobre um modelo, a idealização da candidatura frente aos desafios a serem enfrentados, as prioridades e as expectativas de ganho futuro. É lógico que existem aspectos na dimensão racional e emocional. Há um campo afetivo e um de expectativas objetivas. Quando o eleitor vai interpretar as candidaturas, interpreta pela linguagem. Essa linguagem é a apresentação das candidaturas pela comunicação política. A comunicação vencedora é a que mais se aproxima da expectativa do eleitor, da construção que ele faz no dia a dia, na vida antes do voto. O julgamento é impactado pela comunicação e atinge os sentidos do eleitor, que reage às provocações da comunicação com razão e com emoção. Na razão, a partir do gerenciamento da informação; na emoção, a partir do relacionamento percebido com aquela candidatura. Tudo isso é executado pela comunicação política.
O senhor faz uma relação entre a insatisfação do brasileiro com a vida sexual e as eleições. Como essas frustrações influenciam na urna?
Não é uma associação direta com o voto, mas sim com aquilo que afeta o cotidiano das pessoas, que, enfim, acaba influenciando o voto. Há uma análise cruzada nesse sentido com a percepção das expectativas dos eleitores frente a uma candidatura que deve resolver suas questões de bem-estar. Quando analisamos a insatisfação com a vida sexual ou com o relacionamento com as outras pessoas, esses impactos podem se relacionar com assuntos que envolvem políticas públicas de saúde, preocupações excessivas – que podem ser regidas por ausências governamentais – e geram desestímulo sexual. O cidadão reputa bem uma candidatura a partir da expectativa de solução que projeta para a sua vida.
Em tempos de polarização, a sua pesquisa aponta que menos de 15% dos brasileiros escolhem candidato por ideologia. Partidos políticos não influenciam o eleitor?
Há uma influência grande, mas é possível observar algumas movimentações desde 2022. Hoje, temos dois tipos de influência. A flâmula identitária, partidária e ideológica bastava para escolha: ou é Bolsonaro, ou é Lula. Agora, vemos pessoas que se consideram de esquerda, mas não são lulistas; há pessoas que se consideram de direita, mas não são bolsonaristas. E há uma movimentação desses posicionamentos ideológicos fazendo parâmetros para a escolha. Eleitores que votam exclusivamente pela legenda, como um time de futebol, sem expectativa de ganho futuro, formam apenas 15%. Também temos aqueles que consideram a proposição da direita e da esquerda. Para eles, a esquerda é mais social e a direita é mais do desenvolvimento econômico. Porém, essas associações estão relacionadas à expectativa de ganho, não é somente pelo partido político. É a associação entre uma expectativa com uma flâmula partidária mais dedicada ao campo desejado. A ideologia não morreu e a associação com o partido também não. Mas, para a maioria dos eleitores, são referência para questões objetivas da escolha eleitoral.
Como os políticos podem conquistar o eleitor que não se identifica com nenhum dos polos radicais?
Nossas pesquisas indicam o poder do voto do centro. Há eleitores que se identificam com parte dos dois polos; outros, não se identificam com nenhum deles. Esses grupos somados formam um contingente expressivo dos eleitores brasileiros e definem a eleição. Tanto define que em 2022, Bolsonaro e Lula se aproximaram muito do centro, ainda que mandassem sinais para os extremos. A questão é o equilíbrio. Lula e Bolsonaro fizeram bem isso. É possível alcançar esse equilíbrio por meio de articulações dessas diferenças, sobretudo nas bandeiras do desenvolvimento econômico e social. É possível trabalhar a bandeira de cada polo de forma equilibrada, como já foi feito na última eleição.
Ao longo dos anos, o eleitor brasileiro mudou de perfil?
Tivemos uma mudança, sim. Boa parte dos centros de estudos das Universidades, dos departamentos de Ciência Política e Comunicação identificaram um ponto de virada nas manifestações de rua de 2013. Passamos a observar a estruturação discursiva do Bolsonaro promovendo o protagonismo dos polos. A partir disso, a movimentação dos eleitores se tornou presente. Observa-se um eleitor de direita, antes mais recuado, mais cuidadoso em algum sentido, mais encorajado para defender os seus valores. Vimos aflorar na manifestação pública e nas declarações dos eleitores, regidos também pelas facilidades das redes sociais, uma exposição mais clara dos seus posicionamentos políticos. Isso era mais evidente na turma da esquerda, e passou a emergir nos valores de direita, que eram tratados de forma mais discreta. Por isso, não acredito que o pensamento político do brasileiro mudou. A manifestação do pensamento político é que surgiu com força nos últimos tempos.
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